Cultura
Artista que precisamos conhecer – Bruna Alcântara
Entre fotografias, bordados, espelhos e intervenções urbanas, a artista visual transforma memória, maternidade e indignação em obras que desafiam o olhar e tensionam as fronteiras entre o íntimo e o político.
Foto: @danielantalfi
Por redação
Talvez você já tenha encontrado a arte de Bruna Alcântara por aí, e nem saiba
Talvez você já tenha se deparado com uma obra de Bruna Alcântara sem saber quem estava por trás dela. Seja em uma exposição, em um lambe-lambe espalhado pelas ruas ou em uma fotografia que provoca mais perguntas do que respostas, a artista visual paranaense constrói uma produção marcada por temas como maternidade, feminismo, memória e o corpo como território político.
Conheci o trabalho de Bruna durante uma visita a um espaço cultural em Curitiba. Entre fotografias, espelhos e bordados, uma frase capturou imediatamente meu olhar: “Mãe também gozam.” Direta, provocativa e impossível de ignorar, ela sintetiza uma pesquisa artística que desafia discursos prontos e convida o público a enxergar o feminino sob novas perspectivas.
Natural de Jacarezinho, no Norte do Paraná, Bruna vive em Curitiba há cerca de 20 anos. Formada em Jornalismo pela PUCPR, começou sua trajetória profissional contando histórias por meio das palavras. Mas, em determinado momento, percebeu que algumas experiências exigiam outras linguagens.
“A fotografia sempre esteve na minha vida. Minha mãe fez um álbum para cada filha, registrando desde o nascimento até aniversários, Natais e a primeira comunhão. Mas nunca me interessei apenas pela técnica. O que sempre me fascinou foram as histórias por trás das imagens. As que eu não conheço, eu invento.”
Embora não se defina como fotógrafa, Bruna reconhece que a fotografia é uma das bases de sua produção artística.
“Ela é um fragmento importante do meu processo criativo. Penso constantemente nas imagens que preciso produzir e também naquelas que já foram produzidas.”
Criada no interior, ela conta que entrou em um museu e em uma sala de cinema pela primeira vez apenas aos 18 anos. Foi durante a graduação que descobriu a fotografia como linguagem artística e compreendeu a potência política da imagem.
“Foi no jornalismo que entendi a força da imagem.”
A grande transformação veio durante o mestrado em Portugal. Morando sozinha e grávida do primeiro filho, Bruna passou a produzir autorretratos como forma de compreender as mudanças que vivia. Paralelamente, aproximou-se do movimento feminista local, experiência que ampliou sua reflexão sobre maternidade, imigração, gênero e corpo.
“Comecei a fazer autorretratos para tentar entender o que estava acontecendo comigo. Descobri outra potência da fotografia: a do autoconhecimento. Foi desse período que nasceram minhas primeiras obras.”
A partir daí, sua pesquisa passou a reunir fotografia, bordado, colagem, objetos, instalações e também o lambe-lambe, linguagem que encontrou nas ruas um espaço potente para dialogar com o público.
“Nem sempre preciso produzir uma fotografia. Às vezes basta que uma imagem exista.”
Bruna explica que seus projetos dificilmente surgem de forma planejada. Eles nascem das inquietações que atravessam sua vida.
“Minha válvula criativa geralmente surge da raiva, da indignação, de um ímpeto por justiça. A arte não é algo que eu desligo. Vivo em estado artístico o tempo todo. Antes de ser um objeto, a arte é um exercício permanente de observação.”
Entre seus trabalhos mais conhecidos está a série Reflita-se, iniciada há seis anos durante uma viagem por Minas Gerais. Tudo começou com a compra de um espelho em um antiquário. Aos poucos, o objeto tornou-se elemento recorrente em fotografias-performances que investigam o feminino e os impactos ambientais provocados pela ação humana.
“Os espelhos são um elemento simbólico para abordar questões do feminino e dos impactos ambientais causados pelo homem em um mundo cada vez mais colapsado. Eu não apareço exatamente nas imagens, mas dirijo todas as cenas. O reflexo não devolve uma identidade, devolve uma paisagem.”
Para a artista, refletir é um exercício de imaginar futuros possíveis.
“É olhar para trás e pensar novos futuros. E, sem dúvida, futuros mais femininos.”
Ao longo da carreira, Bruna também encontrou na arte urbana uma importante forma de expressão. Seus lambes ocupam muros e espaços públicos, aproximando a produção artística do cotidiano das pessoas e ampliando o alcance das discussões propostas em seu trabalho.
Sua obra já participou de eventos nacionais e internacionais, como o LambesGóia, em Goiânia, e o Cheap Street Poster Art Festival, em Bolonha, na Itália. Também integrou exposições individuais e coletivas em Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Portugal, Áustria, Alemanha, Itália e Líbano.
Conciliar maternidade, empreendedorismo e carreira artística continua sendo um desafio — tema que, aliás, atravessa boa parte de sua produção.
“Nem sei responder essa pergunta. Para isso eu faço análise uma vez por semana”, brinca. “Mas uma coisa me ajuda: eu não me divido em funções. Eu sou uma só o tempo todo.”
Ao conversar com Bruna Alcântara, fica evidente que sua produção não nasce apenas da fotografia. Ela nasce da escuta, da memória, da observação e, sobretudo, da recusa em aceitar que determinadas experiências femininas permaneçam invisíveis. Em suas obras, a imagem deixa de ser registro para tornar-se pergunta. E talvez seja justamente essa a força de sua arte: provocar quem olha a refletir sobre si, sobre o outro e sobre o mundo que estamos construindo.







