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Crítica Teatral

TOC TOC encontra no humor um caminho para humanizar os transtornos obsessivo-compulsivos

Em cartaz no Teatro dos Quatro, TOC TOC aposta no humor para humanizar os transtornos obsessivo-compulsivos

Publicado

em

Por Leonardo Talarico

Do autor francês Laurent Baffie, a comédia TOC TOC teve diversas montagens pela estrada afora. Tive a oportunidade de assistir e fazer a crítica de uma outra realização em Buenos Aires. Dessa vez, a obra restou adaptada e dirigida por Alexandre Reinecke, em temporada atualmente no Teatro dos Quatro.

A trama ocorre na sala de espera de um consultório. Seis pacientes com diferentes transtornos obsessivos compulsivos relacionam-se enquanto aguardam a chegada do Dr. Stern. Inúmeras situações decorrentes das especificidades cognitivas apresentam-se hilárias e lançam olhar à disfunção psicológica que acomete incontáveis pessoas.

O texto original é despretensioso (adaptação de Alexandre Reinecke). O foco dramatúrgico está na leveza das intercorrências e na descontração direta da plateia. Não existe intenção de aprofundamento de tese. O desejo é mostrar todas as angústias geradas pelas múltiplas modalidades de transtorno. E o faz corajosamente, pois o humor na sociedade moderna é mormente acusado de incitar desrespeito.

Há inúmeros eventos artísticos inábeis aqui e acolá e existem muitos projetos cênicos dentro de uma linha tênue entre apresentação e ridicularização. No texto, na adaptação e realização presente no Teatro dos Quatro, não existe mínimo desrespeito. Ocorre – ao contrário – intenso cuidado e humanização. Para isso, a peça foca nas situações de crise sem maior verticalidade. Apenas explicações diretas sobre as razões por detrás de cada episódio.

A direção de Alexandre Reinecke não mudou o curso imposto por Laurent Baffie. O espetáculo caminha cena-pós-cena nesse diapasão menos intenso. Fazer rir e normalizar. E isso realmente ocorre.

O público embarca no humor de repetição (looping), comédia de erro (desavisados) e estridência vocal e física por todo feito (carregar nas tintas para resolver uma certa previsibilidade do texto original). Os atores e atrizes revezam esquetes enfatizando os seus transtornos no aguardo do atendimento médico atrasado.

Não há uma explícita ação dramática (e nada obriga assim o fosse). Há tentativas do texto em avançar uma terapia de grupo, mas a evolução não encontra pontos de retenção. E faz sentido, pois se trata de um primeiro encontro entre pessoas desconhecidas e em um lugar inóspito, sobretudo por razão das exposições pessoais.

Ocorrem (evidentemente) avanços cognitivos diante das relações interpessoais. Até mesmo aceitação pessoal (importante como primeiro passo de tratamento e acolhimento). Porém, não ocorre uma pulsação mais reflexiva e intrusiva nas demandas médicas (absolutamente compreensível visto ser um primeiro golpe de olhar).

O mesmo ocorreu na apresentação argentina. A obra não oferece discurso; apresenta circunstâncias (não é demérito; apenas escolha cênica e viabilidade textual). O público reconhece e se afeiçoa.

Agrada-me o fato de o espetáculo não ser questionado nos tempos atuais diante das interpretações mais grifadas pelos atores e atrizes. Uma felicidade, pois a obra – conforme já o dissemos – é respeitosa e possui por objetivo distrair e normalizar angústias mormente desconsideradas ou desrespeitadas.

A direção de movimento coloca os atores e atrizes em cena ausente maiores complexidades geográficas. É uma movimentação realista e não simbólica. Os atores caminham orientados pelos seus dramas e não para os seus destinos.

O coeso elenco utiliza nitidamente recursos pessoais (construção de personagem mediante instrumentos próprios) e carrega nas tintas (salta à frente do texto) em uma interpretação mais acessível ao público heterogêneo (mais luz; menos sombra). Tudo focado na fala épica (direta, clara e larga).

Devemos, outrossim, destacar Daniel Dantas. Mesmo diante de todas as adversidades informadas, o ator realiza uma interpretação retida e lírica (como um pensamento falado). Não fala apenas para ser ouvido. Oscila entre diálogos expositivos e articulação de voz e pensamento em conjunto.

Isso deixa tudo mais vivo e sem memória de futuro (raciocínio no momento presente e não proveniente de uma memória de texto – sem antecipações). Todo grande ator esquece o futuro da sua personagem. O depois surge como decorrência lógica da perfeita compreensão do momento presente.

Sua personagem exige isso e Daniel oferece com maestria. É comedido e apenas toca as notas certas (Tom Jobim). Pausas controladas, dinâmicas vocais, minimalismo (contundente e significativo) e antropologia teatral dosada trazem qualidade à interpretação do “todo coletivo” e da obra posta em cena. Fruto do chamado “rastro de sangue teatral”.

Podemos identificar em Daniel Dantas uma atuação lastreada em outras personagens mais complexas realizadas por ele em outros espetáculos, com mínimos acréscimos cirúrgicos. O nome dessa qualidade: repertório. Um ator como Dantas não consegue agir despretensiosamente. E é oportuno seja assim sua personagem por razão dos desdobramentos (vocês assistirão – não posso mais dizer).

O cenário de Sandro Chaim e Alexandre Reinecke é realista e estético (bom gosto na paleta de cores e ocupação cênica harmônica). Cumpre sua função sem maiores invencionices. Facilita o espetáculo na sua proposição e ocorrência.

No mesmo esteio, o figurino de Danilo Barbieri também é realista, estético e cuida mais do conjunto (sobretudo, na paleta de cores e simbolismo para imediatamente diferençar as personagens). Cenário e figurino interligam-se em favor da obra. Entra boa luz no cenário e no figurino. Existe nas cores, por exemplo, um afastamento depressivo.

O desenho de luz de Renata Rainbow segue em cumplicidade, abre o cenário e não ataca – acertadamente – possíveis recortes dramáticos. A obra é agradável.

O desenho de som de Nildo Bitencourt é correto e mantém o público na atmosfera pretendida pela direção e autor.

Não estamos diante de um contundente acontecimento teatral. E seria um erro crasso caminhar nessa pretensão. Todo espetáculo possui sua função social e a multiplicidade de linguagem teatral existe para a sobrevivência das próprias estruturas fundantes do tablado democrático.

A obra entrega a diversão prometida e ainda oferece reconhecimento e normalização dos transtornos cada vez mais recorrentes nas sociedades modernas. E assim o faz mediante despretensão consciente.

 

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