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Crítica Teatral

‘Espelho Mágico’ transforma os 60 anos da Globo em uma emocionante biografia coletiva

Em crítica, Leonardo Talarico destaca o musical em cartaz no Teatro Riachuelo como uma celebração da história da televisão brasileira, conduzida por direção precisa, grandes interpretações e uma reflexão sobre a memória cultural do país.

Publicado

em

Por Leonardo Talarico

Espelho Mágico é um musical sobre os sessenta anos da Rede Globo de Televisão. Por óbvio, agrupar essa história implica perpassar parte considerável da formação cultural, social e política do povo brasileiro. 

Impossível cada assento do Teatro – cujo conjunto chama-se plateia – não revisitar sua vida. 

Cada cena provoca recordação daquele exato instante da sua vida. Isso demonstra a forte influência da televisão no povo brasileiro. 

A obra ESPELHO MÁGICO transforma-se em uma biografia coletiva (Rede Globo e plateia).

Fundada em 1965, a emissora encerra a comemoração com o presente espetáculo. Alfredo (Marcos Veras), renomado autor contratado para escrever a “dramaturgia” fica apavorado com tantas informações e pede socorro à Nossa Senhora das Oito (Eliane Giardini), apelido dado à novelista Janete Clair (referência estrutural da teledramaturgia brasileira). 

Janete surge em auxílio e ambos perpassam personagens icônicos como Emília e Visconde de Sabugosa, Odorico Paraguaçu, Sinhozinho Malta, Tieta, Lineu, Nenê, Bebel e Agostinho, Dona Armênia, Dona Jura, Bebel, Ribamar, Tancinha (Sassaricando), Carlão (Pecado Capital) e Carminha, além de personalidades como Xuxa, Pedro Bial, Chacrinha e Roberto Carlos. 

Quase quarenta números musicais trazem à baila uma trilha sonora repleta de sucessos nacionais (‘Brasil’ – Vale Tudo; ‘Me Chama Que Eu Vou’ – Rainha da Sucata; ‘Dancin Days’; ‘Per Amore’ – Por Amor; ‘Irmãos Coragem’; ‘Pavão Misterioso’ – Saramandaia. 

Assim como músicas da Xuxa Meneghel, Roberto Carlos etc. Tudo (com relevância ao Teatro de Revista) transcorre sob a direção e texto de Gustavo Gasparani (colaboração de texto de Guilherme Siman), trinta e dois artistas em cena e orquestra. 

O texto tem por mérito costurar todo referencial necessário à prodigiosa contação da história sem descurar das propriedades construtivas de um musical.

Há espaços relevantes à informação, distensões cômicas e aberturas emocionais.

A escrita caminha com a direção por duas importantes vertentes: a dos fatos narrados e a sua extração simbólica. Gasparani também se destaca por trazer a personagem referência do Teatro (André Dias – Dionísio/Baco) ao lado de Janete Clair na intermediação com o protagonista. 

A voz cênica traz à fruição uma diversidade e complementariedade necessárias. Não por haver direta distinção qualitativa entre as linguagens, mas por mostrar o cuidado de importantes construções de personagens, o relevante percurso artístico de alguns atores e atrizes e o processo artesanal de específicos projetos da emissora ao longo dos anos. 

Carminha, em Avenida Brasil, à guisa de exemplo, adota nitidamente uma linguagem teatral na novela mitigando a postura televisiva. Podemos citar ainda ateliês de minisséries com proposta de companhia teatral e o próprio Teatro de Revista citado anteriormente. 

Outra virtude da direção é colocar todos os componentes do espetáculo em unidade de execução. Todos os profissionais realizam o mesmo musical. 

A passagem cênica (precisamos fazer imediata referência ao diretor de movimento Alonso Barros) também possui o cuidado de repousar em determinadas cenas sem a pressa e o escapismo natural da linguagem dos musicais que apenas preparam o terreno à próxima apresentação coreográfica. 

Grande mérito, pois a retenção cênica à interpretação qualificada elimina a ideia do musical superficial cuja movimentação ininterrupta serve à distração com o intuito de esconder superficialidade. 

Por isso, minha alegria de assistir a essa articulação entre as cenas necessárias à composição do musical com a profundidade das falas mormente realizadas nas peças de Teatro tradicionais. 

