Música
Bruna Lucchesi faz da estrada poesia em “Bandoleira”
Na coluna O Som Que Vem Delas, a cantora e compositora apresenta um álbum que costura palavra, viagem e encontros em uma sonoridade íntima e pulsante
Foto: Camilla Loreta
Com uma voz que não pede licença, mas também não grita à toa, Bruna Lucchesi constrói em Bandoleira um território onde a canção nasce diretamente da poesia. Seu primeiro álbum autoral é menos um ponto de chegada e mais um movimento contínuo quase um percurso onde cada faixa parece carregada de vivências, encontros e deslocamentos.
Há, em sua escrita, uma atenção rara ao peso das palavras. Não se trata apenas de cantar, mas de entender como a palavra repousa dentro do som. Esse gesto, que já vinha sendo maturado em seu trabalho anterior inspirado em Paulo Leminski, ganha agora contornos mais próprios. Bandoleira é um disco de quem se lança: menos interpretação, mais confissão.
A imagem que guia o álbum, a da viajante, quase uma cowgirl cigana não é apenas estética. Ela atravessa a estrutura do disco, tanto nas letras quanto nas escolhas sonoras. O folk aparece como ponto de partida, mas nunca como limite. Guitarras elétricas, momentos de tensão e crescendos instrumentais ampliam esse universo, aproximando referências que vão de Patti Smith a Gal Costa, passando por Bob Dylan e Neil Young.
O disco também é, assumidamente, um trabalho de encontros. Parcerias com nomes como Fabricio Corsaletti e Helio Flanders evidenciam uma artista que entende a criação como troca. Em “No Lombo de Um Cavalo”, por exemplo, duas vozes e dois violões bastam para sustentar uma crueza que contrasta com produções contemporâneas cada vez mais mediadas por tecnologia. Há aqui uma defesa sutil mas firme da música feita por gente.
Esse mesmo espírito atravessa “Fundo”, parceria com Alice Coutinho, que começa introspectiva e cresce em intensidade, revelando uma das camadas mais densas do álbum. Já nas faixas finais, Bruna abre espaço para traduções e releituras, conectando sua trajetória a outras tradições como no diálogo com o poeta Nanao Sakaki.
Mas talvez o que mais sustente Bandoleira seja sua coerência sensível. Mesmo com múltiplas referências e colaborações, o disco nunca se fragmenta. Ao contrário: tudo parece orbitado por uma mesma força a necessidade de transformar experiência em linguagem.
Bruna Lucchesi canta como quem recolhe histórias pelo caminho e deixa nelas fragmentos de si. Em tempos de automatização da arte, seu gesto soa quase político: insistir na imperfeição, no encontro e na presença como matéria-prima da canção.
No fim, Bandoleira não é só um álbum. É um rastro.
É para quem quer conhecer um pouco mais do trabalho, Bruna Lucchesi, faz show no Paço da Liberdade, em Curitiba, acompanhada pelo músico Hélio Flanders, no dia 16 de março.

