Crítica Teatral
Josephine Baker – a VÊNUS NEGRA
O trabalho da ALINE DELUNA é primoroso. Não é possível determinar onde começa e termina Aline dentro de Josephine tamanha simbiose.
Assisti a mesma montagem de Josephine Baker – a VÊNUS NEGRA há muitos anos no Maison de France. A convite do Teatro Rival Petrobrás fui novamente contemplar a obra após alguns anos (18 de julho de 2026). Igual espetáculo em espaços distintos. Excelente experiência para comprovar a capacidade teatral de se adaptar às circunstâncias geográficas. Revisitar foi um prazer.
O Teatro moderno infelizmente entrou (com ótimas exceções) em uma espiral egóica. Todos desejam falar sobre sua existência. As plataformas digitais colocaram-nos nesse lugar de protagonismo ilusório. E Teatro biográfico (histórico) anda escasso a despeito da sua necessidade fundante à manutenção das artes cênicas.
O Teatro como espaço para desabafos e alargamentos defrustração é perigoso conforme sempre alertou Fernanda Montenegro. O Teatro é lugar do ator e atriz morrerem na coxia.
Josephine Baker foi uma artista afro-americana que – com seu talento, suas controvérsias e seu ativismo – conquistou o mundo. O percurso biográfico de Josephine possibilita uma abordagem vertical nas questões sociais e culturais relevantes e atemporais.
Da infância miserável e violenta em Saint Louis, passando pelo saiote de bananas que a tornou mundialmente famosa já aos 20 anos de idade, chegando até a formação da Tribo do Arco-íris – quando adotou 12 crianças das mais diversas nacionalidades –, a vida de Josephine Baker percorre o tablado com ótima qualidade.
Apelidada de Vênus Negra por sua beleza e seu amor pela humanidade, Josephine também foi ativista incansável que arriscou a vida ao lado da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial e marchou ao lado de Martin Luther King contra a segregação racial americana.
É essa mulher negra, dançarina, cantora, ativista, mãe, que o público terá o prazer de conhecer. E a conhece com deveras qualidade cênica. É uma incrível história de uma artista imiscuída– inclusive – nas raízes artísticas e sociais brasileiras.
O texto de Walter Daguerre é preciso e conduz a contação da história com sabedoria. Não há tempos mortos na sua dramaturgia. O escopo está no esclarecimento fático e alargamento simbólico. As alternâncias entre bons diálogos e solilóquios estimulam o público, e os gêneros utilizados trazem à obra leveza mesmo diante traumas irreparáveis. Tudo coadunado com o espírito da múltipla artista e militante vocacionada Josephine Baker.
A direção de Otávio Muller retira com inteligência o peso das difíceis passagens obscuras. O foco na importância da construção artística e política reduz natural excesso das inúmeras humilhações atravessadas por Josephine e o sofrimento de toda época vivida. Deixar a história contada ser interpretada sem carregar nas tintas traz à obra importante leveza sem afastar a indissociável seriedade.
Há recortes mais dramáticos, mas permanecem na temperatura correta e congruente com a visão de mundo e a perspectiva cognitiva (estoica) de Josephine diante dos contundentes fatos vividos. Inúmeras distensões cômicas trazem mais camadas à formatação da personagem como também acolhem plateias mais sensíveis a permanecerem focadas no fio condutor cênico. Nenhum assento da plateia é deixado pelo caminho. Todos seguem juntos.
A montagem com músicos não atores em plena atuação ao lado de Aline Deluna traz uma espécie de Teatro Amador na realconcepção do amadorismo, qual seja amar o feito. Esse descompromisso diante “erros” ou interpretações menos capacitadas não gera desconforto. Em verdade, humaniza a montagem. O humor não reduz seriedade. Abre portas para suportarmos as circunstâncias sem perdermos o senso crítico. Assim não o fosse, a plateia poderia se defender por medo de sofrer ou sofrer gatilho decorrente da sua vida pessoal.
A direção de movimento de Marina Salomon possui alguns e corretos excessos coadunados com as características humanas da Josephine e coerentes com o objetivo de entregar uma espécie de leveza contundente à obra (a despeito do paradoxo). Todas as dificuldades diante múltiplos fatos são atravessadas com inteligência.
