Bares
Entre a revitalização e a fiscalização, bares do São Francisco questionam ações no Centro de Curitiba
Proprietários relatam dificuldades para obter autorização para música ao vivo, notificações e operação policial; movimento cobra diálogo com o poder público enquanto Prefeitura anuncia programa para fortalecer comércio, gastronomia e cultura na região
Foto: Mari Martins
Por Vanessa Ricardo e Mariana Martins
No mesmo momento em que Curitiba anuncia novos investimentos para revitalizar a região central e estimular a ocupação dos espaços públicos, proprietários de bares do bairro São Francisco relatam dificuldades para manter atividades que, segundo eles, ajudam a movimentar a vida noturna e cultural da região.
Os relatos partem de empresários de estabelecimentos localizados no entorno do Setor Histórico e envolvem desde dificuldades para obter autorização para música ao vivo até fiscalizações e uma operação policial realizada recentemente em um dos bares. Os proprietários afirmam que as ações têm provocado insegurança entre comerciantes e trabalhadores e defendem uma discussão mais ampla sobre como conciliar fiscalização, segurança, cultura e ocupação das ruas.
A situação ocorre justamente dentro da área abrangida pelo programa Curitiba de Volta ao Centro, principal projeto da Prefeitura para a requalificação da região central. Segundo o município, a iniciativa pretende integrar moradia, trabalho, segurança, cultura e lazer e fortalecer atividades como comércio, gastronomia, turismo e economia criativa.
Música como parte da sobrevivência do bar
Proprietária do Patuá Bar, Jé Arruda conta que o estabelecimento começou com a proposta de funcionar como um bar de drinks, sem música. Com o tempo, porém, a empresária percebeu que as apresentações musicais eram importantes para atrair público e movimentar o faturamento.
Segundo ela, o estabelecimento tentou diversas vezes obter autorização para música ao vivo, mas recebeu respostas negativas.
“Eles sempre entregam negativa pra gente e nunca justificam o motivo da negativa. Nunca explicam o que a gente poderia fazer para conseguir esse alvará”, relata.
Jé afirma ainda que o estabelecimento foi notificado por causa da utilização de uma caixa de som, mesmo em uma ocasião em que, segundo ela, não havia música ao vivo.
De acordo com a empresária, a orientação recebida foi de que o bar, por não possuir autorização para entretenimento, não poderia utilizar equipamentos de som. A única possibilidade seria manter uma televisão para programação convencional, como jogos de futebol.
Diante do risco de novas notificações, Jé afirma que decidiu cancelar a agenda de bandas.
“É um bar muito pequenininho. A gente não ia dar conta de pagar R$ 14 mil de multa”, afirma.
A empresária diz que a situação motivou uma reunião entre proprietários de diferentes bares da região. O objetivo, segundo ela, é entender quais atividades podem ser realizadas dentro das regras e buscar alternativas para manter a movimentação cultural do bairro.
“É fazer com que a cultura de rua não acabe”, resume.
Empresários questionam relação entre segurança e ocupação das ruas
Para Jé, existe ainda uma questão mais ampla envolvendo a presença de pessoas nas calçadas e a dinâmica dos estabelecimentos.
Segundo ela, uma notificação relacionada ao estabelecimento teria apontado que o movimento de pessoas na rua estaria interferindo no fluxo de circulação.
O relato reforça uma preocupação compartilhada por comerciantes: como estimular a ocupação do Centro e, ao mesmo tempo, estabelecer regras que permitam que bares, restaurantes e espaços culturais permaneçam ativos no período noturno?
A questão ganha relevância porque o próprio programa Curitiba de Volta ao Centro estabelece o fortalecimento do comércio, dos serviços, da gastronomia e da cultura como parte da estratégia de reocupação da região. O Setor Histórico de Baixa Emissão, que inclui o bairro São Francisco, é descrito pela Prefeitura como área com potencial para atividades culturais, criativas e turísticas e como polo gastronômico, hoteleiro e cultural.
Operação policial no Capilé Seu Zé
Outro episódio relatado por comerciantes ocorreu no Capilé Seu Zé, na Avenida Jaime Reis, também no São Francisco.
O proprietário, Gilson Gonçalves, afirma que uma operação policial chegou ao estabelecimento na noite de uma sexta-feira, por volta das 22h40. Segundo ele, entre cinco e sete viaturas da Polícia Militar participaram da ação, incluindo uma equipe do Batalhão de Choque.
De acordo com o empresário, os policiais determinaram que o som fosse desligado e retiraram clientes e funcionários do interior do estabelecimento.
Gilson afirma ainda que policiais entraram no bar e revistaram diferentes espaços do imóvel, incluindo áreas onde estavam pertences de funcionários. Segundo o proprietário, também houve acesso a uma área que dá entrada à residência onde ele mora.
O empresário questiona a ausência, segundo seu relato, de uma apresentação formal da ordem que teria autorizado a entrada e afirma que funcionários foram impedidos de telefonar para ele ou para um advogado durante a abordagem.
“Foi muito grave o que aconteceu aqui”, afirma.
As acusações apresentadas pelo empresário ainda precisam ser confrontadas com a versão oficial das autoridades responsáveis pela operação.
Drogas e divulgação da operação
Segundo Gilson, durante a ação foi encontrada uma quantidade de aproximadamente 14 gramas de maconha pertencente, de acordo com seu relato, a um cliente.
O empresário contesta a forma como o episódio foi posteriormente divulgado e afirma que reportagens publicadas após a operação associaram a fachada do estabelecimento a um ponto de tráfico de drogas.