A direção de movimento especificamente (Alonso Barros) bem distribui a passagem e permanência de artistas e cenas ao longo da apresentação. Temos o palco preenchido de forma harmônica e técnica na importante travessia das cenas. O ritmo de passagem está muito bem controlado. E a coragem de “pausar” um musical para abrir diálogo ou solilóquio deve ser reconhecida. 

A direção geral e a direção de movimento não têm medo de perder a plateia. Ao contrário, confiam na história e nos atores e atrizes envolvidos nas falas mais cirúrgicas.

Os artistas realizam bem o seu ofício. Há destaques no canto, na dança e no texto, mas a força está no conjunto (que também representa o público conforme indica a cena final). Obviamente, há um ou outro excesso na interpretação, mas nada capaz de macular o todo. 

O trio principal de atores está entrosado e conta de forma esclarecedora a história para o seu público. Destaque absoluto para Eliane Giardini. Ela oferece uma interpretação oposta ao recorrente maximalismo musical. 

Domina com elegância e contenção os gestos e as ações físicas (antropologia teatral), ressalta as intenções dos verbos (gestalt) e deixa a sua tradicional melodia de fala nos finais de frase bem escolhidos pulsar levemente o espetáculo (lembra Avenida Brasil – isso é um elogio e uma sutileza gratificante).

Excelente interpretação de uma grande atriz.

André Dias na figura do Teatro (Dionísio/Baco), sobe um dedo as tintas com acerto. Funciona, aliás, como deve sempre ocorrer no audiovisual. Em outras palavras, devemos constantemente ressaltar: a interpretação televisiva e a cinematográfica possuem particularidades, mas não esqueçamos jamais da estrutura fundante (nascedouro) de todo ator e atriz, qual seja o Teatro. 

Nesse paradigma, levantar um pouco a interpretação oferece inteligente contraste com Giardini (lembrou-me Zé Celso e o meu mestre e amigo Amir Haddad). 

André, por vezes e sempre, precisa estar em atuação na divisa entre Giardini e Marcos Veras, e o faz sem deixar tempos mortos. Está atento e afiado. Bom trabalho. 

Marcos Veras também realiza com propriedade sua função. Possui bom trato vocal, caminha por todas as funções do espetáculo com eficácia e exposição. Mas apresenta uma energia vegetal um pouco além da necessária em algumas mínimas passagens. 

Escapam leves estridências e falas antecipadas (memória do futuro). 

Coloca-se à frente do texto. Não por vaidade. Marcos é um profissional. É uma ansiedade que resulta “queimar a largada”. Não segurar na mão o tempo da vida cênica. Mas são instantes mínimos aqui mencionados pelo meu respeito com o leitor, mas nada que possa desconsiderar o talento de Veras. Em verdade, nem posso assegurar – por honestidade intelectual – se é assim a interpretação ou apenas o foi no dia que assisti. 

Outra singela observação à direção e ao Marcos Veras é a sensação de não haver uma construção de personagem com mais camadas e progressão ao longo da empreitada árdua, haja vista ser a única personagem do espetáculo que pode trilhar esse caminho. É a única que evolui na criação. As demais são horizontais porquanto representativas. Mas sua atuação de forma alguma compromete. 

Realiza bom trabalho, morre na coxia (entrega suas forças físicas até o seu esgotamento) e possui carisma e muito valor para conduzir o feito.

Os figurinos são corretos, utilitários, estéticos e representativos. Não posso aferir se foi intencional, pois sabemos a diferença da construção dos trajes televisivos e teatrais (a câmera funciona como uma forma de acabamento, sendo bem mais industrial), mas senti falta de um corte teatral, tecidos mais estruturados e datados (não no croqui, mas na composição). 

Mas isso é linguagem. Jamais um erro. Muito bonito o trabalho de Marília Carneiro e Patrícia Muniz. Feliciano San Roman no visagismo, cabelos e perucas é correto, estético e competente. 

O desenho de maquiagem de Keila Santos não busca destaque egóico, mas servir a obra (e isso é ótimo e nobre). O cenário (Studio Curva e Marieta Spada) oferece residência (acolhimento) aos atores e auxilia no percurso dramático. Bem construído e inventivo, não contradiz a obra e nem se destaca a ponto de distrair o público do protagonismo dos artistas. Tudo na medida certa. 

