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Teatro

Cláudia Raia desaparece em Tarsila e entrega ao palco a mulher por trás do mito

Com direção de José Possi Neto, musical percorre a trajetória de Tarsila do Amaral com rigor estético e força teatral, colocando a história da artista à frente do estrelato

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Por Leonardo Talarico

O musical “TARSILA, A BRASILEIRA” estreou no dia 01 de agosto no Theatro Municipal do Rio de Janeiro(houve duas apresentações – 01 e 02 de agosto) e seguirá em turnê pelo país com retorno ao Rio de Janeiro (emsetembro) para apresentações no Vivo Rio.  

A obra retrata a trajetória da Tarsila do Amaral, ícone da história do país e símbolo do modernismo brasileiro. Passada em 1920 e 1930, acompanhamos o surgimento do modernismo, a criação do extraordinário “Grupo dos Cinco” e a relação entre Tarsila e Oswald de Andrade. 

A montagem cênica mostra a presença da protagonista no Brasil e em Paris, revela encontros históricos,acontecimentos originários ao Movimento Antropofágico e a criação do Abaporu. Tarsila – visionária – estabeleceuparte relevante da imagem cultural do Brasil para o mundo. 

A obra é dividida em dois atos: o primeiro começa no prólogo e encerra no Abaporu e o segundo inicia na Semana da Arte e chega ao seu término. A encenação e direção de arte de José Possi Neto é precisa e tem como grande mérito oferecer unidade artística, ser devidamente estética e com profícuo alinhamento aos personagens e ocorrências. Tudo muito pertinente e uníssono.

Todos os saberes artísticos realizam o mesmo espetáculo e estão voltados ao esclarecimento direto sobre Tarsila como também ao espectro social, cultural e político envolvido. E sempre com duas “músicas na cabeça”: apresentação dos fatos e abertura simbólica. A história restou muito bem distribuída no tablado e com passagem harmônica pelo desafiador palco do Theatro Municipal. 

Outro mérito foi realizar algo que começa a ser uma tendência salutar nos musicais brasileiros, qual seja a forte presença teatral. Substituímos a fala meramenteantecedente à cantoria pela articulação entre os diversos saberes de forma temperada e focada no esclarecimento da história. Resta claro que o objetivo de todos é estimular conhecimento e mérito à Tarsila e demais presentes.

O escopo é que todos saiam do Theatro sabedores da relevância dessa grande mulher e todos demais contribuidores na transformação artística e social causadas. 

Anna Toledo e José Possi Neto, autores do espetáculo e das letras, tiveram a sabedoria de realizar boas escolhasdiante farto material. Recortar um tempo de vida tão próspero e deixar o necessário é tarefa árdua. Algo difícil diante de biografias e alterações sociais tão importantes. É muita vida para tempo diminuto. 

Texto e letras de inegável qualidade e humildade para reconhecer que a obra biografada está sempre à frente. E ambos se houveram muito bem nesse chacoalhar da árvore para caírem apenas as cenas e letras imprescindíveis. Tocaram as notas certas. 

O espetáculo não cansa minimamente o espectador. Seja pela batuta da direção, seja pelas mãos nos textos, letras e demais saberes voltados à realização do musical. 

As músicas e os arranjos de Guilherme Terra (e as músicas também de Tony Lucchesi) coadunam-se com essa expectativa de estar a serviço do espetáculo com qualidade. 

Todas pertinentes e com as distinções necessárias para estar à altura da obra. 

A Direção Musical de Guilherme Terra embala com categoria todas as minúcias técnicas construtivas ao lado de Tony. Os músicos – capacitados – realizam com maestria tudo quanto solicitado. O Design de Som de Tocko Michelazzo junta-se aos demais elementos e finaliza em completude à construção do desenho e execução sonora.

Os figurinos de Fábio Namatame são de recorte teatral, absolutamente pertinentes, realizam um acompanhamento dramatúrgico importante para atravessarmos a vida de Tarsila e todos envolvidos com ela, com o espetáculo e a sociedade em movimento. 

O traje de roupa é estético, com bons tecidos eacabamento de grande produção. O arco dramático está muito bem-posto. Destaco o vestido de noiva. Mas cada qual possui sua importância histórica e recebe tratamento litúrgico. 

