Festival de Curitiba
Mulher em Fuga – Uma mulher que insiste em viver
Em cerca de 80 minutos, a montagem atravessa temas densos com uma precisão impressionante, sem perder o fôlego, sem diluir a complexidade. Tudo acontece em um fluxo que captura e quando termina, parece que foi rápido demais.
Foto: Divulgação
por Vanessa Ricardo
Mulher em Fuga traz ao palco Malu Galli como Monique e Tiago Martelli como Édouard, sob a direção precisa de Inez Vianna e dramaturgia contundente de Pedro Kosovski. O texto nasce do encontro entre duas obras do escritor francês Édouard Louis, Lutas e Metamorfoses de uma Mulher e Monique se Liberta, e se constrói nesse trânsito entre passado e presente.
Mas há uma virada fundamental: se nos livros a história é atravessada pelo olhar de Édouard, aqui a cena devolve a palavra a Monique. E isso muda tudo.
É a partir dessa perspectiva que acompanhamos uma trajetória marcada por violência, pobreza e misoginia sem filtros, sem concessões. Malu Galli constrói uma personagem de uma força rara. Há algo de profundamente humano na forma como ela sustenta essa mulher que, mesmo atravessada por tantas dores, insiste quase como um gesto de sobrevivência em afirmar que ainda vai ser feliz.
Quando li Lutas e Metamorfoses de uma Mulher, me vinha à mente Dias Felizes, de Samuel Beckett. Winnie, enterrada até o pescoço, esperando algo que a arranque daquele estado de suspensão. Monique carrega essa mesma sensação de aprisionamento mas há uma diferença crucial: ela rompe. Ela escapa. Ela se move.
E talvez seja justamente aí que o espetáculo pulsa com mais força.
Em cerca de 80 minutos, a montagem atravessa temas densos com uma precisão impressionante, sem perder o fôlego, sem diluir a complexidade. Tudo acontece em um fluxo que captura e quando termina, parece que foi rápido demais.
Mulher em Fuga é, sem dúvida, um dos grandes momentos do Festival de Curitiba neste ano. Um espetáculo que não apenas se assiste mas se atravessa.

