Crítica Teatral
Melodrama da Meia-Noite: O Improviso como Experiência Democrática
Com Rita Von Hunty e Cia. Melodramática em cena, o melodrama reafirma sua força popular e revela também um viés crítico.
Foto: Claudia Ribeiro
Por Tacy
“Oh, como é difícil rir das comédias contemporâneas!”, eis uma frase que, dita em tom de dramalhão, talvez seja menos exagerada do que parece. Em tempos de humor fraco, pasteurizado em escala de streaming, só mesmo um bom melodrama clássico para nos salvar do tédio pós-moderno. Inspirado nos novelões franceses do século XIX, Melodrama da Meia-Noite é este bálsamo do humor. Uma comédia baseada em jogos de improvisação teatral, cuja simplicidade e exagero cênico arrancaram gargalhadas minhas e de todo o público presente no Teatro Dulcina, em sua mais recente temporada no centro do Rio. Os atores da Cia. Melodramática, entre eles, a hilária drag queen Rita Von Hunty, criam tramas inéditas a partir de temas-chavões e tipos melodramáticos. A plateia participa do curso da estória, arremessando moedas ou bolas de meia, conforme o gosto. Tal modalidade de espetáculo me deixou encantada pela veia democrática e atual. Entre moedas e tomates, participação e condução, havia ali alguma coisa familiar demais para ser apenas brincadeira. O “povo de Paris”, como era denominado o público, ria, palpitava, interferia e, até certo ponto, decidia os rumos da trama. Saí do teatro com a leveza do riso e algumas reflexões nada melodramáticas sobre como jogos teatrais podem lembrar jogos políticos.
O melodrama nunca quis ser discreto. Nascido no calor popular da França pós-Revolução, ele aprendeu cedo a falar direto com o público, sem pedir licença à crítica sofisticada. Construído emcontrastes fortes, virtude e vício, inocência e culpa, perdição e redenção, tudo nele parece pedir gesto largo, emoção à flor da pele e reconhecimento imediato. Nas praças, nos teatros populares e, mais tarde, no circo-teatro brasileiro, essa linguagem encontrou sua força justamente no que muitos trataram como defeito: o apelo ao público, a leitura rápida dos tipos, o prazer quase infantil de reconhecer o galã, a mocinha e o vilão. Não se trata, portanto, de uma forma menor, mas de uma engrenagem popular de alta adesão e resposta coletiva através do riso. É dessa engrenagem que Paulo Merisio, em cena como Monsieur Le Professeur e também diretor da Cia., extrai o jogo de Melodrama da Meia-Noite.
Nascido de uma pesquisa sobre o Boulevard du Crime, em Paris, o espetáculo é construído sobre um repertório de códigos melodramáticos que os atores acionam no calor da cena. Tal técnica é denominada “jogo do Gaulier”, inspirada na pedagogia da famosa École Philippe Gaulier, e funciona como uma brincadeira de obedecer ao que o mestre mandar. Ao melhor estilo da commedia dell’arte, cada tipo entra em cena como uma promessa reconhecível — o herói, o vilão, o sofredor, o apaixonado — e em cima destes estereótipos recriam amores impossíveis, crianças abandonadas, famílias partidas, reencontros improváveis e revelações rocambolescas. Sobretudo, precisam convencer a audiência a cada gesto, tal como se fazia no romantismo francês. O público, transformado em “o povo de Paris” logo no início do espetáculo, recebe suas moedas para arremessar ao palco como sinal de aprovação e bolas de meia (representando tomates) quando a cena não agradar. Distribuídos pelo próprio elenco, estes objetos são mais do que controles remotos, eles aproximam o espectador da criação, desmontam a usual passividade de “plateia versus ato” e dão uma oportunidade de construção coletiva do fazer dramatúrgico. O que, se pararmos para pensar a nível democrático, é revolucionário!
Melodrama da Meia-Noite é um tablado de excessos, onde a entrega do elenco é o que faz a engrenagem funcionar. Com tantas emoções à flor da pele em cena, algumas caricaturas definitivamente fazem o riso acontecer, com destaque para Juliana Aquino e Leo Vaz, que sustentam o exagero com precisão cômica. Com dez atores em cena, sob a luz simples e improvisada de Pedro Garcia e nas vestes de época escolhidas a dedo pelo figurinista Fil Rodrigues, os choros convulsivos e as paixões violentas ganham contornos intensos. Quando Monsieur Le Professeur ordena algo, o elenco imediatamente executa, até que um ator resolva desobedecê-lo e comece a construção de uma narrativa, envolvendo qualquer outro colega na história, que, por sua vez, precisa contracenar inteligentemente e com rapidez. Diante da teatralidade histriônica, o que ajuda a criar alguma nuance e contraste são os fundos instrumentais, operados por Vander Rabelo, incluindo um número musical, em tom de galhofa, mas que faz jus a característica do gênero, interpretado de forma caricata.
Impecável no proscênio, está Rita Von Hunty, figura marcante na arte-educação da atualidade. De volta à Cia., ela está pândega e encantadora. Sob uma imensa peruca loura cheia de cachos, estalando os saltos no tablado de madeira, colecionando nomes, tremeliques e caretas, a persona queer criada pelo ator e professor Guilherme Terreri arranca aplausos em cena aberta. Não apenas pela popularidade conquistada nas telas do canal Tempero Drag, mas pela entrega, espirituosidade e consciência absoluta do artifício melodramático. É interessante pensar que tanto o dramalhão quanto a performance drag se reconhecem numa linguagem irmã: ambas fazem uso do exagero. E nesta deliciosa comédia melodramática, Rita potencializa a pedagogia da cena, em camadas políticas e sociais mais profundas do discurso que envolvem a natureza da expressão artística. Ao longo dos cento e vinte minutos do folhetim, ator e professor se fundem em prol da arte.
Certa vez, ouvi a própria Rita Von Hunty dizer em uma entrevista que “a insuficiência é o que move o pensamento”. Em meus devaneios pós-peça, fiquei pensando: e se aquela brincadeira de “siga o que o mestre mandar” pudesse ser comparada, alegoricamente, com a nossa democracia representativa? O jogo teatral expõe, em miniatura, uma tensão também presente na política representativa, a diferença entre participar e decidir. O que mais fascina no “Jogo do Gaulier”, além da graça, é sua arquitetura. Há uma autoridade que conduz, atores que obedecem e desobedecem, pedidos de clemência, pequenas negociações em cena e um povo convocado a se manifestar, ou ao menos a acreditar que sua manifestação pode alterar os rumos da trama. A participação popular existe, é ruidosa, interfere no andamento do jogo, mas não é plenamente soberana. Ela acontece dentro de regras já dadas, conduzida por uma lógica que o próprio público não criou. Talvez o “povo do Brasil” também se reconheça nesse lugar, tentando escolher, aprovar, recusar, punir ou absolver seus representantes com os instrumentos que têm à mão. Nesta moldura, fazemos o que podemos com nossas moedas e bolas de meia, tentando acertar algum rumo possível em nossa própria história como nação.
Melodrama da Meia-Noite, que leva na bagagem pelo menos 100 apresentações por teatros cariocas e paulistas e mais de uma década de trajetória de Cia. Melodramática, brilhou em seu tablado de estreia. Oh, Céus, por mais melodramas assim!

