Cultura
Morre Dona Mide, guardiã do fandango paranaense e referência da cultura popular
Fundadora do grupo Meu Paraná e uma das maiores defensoras do fandango no estado, Clemildes Ferreira Bahr dedicou mais de cinco décadas à preservação da cultura popular paranaense.
O Paraná se despede de uma de suas mais importantes representantes da cultura popular. Faleceu Dona Mide, nome pelo qual era conhecida Clemildes Ferreira Bahr, pesquisadora, difusora cultural e uma das maiores guardiãs do fandango paranaense.
Nascida em Curitiba e descendente de uma família profundamente ligada à música, Dona Mide dedicou grande parte de sua vida à preservação das tradições populares do estado. Seu trabalho tornou-se referência para pesquisadores, artistas e comunidades que mantêm viva a cultura caiçara no litoral paranaense.
Em 1988, fundou o grupo folclórico Meu Paraná, iniciativa que se transformou em um importante instrumento de divulgação do fandango dentro e fora do país. Ao longo de décadas, promoveu apresentações, encontros culturais, pesquisas e ações de valorização dessa manifestação artística que reúne música, dança e saberes tradicionais transmitidos entre gerações.
Muito além dos palcos, Dona Mide atuou como uma verdadeira guardiã da memória. Costureira de profissão, utilizou seus conhecimentos para confeccionar figurinos, preservar referências históricas e fortalecer a identidade visual dos grupos folclóricos. Sua dedicação foi fundamental para que o fandango conquistasse reconhecimento e permanecesse vivo em um período marcado por profundas transformações sociais e culturais.
O trabalho desenvolvido por ela recebeu diversas homenagens ao longo da vida, incluindo o título de Doutora Honoris Causa, concedido em reconhecimento à sua contribuição para a cultura popular paranaense.
Sua trajetória também foi registrada no documentário “Dona Mide – Mulher de Fibra do Fandango Paranaense”, que apresenta sua história de luta, resistência e amor pelas tradições do estado. O filme retrata a mulher que transformou sua paixão pela cultura em uma missão de vida, tornando-se uma das mais importantes defensoras do patrimônio imaterial do Paraná.
Para o Jornal A Cena, a partida de Dona Mide também representa a despedida de uma personagem inesquecível. Em 2013, durante uma reportagem sobre seu irmão, o músico e compositor Lápis, conhecido por seus sambas, tivemos a oportunidade de visitá-la em sua casa. Foi naquele encontro que se revelou a dimensão de seu trabalho em prol do fandango e da cultura popular. Mais do que uma pesquisadora ou organizadora cultural, Dona Mide demonstrava uma profunda paixão pelas tradições paranaenses e uma dedicação incansável à preservação da memória coletiva.
Seu legado permanece vivo nas danças, nas músicas, nos figurinos, nas histórias e nas pessoas que ela inspirou ao longo de sua caminhada. Com sua partida, a cultura paranaense perde uma de suas maiores referências. Mas sua obra, construída com perseverança e amor pelas raízes populares, seguirá ecoando por muitas gerações.

