Crítica Teatral
Essa Peça Tem Beijo Gay
Em sua crítica, Leonardo Talarico ressalta a relevância artística e social de Essa Peça Tem Beijo Gay, uma obra que provoca, emociona e enfrenta preconceitos ainda presentes na sociedade brasileira
Por Leonardo Talarico
O Teatro tem inúmeras funções sociais. O exercício cênico político representa importante compromisso da arte com odevido desenvolvimento humano.
O espetáculo “Essa Peça Tem Beijo Gay” reaparece em cartaz para tratar com pertinência sobre o persistente e inacreditável preconceito na sociedade brasileira. Triste perceber uma sociedade retrógrada persistir nas mesmas pautas conservadoras há décadas.
A peça acerta simbolicamente ao tratar do “beijo”, pois ataca o ser hipócrita diante corriqueiro ato humano normalizado. Para os normativos o beijo é insignificante. Mas se ocorrer entre homens (se for entre mulheres o fetiche trará novas dinâmicas) ocorrerá (ainda) repulsa. Mas os ditos “normais” creditam realmente ao beijo um valor diferenciado? Assim o fosse não seria a prostituta a negá-lo diante de um homem casado!
A referida obra faz parte daqueles raros espetáculos cuja necessidade de falar em primeira pessoa transcende os aspectos técnicos. Com isso afirmo haver divergências entre mim e algumas escolhas artísticas da obra. Mas diante da necessidade do “dizer social” isso é um pormenor. Nossas diferenças mais nos aproximam do que nos afastam.
A dramaturgia de Leandro Fazolla e Rohan Baruck (supervisão Dadad de Freitas) articula fatos e avança com forte pontuação simbólica. Considero o texto interessante,bem escrito, socialmente importante e abrangente nas mais diversas ações preconceituosas persistentes.
O texto não é palatável, pois fragmenta determinados elementos, mas o faz com propriedade. Esse é o objetivo e não há equívoco. O texto confia na inteligência do seu público.
A direção de Dadad de Freitas acerta prontamente em algumas passagens cênicas inventivas, nos momentos de falas esclarecedoras, mas carrega um pouco nas tintas durante as representações simbólicas (adereços e movimentos).
O fator simbólico possui uma força intrínseca latente. Se acentuamos o símbolo ele perde a entrada sútil nas almas da plateia. Na mesma linha de raciocínio, a palavra contundente escrita precisa de pouco para chegar nos corações. Textos fortes, menos interpretação (vice-versa). Isso gera equilíbrio e maior esclarecimento.
A direção de movimento de Maurício Lima oscila. Quando mexe o tabuleiro para os atores esclarecerem diretamente a história, brilha. Quando realiza movimentações e coreografias com o intuito mais simbólico, extravasa.
O cenário de Maurício Lima é minimalista, cumpre sua função, possui desdobramentos interessantes e auxilia na passagem da obra. Não possui uma planta baixa com acabamento esmerado, mas nada compromete.
Os figurinos de Flávio Souza são utilitários, não se destacam e não criam obstáculos. São utilizados, inclusive, em pretensões simbólicas no vestir e despir.
O desenho de luz de Ana Luzia Molinari de Simoni é bem elegante, minimalista e bem angulada. Entretanto, precisa ajustar-se ao novo espaço. O linóleo preto é ótimo para recortes, mas desfaz um pouco a ambiência cênica do cenário e do espaço quando recebe luz intensa (importante ressaltar que pode ser o desenho de luz, a operação ou mesmo a manutenção da mesma intensidade em novo equipamento cênico).
A direção musical de Bèá Ayòóla é correta, agradável, mas precisa cuidar para não abafar as vozes dos atores (caso não tenha sido a intenção ou equívoco na operação).
No tocante as interpretações, ambos atores “morrem na coxia” (deixam tudo em cena) e entregam unidade artística ao espetáculo. Leandro Fazolla esteve inconstante na interpretação. Houve momentos orgânicos e horizontais e outros de rigidez cênica (obviamente como o Teatro é vivo pode ter sido apenas um movimento de estreia nessa temporada).
Destaque para Rohan Baruck. Sua interpretação éhorizontal, não acentuada e limpa. Baruck apresenta a obra de forma clara com pleno domínio técnico vocal e antropológico (teatro físico). O raciocínio bem apresentado e articulado no tempo presente afasta a famigerada “memória do futuro”.
Tudo está vivo e presente mesmo diante de difíceis frases curtas e solilóquios modulados.
Por fim, agradeço o honroso convite e desejo vida longa à obra.
Os gritos de bravo e aplausos ao término da fruição indicam o referido espetáculo como elemento vivo e necessário à extirpação do preconceito social e valor artístico reconhecido pela plateia.
Parabéns a todos envolvidos.