A ocupação e o percurso geográfico entre atriz e músicos estão muito bem equilibrados. Transcorre perfeitamente sem impertinências. Totalmente fluída. As “coreografias” são pertinentes e não se afastam da história por mínimo instante. Tudo e todos caminham para o seu destino.
O cenário e os figurinos de Marcelo Marques são muito bem construídos. Marcelo (responsável pelos dois saberes teatrais)toma uma decisão inteligente: neutraliza (exceto o balanço) o cenário e transfere ao figurino sua contribuição marcante à evolução da história. É um caminho corajoso, pois sai de um trapo de ensaio ao ápice da vestimenta da carreira. Tudo realizado com tecidos de valor e movimentos precisos e corte visivelmente teatral. É costura teatral.
O cenário é minimalista e altamente simbólico. Informa o básicosem despertar maiores atenções. O conjunto de figurino é frenético e cirúrgico na capacidade de acompanhar todos os nuances da carreira de Josephine Baker. Os figurinos assumem o cenário, sem jamais ultrapassar o protagonismo da Josephine. É um trabalho de filigrana. Há se destacar o ótimo visagismo de Guto Leça.
O desenho de luz de Paulo César Medeiros é pertinente, estético, contribuí à passagem cênica e auxilia nos recortes dramáticos necessários sem pesar a mão conforme pretensão da própria montagem. Elegante e ajustado em angulação, temporização, gelatinas e “ambiência”. A direção musical de Dany Roland é precisa e a performance dos músicos é ótima e carismática.
A inteligência de não se levarem a sério nos diálogos e intervenções traz à obra uma inocência e despretensão indispensáveis diante do peso das circunstâncias decorrentes da história.
O trabalho da ALINE DELUNA é primoroso. Não é possível determinar onde começa e termina Aline dentro de Josephine tamanha simbiose. “O que são feitos dos poemas não escritos por razão da morte do poeta?” Essa obra é uma necessidade de Aline; não mera escolha. É obra de vida. Apenas ela poderia envergar tamanha estrutura com pertencimento.
A protagonista esclarece o espetáculo de forma gratificante. A biografia vivida é desenvolvida por meio de uma pulsação perfeita e diversos atributos técnicos (total artes). Gestos e ações físicas postas com maestria em favor da contação da história.
A vocalização (falada e cantada) fazem da Aline um acontecimento cênico, tamanha capacidade de lograr êxito nos mais diversos segmentos artísticos. Não bastasse, sabe interpretar “bem e mal” diante das exigências da história contada. Articula fala lírica e épica com primor, controla pausa, não canta finais de frase, modula e escolhe os verbos capazes de transformar falas em imagens (gestalt).
Por resumo, realiza a transferência da ação física à psicológicaquando entende pertinente. E isso em um musical possui valor inestimável. Ótimo tempo cômico e domínio pleno dos fatos a ponto de lidar com todos os imprevistos técnicos decorrentes da apresentação.
É um espetáculo de atriz. E Aline e direção são brilhantes em revelar aos poucos os múltiplos talentos. Não é entregue de graçae de forma desnecessária.
Todo arco dramático da personagem e do espetáculo sãoconstruídos do mínimo à excelência. Tudo inicia diminuto (interpretação, roupa, movimento, canto etc.) e evolui como a vida de Josephine Baker. Até que o público se depara com todas as suas valências artísticas, políticas e humanas.
Da roupa de ensaio e uma interpretação inicial duvidosa começa um escalonamento até o ápice. Como Diretor de Teatro tenho apreço por montar grandes biografias. Entendo que as circunstâncias digitais do mundo tenham transferido ao Teatro a necessidade de desejar sempre falar em primeira pessoa. Mas o Teatro possui uma força edificante que está sustentada na relevante e aferida biografia clássica. Não podemos descurar atenção aos grandes dramaturgos e personagens fundantes como Josephine Baker (poucos conhecem). E deveriam.
Existe uma liturgia no Teatro que precisa ser respeitada para manter o crescimento da única possibilidade viva de encontro artístico pessoal. Por essa razão, por mais interessantes sejam a sua (nossa) vida e anseios é preciso humildade para compreender a importância histórica de montagens teatrais voltadas aos grandes feitos humanos, históricos, artísticos, políticos e sociais.
A melhor definição de ser humano é aquela que diz que o homem é aquele que esquece: Josephine, por exemplo, relembra o que somos.