Aliás, cenário, figurino e luz comungam com categoria e nos remetem simbolicamente a tudo quanto ocorrido nos sessenta anos. Os conteúdos visuais do Studio Curva possuem excelente função social de ratificar e acrescentar demais histórias-personagens cujo tempo do espetáculo não permitiria maior digressão e o fazem por meio de uma agregação perfeita ao cenário (também realizado por eles).

Nessa mesma linha de raciocínio, mérito ao VJ: Plínio Hit no motion designer. Escolhas certeiras e contributivas à obra. Complementa toda atmosfera necessária ao embarque existencial da plateia. 

O desenho de luz de Vinícius Zampieri é bem planejado e oferece recortes, angulações, gelatinas (cores) e intensidade importantes nas intervenções dramáticas. Luz de foco e filigrana. Até mesmo a iluminação aberta não comete o erro de abrir luz de serviço. É teatral, com seus claros e sombras definidas. Uma felicidade. 

O desenho de som de Gabriel D´Angelo está a serviço do texto e com ele caminha de mãos dadas em acerto. As coreografias de Alonso Barros (também responsável pela direção de movimento) são representativas e operam na temperatura determinada pelo espetáculo. 

Tanto a direção de movimento quanto as coreografias caminham para o destino das obras e personagens com bons destaques (por exemplo, Odorico Paraguaçu). E isso é um valor, pois não há movimento sem intenção ou apenas com o intuito de agradar ao público. 

A direção musical e arranjos de Wladimir Pinheiro e a execução dos excelentes músicos construíram o “clima” outrora exaltado por Artur da Távola em sua obra ao se referir a beleza da mulher. É um fog musicado. Realizam o trabalho com esmero. Entram e saem com precisão e maestria. 

Diante dos números grandiosos é necessário entregar crédito à direção artística e produção geral de Aniela Jordan, à direção de produção de Bianca Caruso e o casting de Marcela Altberg. 

Sabemos por vir da coxia o esforço necessário para levantar uma obra deveras contundente. O público que lota a bela sala do Teatro Riachuelo sai em catarse e carrega a história da Rede Globo esculpida na sua biografia pessoal. O espetáculo nos faz conhecer parentes de uma família construída por décadas, mas que apenas o afastamento histórico traria tamanha compreensão. Talvez seja um dos poucos musicais capazes de tal feito tamanha envergadura da história trazida à baila. 

Por derradeiro, uma provocação política- artística: o espetáculo festivo deixou-me nostálgico e preocupado. Quando observei (a granel) todos os talentos pessoais e brilhantes projetos que atravessaram essas décadas, perguntei-me se as redes sociais e os streamings (bem satirizado no espetáculo) não inviabilizam o surgimento de outros grandes talentos e projetos.

Óbvio que a TELEVISÃO faz concessões. 

Por exemplo, diante da necessidade de atingir um público heterogêneo. Mas as plataformas digitais, sem barreira de entrada (mínimo investimento e demais pormenores), trazem uma pretensão estritamente financeira, completamente desvinculada com a cultura nacional dos países e a formação artesanal do artista (arte é tempo).

Não há comparação entre o IBOPE e o ALGORÍTIMO. As trends internacionais demonstram claramente essa ocorrência conglobante. 

Hoje, faz-se tudo, e tudo rápido, e tudo igual em plena subserviência-sobrevivência à demanda da atenção inescrupulosa.

Isso reduz drasticamente a demanda de

qualidade à plateia tamanha intervenção e 

contato com as telas de fugaz produção e gosto duvidoso.

É inegável o ganho democrático das novas tecnologias, mas também devemos reconhecer 

que a quebra da barreira de entrada torna as emissoras cada vez mais custosas e limitadas. 

O Youtube e seus pares jamais comemorarão sessenta anos no mesmo diapasão. 

O discurso do novo, por vezes, é apenas uma narrativa para constranger o clássico “padrão de qualidade”. 

Pergunto-me: o caminho evidente e destrutivo dos canais globais de entretenimento (plataformas – não há como competir financeiramente) fará surgir novamente algo visto nessa obra ESPELHO MÁGICO? 

Um podcast limitará o surgimento de Marília Gabriela, Jô Soares e Pedro Bial? 

No humor, haverá tempo-financeiro, de reflexão e construção para surgir Chico Anysio e importantes programas cômicos ou ficaremos na comédia em pé americana? 

As novelas serão verticais? 

Respostas? Não as tenho. 

Perguntas? Amiúde!

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