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Crítica Teatral

O excesso como linguagem em Elogio da Loucura

espetáculo estrelado por Leona Cavalli, Leonardo Talarico reconhece o vigor da montagem e a potência da atriz, mas questiona escolhas cênicas que, segundo ele, transformam a complexidade do tema em uma experiência marcada pelo excesso, pela caricatura e pelo entretenimento em detrimento da reflexão.

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em

Foto: Henrique Bucher

Por Leonardo Talarico

Elogio da Loucura é uma adaptação a obra de Erasmo de Rotterdam. O espetáculo traz referências à loucura sob diversos prismas existenciais. Todas essas abordagens apontam a loucura como um elemento externo ao homem (escolha). A loucura, sob essa perspectiva, é uma decisão pessoal e não decorrente de fatores endógenos ou exógenos.

A obra escrita como uma sátira à sociedade dos séculos XV e XVI encontra (hoje) contemporaneidade. A loucura é apresentada na fruição como uma personagem (Leona Cavalli).

O Texto de Rotterdam é precioso e a dramaturgia de Leona Cavalli e Eduardo Figueiredo é fiel à literatura e escorreita. Muito boa adaptação. A direção de Eduardo Figueiredo rege o espetáculo no caos (pode ser o objetivo).

Todos os recursos teatrais e os de entretenimento possíveis são utilizados. Música ao vivo, parte da plateia sentada em cadeiras distribuídas no palco, interação extrema com o público, flexibilidade para improvisar a ponto de interromper a contação da história e conversar sobre a loucura e outros assuntos com a atriz Susana Vieira presente no Teatro (Crowd Work).

Por honestidade, é uma catarse e fascina a todos presentes.

O público reconhece o espetáculo por meio de aplausos, gritos e gargalhadas. Entretanto, como Ato Teatral, entendo um equívoco. Óbvio que o Teatro possui diversas linguagens e não devemos reprimir ou subestimar escolhas teatrais. À guisa de exemplo, está o “Teatro de Rua” do meu mestre Amir Haddad desconstruindo toda europeização cênica. Por decorrente, opino a partir das escolhas feitas e postas no tablado.

Em outras palavras, minha análise se restringe aos elementos teatrais independentemente da linguagem. Assim não o fosse, seria gosto e não crítica.

Existe uma fala articulada entre Amir Haddad e Joãozinho Trinta muito interessante: “é preciso teatralizar o Carnaval e carnavalizar o Teatro”. O Carnaval, outrora sem limites, encontrou no Teatro auxílio para melhor contar o enredo (alas coreografadas).

Analisemos, portanto, a carnavalização do Elogio da Loucura. A ideia é muito interessante. Desgarrar-se das imposições cênicas e operar no caos. Assim como sempre ocorreu com o Carnaval antes da interferência do Teatro, também produz estímulo.

A Efervescência Coletiva (Émile Durkheim) e a catarse coletiva não cobram métodos. O Stand-up (comédia em pé) comprova a tese. A ideia de tratar a loucura sem amarras é deveras interessante. A realização nem tanto.

Os inúmeros elementos postos no encaminhamento do espetáculo não encontram razão de ser exceto agradar uma certa necessidade comum.

O público, por exemplo, sentado em cadeiras no palco não traz mínima relevância à história. Esperamos (a todo instante) sua participação. E aparece algo fragmentado, sem sentido e importância. Os improvisos acolhem e entretém a plateia como o stand-up, mas também em nada colaboram.

É muita coisa para muito pouco. As doenças cognitivas atingiram dados alarmantes e isso exige ir além do engraçado e caricato. O Teatro ainda possui uma função edificante para lembrar ao ser humano suas estruturas biográficas.

Outro senão (apenas da minha parte – é importante declarar que a peça atravessa o país com sucesso de público e crítica, como informa o release) está na construção da loucura.

Leona Cavalli é uma excepcional atriz. Mas a loucura apresentada é caricata, “canta” praticamente todos os finais de frase, não estaciona nos verbos para trazer mínima imagem à plateia, possui quedas físicas e coreografias extravagantes e o tom da personagem vai do “alto ao maior”. Sobretudo, se considerarmos a utilização de um microfone de cabeça pela atriz (em um espaço pequeno – Teatro II do CCBB, do Rio de Janeiro). Nem suscito a possibilidade de outras camadas para trazer a loucura para um recanto mais sombrio e esclarecedor. Nunca! A ideia é ótima. Digo a respeito da interminável realização cômica, sarcástica e estridente.

Impossível não gostar de Leona Cavalli. Trata-se de uma atriz extraordinária, mas não é um Elogio da Loucura, é um comício. É tudo no talo. O cenário contradita a ideia de loucura como um elemento inerente à sobrevivência (feliz) humana e apresenta tudo de forma sombria e óbvia. Elementos “draconianos” da loucura. Também não atende em funcionalidade e estética (exceto alguns momentos, como, por exemplo, a entrada da cama do hospital psiquiátrico).

O Visagismo segue igual percurso. O figurino e os seus adereços são muito bem elaborados e executados (são tensos, mas não estáticos. Adotam fluidez de movimento e imagens que bem conversam com a loucura apresentada). São muito funcionais e estéticos. Merecem absoluto destaque.

Os músicos em cena são muito competentes e realizam suas funções com maestria. A trilha sonora atende as necessidades da direção. O desenho de luz oscila entre bonitos recortes e cores de LED intermináveis. Está coerente com o solicitado.

A direção de movimento é muito marcada e muito desmarcada. Ou seja, quando existe pontua de forma contundente (quedas, rolamentos e boas imagens); quando não existe… não existe mesmo. Aí a atriz anda por onde deseja e segue o barco.

Por fim, o microfone (sobretudo, pela possível baixa qualidade do PA e da mixagem) é um atentado contra a voz natural de Leona Cavalli.

Tive a sorte de assistir, e me diverti.

Tive a sorte de escrever, e não o faço com alegria.

Todos os profissionais envolvidos são muito bons e possuem história.

Mas não posso faltar com a honestidade intelectual esperada pelo meu leitor.

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