Ele afirma que pretende discutir judicialmente o conteúdo dessas publicações e diz possuir imagens das câmeras internas e externas do estabelecimento, além de registros feitos por uma advogada que estava no local.
Gilson também afirma que pretende apresentar o material às autoridades.
É importante ressaltar que as afirmações sobre abuso policial, ameaça, furto de dinheiro e irregularidade na operação são acusações feitas pelo empresário e não estão, até o momento, comprovadas de forma independente.
Entre os relatos apresentados por Gilson estão ainda a suposta ameaça feita por um policial a um músico que teria tentado utilizar o celular para pedir auxílio e a alegação de que R$ 70 teriam desaparecido da bolsa de uma funcionária durante uma revista.
O proprietário diz que possui imagens que podem ajudar a esclarecer parte dos acontecimentos.
A presença da imprensa durante a operação
Um dos pontos levantados pelo empresário diz respeito à presença de uma equipe de reportagem durante a ação policial.
Segundo Gilson, os profissionais chegaram ao local acompanhando o comboio policial e entrevistaram o capitão responsável pela operação. Ele afirma que não foi procurado para apresentar sua versão antes da publicação das informações.
Para o empresário, a forma como o episódio foi noticiado teria contribuído para associar o estabelecimento ao tráfico de drogas.
A crítica, neste caso, não é apenas sobre a operação policial, mas também sobre a necessidade de pluralidade na cobertura jornalística de ações de segurança pública. A versão das autoridades e a versão dos comerciantes precisam ser diferenciadas e apresentadas com clareza, especialmente quando uma ação pode afetar a imagem e a atividade econômica de um estabelecimento.
Um Centro que precisa de vida — e regras claras
A discussão acontece em uma região que a própria Prefeitura escolheu como uma das áreas prioritárias para a revitalização.
Em março, o município regulamentou os incentivos do programa Curitiba de Volta ao Centro. A iniciativa prevê até R$ 163 milhões em incentivos até 2032 e inclui o Centro Histórico e parte do São Francisco. Entre as atividades consideradas estratégicas estão comércio, serviços, gastronomia, turismo e economia criativa.
Em julho, a Prefeitura informou que o programa havia recebido 47 propostas de projetos que somam R$ 268 milhões em investimentos. Vinte dessas propostas estão relacionadas ao chamado “comércio ativo”, voltado à revitalização de espaços comerciais, enquanto o Eixo Teatro Guaíra–São Francisco–Jaime Reis também aparece entre as áreas contempladas.
O próprio modelo de subvenção econômica prevê incentivos para atividades comerciais localizadas no térreo dos imóveis, justamente com o objetivo de estimular a ativação dos espaços urbanos e a dinamização do ambiente de rua.
É nesse ponto que comerciantes como Jé Arruda e Gilson colocam uma questão que ultrapassa seus estabelecimentos: qual será o lugar dos bares, da música e da cultura independente na nova configuração do Centro de Curitiba?
A revitalização anunciada pelo poder público passa pela recuperação dos imóveis e pela atração de novos investimentos, mas também pela existência de uma rede de pequenos negócios que já ocupa o território e produz circulação de pessoas, encontros e programação cultural.
Para os empresários ouvidos pelo A Cena e o Eu Amo Curitiba, a reivindicação não é pela ausência de fiscalização. É pela existência de regras claras, diálogo e condições para que os estabelecimentos possam funcionar dentro da legalidade.
“Não importa se ali ou em outro endereço. A gente tem que seguir até onde puder ali”, afirma Jé.
Enquanto isso, os proprietários dizem estar se organizando para buscar uma reunião com representantes da segurança pública e discutir os episódios recentes.
A pergunta que fica para a cidade é como transformar a promessa de um Centro mais vivo e ocupado em uma política que consiga conciliar segurança, fiscalização, direito à atividade econômica, cultura e convivência urbana.
Comerciantes organizam manifestação
Diante dos episódios relatados e da preocupação com os procedimentos adotados nas ações de fiscalização e segurança, comerciantes, trabalhadores e frequentadores da região organizam uma manifestação para este sábado (22), a partir das 19h, com concentração em frente ao Capilé Seu Zé, no São Francisco.
A mobilização pretende dar visibilidade às reivindicações dos estabelecimentos da região e cobrar respostas do poder público sobre os procedimentos de fiscalização, as ações das forças de segurança e as condições para o funcionamento dos bares e espaços culturais do bairro.
Entre as reivindicações estão a definição de protocolos mais claros para as fiscalizações, transparência nos procedimentos adotados pelas forças de segurança e esclarecimentos sobre os episódios relatados pelos comerciantes.
Para os organizadores, a apuração dos fatos é fundamental para que eventuais responsabilidades possam ser identificadas e para que comerciantes, trabalhadores, frequentadores e moradores tenham segurança sobre quais são os limites legais das operações realizadas nos estabelecimentos.
A manifestação também coloca em debate uma questão maior sobre o futuro do Centro Histórico: como promover a revitalização e a ocupação cultural da região sem afastar justamente os pequenos negócios, artistas e frequentadores que ajudam a manter o território vivo?
Enquanto a Prefeitura anuncia investimentos e incentivos para recuperar o Centro e estimular comércio, gastronomia, cultura e economia criativa, comerciantes do São Francisco pedem que a revitalização também seja construída a partir do diálogo com quem já ocupa e movimenta a região.
A manifestação está marcada para sábado (22), às 19h, em frente ao Capilé Seu Zé, na Avenida Jaime Reis.

