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Teatro

Quando a história oficial já não basta

Na crítica de Leonardo Talarico, o espetáculo HISTÓRIA, da Companhia Brasileira de Teatro, celebra os 25 anos do grupo ao questionar as narrativas oficiais e transformar memórias pessoais em um potente exercício de reescrita da História.

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Por Leonardo Talarico

O Espetáculo HISTÓRIA, da Companhia Brasileira de Teatro, dois atores (Carolina Virgüez e Rafael Bacelar) e um músico (Felipe Storino) levam à cena fragmentos de vivências e memórias despertadas por fotos, canções, vestígios e histórias sobre a as rejeições, o abandono parental, o preconceito, as relações familiares, as guerras e outras experiências que descortinam um mundo fraturado que não mais se sustenta na “história oficial”, conforme bem esclarecem.

A história oficial, prosseguem, não dá mais conta das múltiplas verdades que não mais aceitam ser apagadas ou silenciadas ao longo do tempo. 

A obra também celebra os 25 (vinte e cinco) anos da Companhia Brasileira de Teatro. 

Pretende-se, por meio da encenação, pensar a história para além dos registros oficiais, reconhecendo a potência das experiências cotidianas e das vozes frequentemente apagadas. 

A peça teatral também dialoga com pensamentos da pesquisadora Leda Maria Martins, especialmente a ideia de temporalidade espiralada, em que passado, presente e futuro coexistem em movimento contínuo. Algo que compreendo deveras interessante.  

O release da obra descrito auxilia sobremaneira delimitarmossuas pretensões. Se tivéssemos de operar em poder de síntese, a frase seria: “Se não fizermos a História, seremos feitos por ela.”O espetáculo objetiva lançar a história em desconstrução e reescrita por desacreditar ou desconfiar da sua autenticidade. 

Ainda nos escritos da Companhia Brasileira de Teatro a história é vista como disciplina ou ferramenta de que a humanidade dispõe para ter sua memória preservada ao longo dos séculos, ou milênios. Mas, quem garante sua autenticidade? Quem está verdadeiramente licenciado para escrever a história? E ainda que licenciado, quantas histórias apagadas em favor de umaisolada?

Em termos práticos, a produção final é uma saudável fragmentação de pensamentos oriundos de diversos profissionais em pesquisa. Mesmo diante da notória dificuldade de compreensão (e não teria como ser diferente tamanha pretensão artística, social e política), o texto é bem escrito, com valor estético, bem costurado, com relances de impacto e escrito em unidade a despeito dos inúmeros autores, quais sejam Márcio Abreu, Carolina Virgüez, Rafael Bacelar, Key Sawao, Nadja Naira, Felipe Storino, Idylla Silmarovi, Cássia Damasceno e José Maria (texto final de Márcio Abreu). 

O texto não poderia ser palatável diante das escolhas supramencionadas e a plateia acaba por não reter o todo, mas muitas informações e a base principiológica gera um percurso orientador estimulante. E isso não é um problema; ao contrário. À guisa de exemplo, A “Alma Imoral”, da minha querida amiga Clarice Niskier, exige inúmeras sessões à compreensão mais latente. O texto é lançado de forma “comiciada” e isso possui coerência com a pretensão da montagem.  Toda mudança drástica e volumosa implica um tempo de vida comprimidoacelerado ao imediato entendimento do novo apresentado. 

A criação e performance de Carolina Virgüez e Rafael Bacelar e a direção de Márcio Abreu relembram-me, ausente a intençãoideológica, a famigerada fala do ex-ministro e economista Pedro Malan: “No Brasil até o passado é incerto”. A frase de Malan indica a imprevisibilidade da história e da política brasileira. E o projeto posto em cena traz à lume essa questão por meio de argumentações bem esclarecidas.

O contexto da frase sugere diversas reviravoltas políticas e sociais frequentemente contestadas e sujeitas a mudanças. Essa incerteza chega hoje até o Supremo Tribunal Federal ao levantar questões sobre a validade de sentenças já transitadas em julgado. Isso deixa claro como o passado pode ser reinterpretado de acordo com os interesses dos falantes a despeito dos fatos ou por razão de novos conceitos e linguagens sociais. 

A discussão sobre essa incerteza é vital para entender não apenas o passado, mas também as direções futuras que o Brasil pode tomar e são essenciais para qualquer análise crítica da realidade brasileira, destacando a necessidade de um olhar atento e informado sobre os eventos que moldam a sociedadecontemporânea.

Essa desconstrução e reformulação histórica é cenicamente apresentada por Carolina Virgüez, Rafael Bacelar e Felipe Storino (músico). 

A direção, mesmo diante da complexidade dramatúrgica, impõe uma passagem cênica voltada ao esclarecimento e a faz deslizar com propriedade e qualidade. 

A direção coloca todos os saberes teatrais em unidade de linguagem e à disposição da comunicação horizontal. 

A direção de movimento de Key Sawao possui equilíbrio de palco, apresenta bons quadros cênicos e caminhos para o destino. O ator, atriz e músico não se movimentam sem necessidade. Isso é algo bem positivo. Existe uma articulação interessante entre movimentação estridente e foco em solilóquio.

O cenário de Marcelo Alvarenga propõe uma desorganização bem alinhada à história revisitada em uma busca e apreensão da verdade real realizada pela companhia teatral. É estético, maximalista, detalhado e focado nos fatos e nos elementos simbólicos. Todos os componentes estão bem distribuídos no palco e auxiliam sobremaneira o assentamento e a ambiência dramática. Importante ressaltar a beleza e relevância do adereço ‘Cabeça Rafael’ de Bruno Dante. 

O figurino de Luiz Cláudio Silva é utilitário e equilibra a sua neutralidade com uma pegada maior do cenário. Isso gera importante equilíbrio e foco correto. Também enfatizaelementos simbólicos no processo de desconstrução com qualidade e corte.    

O desenho de luz de Nadja Naira é muito bem recortado e reforça a carga dramática necessária à contação da históriadentro do escopo almejado. As angulações e temporalizações são precisas e auxiliam o foco de atenção da plateia. 

Na direção musical, trilha sonora original e performance de Felipe Storino mantém-se toda atmosfera estridente desejada à passagem cênica, e isso transcorre com muita competência. 

Na interpretação, Carolina Virgüez e Rafael Bacelar atuam com indisfarçável vigor, mas não deixam a ênfase verticalizar as atuações. Ou seja, fazem questão de manter o olho no olho com o público interessados em dizer de forma didática e poética tudo quanto pretendido. As interpretações não são realizadas de forma egóica. Ao contrário, ambos morrem na coxia e deixam todas as suas convicções no palco. Todos buscam o esclarecimento de um texto e conceito rebuscados e bem dominam o tempo da vida e a pulsação inerentes para lançar a desafiadora dramaturgia à plateia. Ambos utilizam os verbos, a antropologia teatral e a dinâmica para romper a quarta parede e deixar mais palatável a complexidade cênica. As personagens não possuem relevante construção. E isso é absolutamente natural, haja vista que o maior escopo é o dito e não quem o diz.A força está no verbo, mesmo quando ele surge por meio dos elementos corporais.

E os dizeres (não esqueçamos) são pessoais (os atores participaram da escrita). Exatamente por isso o espetáculo é, por vezes, mais palanque do que palco. E dentro do espectro democrático da linguagem teatral não possui mínimo problema. 

Uma ode ao honesto e relevante comício artístico.

Parabéns a todos os envolvidos.

Todos falam em primeira pessoa. 

Acreditam e precisavam construir a festejada trilogia.     

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