A direção coreográfica e de movimento distribui de forma equilibrada os integrantes no palco, utiliza com propriedade as interseções e não faz do movimento uma pausa exibicionista dentro da história, mas sim realiza um imiscuído estético e pertinente à passagem dramatúrgica. Não opera por vaidade; é colaboração direta com a encenação principiológica pretendida. As personagens caminham para o seu destino. Nenhum movimento é operado ausente relevância. Todos estão dispostos à contação da história. Tudo de forma equilibrada e carregado harmonicamente até os pontos cênicos delimitados. 

O visagista Dicko Lorenzo realiza trabalho de filigrana, pois sua contribuição auxilia na formatação das personagens, assim como dos figurinos, e o faz também com apuro e sem exibicionismo. Tudo está no lugar certo. Nem mais, nem menos. E com materiais e acabamentos primorosos. 

Renato Theobaldo na Cenografia e Gabriel Dietrich na Direção de Cenografia Digital criam um dos cenários e ambientes mais bem desenhados dos últimos tempos. O cenário, por meio dessas linguagens irmanadas, apareceem perfeito sincronismo e nos remete aos lugares desejados pela Direção Geral. Tanto o cenário e adereços, quanto as imagens não tomam o protagonismo dos artistas. 

Em verdade, é uma planta baixa acolhedora, cirúrgica e não exibicionista. Por mais estética, inventiva e com excelente acabamento, em nenhum momento pretende um destaque descontextualizado. Apenas o decorrente do inestimável auxílio para gerar toda ambiência necessária para nos transportar aos diversos instantes. Mesmo os poucos momentos de palco vazio justificam-se pela construção do “terreno”. E mesmo diante tantos elementos nada está no palco por distração ou vaidade. 

Percebe-se cuidado na escolha de adereços simbólicos talvez não detectáveis diretamente pelo público tantos são os acontecimentos no presente espetáculo, mas que alíestão porque geram pertinência e pertencimento. 

As diversas linguagens também causam alegria, como a angulação no andamento do carro, o sincronismo da construção cênica do casamento e por aí segue em estado de excelência.

O desenho de luz de Tocko Michelazzo é muito bem angulado, temporizado e gelatinado. Ocupa espaços inventivos e articula abertura de palco quando necessita abranger o volumoso elenco com recortes destinados aosmomentos mais líricos. A luz acolhe tanto o cenário quanto o figurino e destaca ambiência dos espaços ocupados pelos artistas.

Os atores Jarbas Homem de Mello, Renato Caetano, CaruTruzzi, Ivan Parente, Keila Bueno, Liane Maya, Matheus Paiva, Alvinho de Pádua, Danilo Barbieri, Dion Seabra e Estevão Souz interpretam de forma horizontal com nítida intenção de esclarecer o público sobre os fatos de cada cena (e conglobante). 

Todos se destacam pela competência. Há uma ou outra verticalização. Mas nada compromete minimamente a fruição. Todos estão muito bem em seus papéis. 

Destaque à Jarbas Homem de Melo pelo arco dramático construído e entregue na atuação. 

Por fim, Cláudia Raia domina todo o espetáculo com a sua multiplicidade de talento e perfeita compreensão da obra. “Morre na Coxia” e se entrega à história de Tarsila do Amaral com aquela necessidade de quem deseja contar a vida da artista em primeira pessoa. 

Cláudia utiliza com perfeição o teatro físico (inclusive os elementos do teatro antropológico), narra o texto sem cantar finais de frase, para e acentua os verbos necessários (gestalt), não deixa mínimo elemento dramático ultrapassar o necessário. Por isso coloca a dor da sua personagem em um lugar nobre. 

Apresenta uma história com marcação gestual (proveniente da coluna) primorosa e digna da total absorção da personagem histórica. Empresta seu talento àTarsila com humildade, haja vista não fazer questão de levar ao palco sua persona. Nem por minuto sequer. 

Tudo está posto em prol da artista brasileira Tarsila do Amaral e tudo ao seu redor. 

Uma dicção perfeita, domínio do tempo da vida cênica e variações dinâmicas que auxiliam na pulsação. 

Por derradeiro, “Tarsila, a brasileira” oferece ao público uma possibilidade inarredável de conhecer as entranhas de uma artista capaz de distribuir seu talento genuíno e alterar os caminhos da cultura brasileira, além de todos os aspectos políticos e sociais referentes a postura feminina diante da sociedade. 

Os aplausos efusivos ao término bem demonstram a comunicação traçada entre os operadores artísticos e sua plateia.

O espetáculo, conforme mencionei outrora, segue pelo país e retorna ao Rio de Janeiro (no VIVO RIO).                                

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