Crítica Teatral
Quando a fanfic sobre “Estranhos” toma outras dimensões
As composições musicais, assinadas por muitas mãos, também são pontos altos da peça. Misturam referências pop e melodramáticas que funcionam bastante para brincar, sem perder um certo rigor da linguagem, nos mais variados momentos.
por Carlos Canarin (@ocanariocritico)
Este é o meu último texto sobre um espetáculo que fez parte da Mostra Fringe desse ano, com foco na Mostra Novos Bifes. O musical curitibano “Estranhos no ônibus” finalizou a programação, que misturou diferentes estilos e perspectivas da dramaturgia contemporânea, explorando temáticas como memória, pertencimento, autobiografia, revisão dos clássicos e, agora, chegamos de fato ao musical como linguagem. Nos espetáculos anteriores da Mostra a música estava de alguma forma presente, mas nessa obra específica o fazer se aproxima muito do que é feito pelo grupo Bife Seco se penso na obra “O Fantasma de Friedrich”, por exemplo. De fato, poderíamos dizer que “Estranhos” senta-se à mesa no banquete musical, servindo ao público uma dramaturgia autoral que de certa forma dá mais um passo para pensarmos e afirmarmos a existência do teatro musical fora do eixo Rio-São Paulo.
O trabalho nasceu por integrantes da Síncope, espaço de formação na cidade que também oferta cursos de formação na linguagem musical, que é coordenado por Júlia Dassi (presente também no elenco) e Vicki Napoli. A proposta narrativa é, a partir do cenário de um ônibus e de uma viagem que parece contínua, acompanhar a história da formação inesperada de um “casal”. Guiados por personagens coadjuvantes que acabam roubando a cena, somos transportados para um vermelhão (um ônibus biarticulado que corta a cidade e leva centenas de pessoas por dia), e seus personagens que de alguma maneira moram no imaginário urbano.
Se estamos falando de ônibus, já sinalizo algo que senti falta: o seu movimento, que acaba sendo fisicalizado desde o momento que você se desespera para correr até uma estação-tubo quando vê que seu ônibus está chegando. Esse balanço/tremedeira parece sumir do espetáculo, sendo que o único movimento corporal é o de uma parada brusca, que modifica o cenário. Seria interessante acompanhar o texto sendo dado, e mesmo as músicas cantadas/dançadas, dentro desse registro que está também presente no dia a dia. E não penso na busca por uma verossimilhança, mas pelas oportunidades de fugir duma calma/inércia física das personagens. Penso que a troca de desenhos de cena com as cadeiras e estruturas que lembram apoios de mão ajudam a ilustrar um registro imagético do transporte, mas parece faltar algo a mais no corpo do elenco.
Acabei de falar sobre coadjuvantes, e preciso mencioná-los diretamente. Em musicais, costumo ficar mais interessado nas personagens que não estão exatamente no foco da história mas que sem elas seria inevitável contá-la. Guilherme Stockler e Gabi Cosmo são o fio condutor narrativo, e guiam muito bem os momentos do espetáculo; seria impossível separá-los, pois é por essa dupla improvável de personagens antagônicos que penso morar esse “espírito animal” engraçado e envolvente de “Estranhos”. Para mim, são os destaques.
As composições musicais, assinadas por muitas mãos, também são pontos altos da peça. Misturam referências pop e melodramáticas que funcionam bastante para brincar, sem perder um certo rigor da linguagem, nos mais variados momentos. Acho ousado manter a referência da broadway, desses musicais mais consagrados, sem perder o deboche, a zoação mesmo. O espetáculo pede isso, na verdade. São atrizes e atores jovens, contando uma história a partir de sua perspectiva dentro de um mundo cheio de informação, de meme, de virais. E no final das contas, tudo isso é bem utilizado num saldo final, especialmente na parte das músicas.
Mas então é inevitável que eu não discuta um pouco sobre o texto dramatúrgico. Penso que até ali pro meio do espetáculo quase indo pro final tudo estava ok pra mim. Eu havia entendido a mensagem, até pensei que o protagonista teria uma virada gay. Mas a reviravolta que acompanhamos… não me pegou. Infelizmente é impossível a gente não descolar a arte da realidade, seja como espelho, seja como fabulação. E o que é feito no final enquanto narrativa acaba não sendo uma escolha acertada. Brincar com esses assuntos sérios, num país que discute assédio e violência contra a mulher é mexer num vespeiro que não leva a lugares interessantes. Uma mulher é retratada como louca enquanto o homem acaba sendo a “vítima” e sai ileso, e isso também é reforçar estereótipos. Entendo a necessidade de alterar os finais já postos, dentro do que se esperaria numa dramaturgia de musical. Mas gente, temos uma protagonista negra, dentro duma história que poderia rumar para soluções mais interessantes, sem adentrar exatamente nessas contradições. Temos outros personagens que sequer foram trabalhados e que poderiam desempenhar outras funções dentro do desfecho…
Encerro com esse puxão de orelha para que novamente, na ânsia de ser cool demais, não acabemos por repetir as mesmas lógicas de opressão da sociedade. E o teatro não está livre disso – muito pelo contrário.

