Música
O som que vem de dentro: Luana Godin transforma vivência em música no álbum homônimo
Cantora e multiartista Luana Godin lança álbum homônimo com sete faixas autorais que atravessam MPB, pop e influências latinas para explorar temas como amor, perda, autoestima e questões sociais, em um trabalho que marca sua maturidade artística e aprofundamento pessoal.
Foto: Miriane Figueira
Som Que Vem Delas
Na coluna O Som que Vem Delas, a gente acompanha artistas que não apenas cantam mas constroem narrativas, tensionam o presente e expandem suas próprias linguagens. É nesse território que a cantora, compositora e multiartista Luana Godin finca seu novo trabalho: um álbum homônimo que marca um ponto de virada em sua trajetória.
Com sete faixas autorais, Luana Godin é um disco que respira maturidade artística. A sonoridade caminha entre o MPB pop e pulsações contemporâneas, costurando elementos orgânicos e eletrônicos com naturalidade. A produção musical de Du Gomide, aliada à mixagem de Luigi Castel e à masterização de Fred Teixeira, cria uma atmosfera coesa, onde cada faixa parece ocupar um lugar muito preciso dentro do todo.
Mas é no conteúdo que o álbum ganha força. Em “Manifesto”, Luana flerta com o reggae para falar de desejos, pensamento e construção de realidade, atravessando referências que vão da neurociência à física quântica. Já “Mais um dia” amplia esse universo com um tempero latino que encosta no reggaeton, explorando relações afetivas sob a lente da sensualidade.
Há também espaço para o enfrentamento. Em “A Farofa Tá Pronta”, a artista mistura samba e reggae para escancarar a hipocrisia social e tensionar o racismo estrutural, numa faixa que ganha ainda mais corpo com participações instrumentais que ampliam sua textura sonora. Essa capacidade de deslocamento entre gêneros, temas e intensidades, talvez seja uma das marcas mais potentes do disco.
Em “Vida Bandida”, o pagode baiano e o funk entram em cena para contar uma história de desejo e conflito. Já “Com Você” retorna às influências latinas para propor um olhar para dentro: o amor próprio como ponto de partida para qualquer relação. O disco então desacelera com “Sem Ter Você Aqui”, uma das faixas mais sensíveis do projeto, que aborda a dor de um aborto espontâneo com delicadeza e profundidade, sem perder de vista a possibilidade de reconstrução.
Encerrando o percurso, “Olhar Profundo” celebra a diversidade dos corpos e das belezas, aproximando o pop de elementos do rock, especialmente pela presença marcante da guitarra como um gesto de afirmação e liberdade.
Mais do que um conjunto de músicas, o álbum funciona como um mapa emocional. Luana Godin conduz o ouvinte por temas como autoestima, amor, perda, desejo e as violências cotidianas, sempre com uma estética acessível, mas longe de ser superficial.
Esse universo se expande também no audiovisual. A artista assina direção e roteiro do clipe de “Sem Ter Você Aqui”, reforçando o caráter autoral do projeto. A escolha por uma equipe próxima e colaborativa intensifica o tom íntimo da obra, como se cada camada sonora ou visual fosse uma extensão direta de suas vivências.
Com mais de duas décadas de trajetória na música e experiências que atravessam também o audiovisual e as artes cênicas, Luana chega a este trabalho com domínio de linguagem e consciência estética. Não é um disco de estreia, mas tem a força de quem se reapresenta.
E talvez seja justamente isso que faz Luana Godin reverberar: não é apenas sobre o que se canta, mas sobre o que se assume. Uma artista que olha para si, para o mundo e para o seu tempo e transforma tudo isso em som.

