Crítica Teatral
Entre Sinatra e Gardel, um musical que respeita o teatro e a música
Espetáculo argentino premiado imagina um encontro entre o jovem Frank Sinatra e Carlos Gardel e se destaca pela integração rara entre dramaturgia, direção, música e encenação.
Foto: Pato Pérez
Por Leonardo Talarico
Assisti em Buenos Aires ao musical “Quando Frank Conoció a Carlitos. Um Encuentro Imaginario”.
A história transcorre por razão de um encontro casual em um camarim na NBC de New York entre o jovem de 19 anos Frank Sinatra e o já experiente Carlos Gardel.
Acompanhamos um certo incômodo de Gardel com a invasão do seu espaço mudar tração e revelar amizade e acolhimento. Gardel reconhece semelhanças nos “olhos azuis” e promove inúmeros ensinamentos.
Os musicais normalmente pecam pela falta de ousadia e uma certa preguiça artística. Todas as decisões cênicas são tomadas na lei da facilidade.
Não bastasse, os musicais servem para textos e atores regulares antecederem números coreografados.
Aqui, ao contrário, tudo possui valor.
A dramaturgia é bem construída e narra com propriedade as circunstâncias de dois grandes nomes da América, os atores não diminuem a construção das personagens por razão do gênero artístico e todos os operadores teatrais realizam seu labor com intenção de bem contar a história com unidade.
A relação entre os cantores é bem construída e sobressalta afinidade.
O figurino e os adereços contribuem para vestir as personagens. São utilitários. Não se trata de um trabalho de alfaiataria teatral, mas passa sem comprometer.
O cenário trabalhou muito bem, com modificações interessantes, passagens dramáticas e acabamento superior. Sempre com o intuito de contar a história e gerar atmosfera.
Uma outra excelente característica do cenário é a mobilidade. Algo incomum na Argentina. As modificações ocorrem discretamente para novas cenas e aproveitar a ocupação espacial do Teatro.
O desenho de luz também foge da precariedade mormente dos musicais e fica nos recortes de luz para gerar intensidade dramática. Não abre luz de serviço para facilitar.
Muito bom assistir a um musical com os profissionais necessários. Normalmente, muitos estão para pouco fazer e dispersar.
A direção de movimento respeita os números musicais e não os retira do espetáculo. Estão integrados. O Teatro não desce para os números musicais surgirem.
Todos ficam a todo instante no “mesmo vagão”.
O Teatro não é a antessala da cantoria. Teatro e música se respeitam.
A direção compreende a seriedade do projeto e não o utiliza para promover entretenimento cantado. Uma das mais perfeitas uniões entre o verbo e o canto.
O espetáculo mantém a pulsação por todo tempo, sem correria e harmonia equilibrada. Nem mesmo a tradição dos cenários realistas imóveis argentinos é mantida.
A realidade cede um pouco à imaginação e mobilidade. A trilha sonora cantada é uma alegria e bem executada.
O espetáculo mereceu ganhar todos os prêmios disputados. Restou considerado melhor musical do ano (Martín Fierro 2025, 7 prêmios Hugo e prêmio Argentores).
Um prazer.

