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Curitiba

Há textos que escrevemos para que não sejam esquecidos

Porque preservar a memória também é uma das responsabilidades do jornalismo cultural. E porque algumas histórias merecem continuar sendo contadas, mesmo depois que a música termina, as cadeiras ficam vazias e as luzes se apagam

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Por Vanessa Ricardo

Há textos que a gente escreve para informar. Outros, para registrar. Este eu escrevo porque tenho medo do esquecimento.

O jornalismo cultural tem, entre suas funções sociais, muito mais do que traduzir e democratizar o acesso à informação. Cabe a ele estimular o pensamento crítico, registrar transformações, preservar memórias e documentar acontecimentos que ajudam a compreender a história de uma cidade e de sua produção artística.

É sob essa perspectiva que escrevo este texto. Não apenas para anunciar o fim de um projeto, mas para registrar a importância de uma iniciativa que marcou a música autoral curitibana durante quase duas décadas.

Enquanto pensava neste preâmbulo, uma pergunta ecoava na minha cabeça: por que este texto precisa existir?

Para muitos, o Bardo Tatára pode ser apenas mais um entre tantos bares que fecharam as portas. Afinal, estabelecimentos encerram suas atividades todos os dias. Mas talvez, daqui a alguns anos, alguém encontre este texto e compreenda por que tanta gente lamentou o fechamento daquele lugar. Talvez descubra que ali existia muito mais do que um bar.

Durante 17 anos, a Segunda Autoral transformou as noites do Bardo Tatára em um espaço de encontro entre compositores, músicos e público. O projeto nasceu de uma conversa entre o multiartista João Gilberto Tatára e o músico Cabelo, que contou sobre reuniões de compositores realizadas em São Paulo. Daquela ideia nasceu, em Curitiba, um dos mais importantes espaços dedicados à música autoral da cidade.

A Segunda Autoral deixou de ser apenas um palco aberto. Tornou-se território de descobertas, de experimentação, de parcerias e de afeto. Quantas canções foram apresentadas ali pela primeira vez? Quantas bandas nasceram de um encontro despretensioso entre uma música e outra? Quantos artistas encontraram, naquele pequeno palco, a coragem para mostrar suas composições?

Talvez essas perguntas nunca possam ser respondidas. Mas isso não diminui a importância do que aconteceu ali. Pelo contrário. Algumas histórias são grandes justamente porque não cabem em números.

Confesso que escrever este texto tem sido mais difícil do que imaginei.

Muito antes de existir o Jornal A Cena, o Bardo Tatára já fazia parte da minha formação como jornalista cultural. Foi naquele espaço que muitas das minhas primeiras pautas começaram a tomar forma. Foi ali que conheci artistas que mais tarde entrevistaria, acompanhei espetáculos, ouvi projetos nascerem e compreendi que o jornalismo cultural não acontece apenas nas redações. Ele também acontece nos encontros, nas conversas depois do show, nos bastidores, nos lugares onde a arte encontra quem está disposto a escutá-la.

Talvez seja por isso que eu tenha demorado tanto para escrever sobre o encerramento desse ciclo. Porque não é apenas o fechamento de um bar. É o fim de um espaço que ajudou a construir trajetórias, a minha, a de tantos artistas e a de uma parte importante da cena cultural curitibana.

Nos últimos dias, uma pergunta tem circulado entre músicos, compositores e frequentadores: Curitiba voltará a ter um espaço com a importância que o Bardo Tatára teve para a música autoral?

Não sei.

O que sei é que o silêncio também apaga a memória.

E é justamente para que isso não aconteça que este texto existe.

Porque preservar a memória também é uma das responsabilidades do jornalismo cultural. E porque algumas histórias merecem continuar sendo contadas, mesmo depois que a música termina, as cadeiras ficam vazias e as luzes se apagam.

Deixo aqui o link do disco Água do Futuro, lançado em parceria com grande Cabelo.

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