Enedina Alves Marques – Mulher de Garra

Dia Nacional da Consciência Negra

Por Vanessa Ricetti Ricardo

Andando pelas ruas de Curitiba ou de qualquer cidade do Brasil, é com muita facilidade de encontrar nomes de homens que fizeram parte da história.  Dificilmente se encontra ruas como nomes de mulheres. Comprovando de fato que vivemos em uma sociedade patriarcal que escondeu por muito tempo, mulheres fortes que fizeram parte da história e que merecem de alguma forma serem lembradas por seus feitos.

Enedina Alves Marques, virou nome de Rua em Curitiba, mas depois de muito tempo e de muita briga daqueles que a conheceram. A Rua fica no bairro Cajuru, mas você sabe quem foi Enedina?

Eu só descobri quem foi, em uma visita guiada no cemitério municipal, era a segunda vez que fazia a visita. Foi no mês de março, em comemoração ao Dia Internacional da Mulher. O passeio era uma maneira de falar sobre mulheres que de alguma forma ajudaram a construir a história do Paraná. E são muitas, poetisa, fotografa, feminista, santa, cantora, escritora, engenheira. Histórias de mulheres batalhadoras que enfrentaram preconceito, mas com muita luta venceram.

Uma historia contada por Clarissa Grassi, me chamou atenção, Enedina Alves Marques a primeira engenheira negra do Brasil. Negra de família pobre, venceu e lutou até o fim para realizar seu sonho. Depois da visita, nunca mais tirei Enedina da cabeça, virou pra mim um exemplo a ser seguido de persistência e luta. A partir daquele momento comecei a pesquisar sobre ela,conheci o historiador Sandro Luis Fernandes, foi através dele que cheguei a conhecer uma de suas sobrinhas, já com 80 anos, que também como Enedina nunca se casou. Me contou que não teve muito contato com a tia, mas que falavam que ela era uma pessoa de opinião forte e muito dedicada aos seus sonhos.

Enedina Alves Marques, nasceu em Curitiba em 13 de janeiro de 1913, filha de Paulo Marques e Virgília Alves  Marques. Sua mãe era doméstica da família do delegado major Domingos Nascimento Sobrinho. Sempre foi tratada como parte da família. Enedina tinha a mesma idade da filha de Domingos, e para que pudesse fazer companhia à filha do delegado, Enedina foi matriculada na mesma escola. Foi alfabetizada na Escola Particular Luiza Dorfmund, entre os anos 1925 a 1926. De 1927 a 1931 estudou na escola normal. Entre os anos 1932 a 1935, Enedina começou a lecionar no interior do Paraná, nas cidades de Rio Negro, Campo Largo, Cerro Azul e São Mateus do Sul.

“Ainda na década de 30 ela começou a estudar no Novo Ateneu pra fazer madureza, que era um curso intermediário, que era exigido para quem quisesse fazer o magistério. Depois estudou no Ginásio Paranaense, onde é hoje é a sede da Secretária de Cultura do Estado do Paraná. Entre os anos 30 até 1945 ela estudou muito”, disse o pesquisador e historiador Sandro Luis Fernandes.

Em 1935 Enedina começou a dar aula para crianças carentes em uma pequena escola em frente ao Colégio Nossa Senhora Menina, no bairro Juvevê. Depois disso assumiu turmas na Escola de Linha de Tiro, do governo do estado.

“Uma trajetória como essa hoje em dia já é muito difícil, estudar e trabalhar imagina para ela naquela época que era mulher e negra. Ela fez toda essa trajetória. E enfrentou muitos problemas, na faculdade era perseguida por alguns professores e alunos. Ela sofreu muito durante a faculdade”, comentou o historiador.

Enquanto Enedina fazia a faculdade que naquela época era paga, trabalhava como professora e segundo pesquisa do historiador Jorge Luis, durante o curso de engenharia ela também trabalhava na casa da família Caron, segundo ele, ela utilizou essa mecanismo de trabalhar e morar na casa dos novos patrões, para superar a longa distância entre a casa da família Nascimento e seu novo espaço de formação educacional. Enedina apesar de trabalhar na casa dos Caron, tinha uma relação de muita amizade com a família, tanto que Enedina foi convidada a ser madrinha da filha da irmã do Joto Caron. Ela era muito carinhosa com a família e dava muitos presentes a afilhada.

Ainda segundo pesquisa do historiador, Enedina em 1939 enviou requerimento escrito a próprio punho enviado ao diretor da FEP (Faculdade de Engenharia do Paraná), solicitando inscrição para os exames de habilitação para ingressar no curso de engenharia civil em 1940. O ingresso dos acadêmicos no curso acontecia com procedimentos iguais, todos tinham que ser aprovados nos exames, demonstrar documentação exigida e fazer o pagamento total de 425$000, – R$2.129,05.

Mesmo a faculdade sendo paga, havia uma contrapartida para o proletariado e seus filhos, garantido gratuidade no ensino superior. Mas os que conseguiam o programa, eram pessoas influentes da sociedade. Mesmo Enedina fazendo o requerimento de gratuidade, nunca conseguiu e pagou por todo o curso.

Na pesquisa de Sandro Luis Fernandes, em entrevista a amiga de Enedina, Elfrida, afirmou que Enedina foi reprovada algumas vezes, e sempre que acontecia ela falava “Eu não desisto, eu vou até o fim, um dia eles enjoam da minha cara e me aprovam. Nos anos que ela estudou na FEP, foi perseguida por professores que a reprovavam insistentemente. Adelino, amigo da engenheira que também se formou no mesmo curso, afirmou em entrevista a Sandro, que em uma prova oral o professor disse a ela que não tinha passado mais uma vez, não satisfeita, ela foi buscar o livro e falou: eu disse o que o senhor escreveu em seu livro, é o mesmo do seu livro que eu vejo aqui. Adelino que era filho de pedreiro e mãe professora, também estudou com Enedina e passou pela mesma situação com o mesmo professor.

“Segundo as pessoas que conviveram com ela, diziam que era uma mulher de opinião forte. Ildefonso Puppi que também estudou com a Enedina, contou em seu livro “Fatos e Reminiscências da Faculdade”,  que os professores cobravam mais dela do que dos outros alunos. Não podia ter nenhum tipo de erro. Ela chegava passar a madrugada inteira copiando livros de engenharia. Ela se forma, deixa de ser professora e vai trabalhar na secretária de obras públicas, constrói uma carreira como engenheira, participa de algumas obras do estado. Não temos documentação sobre as obras que ela participou. Também ajudou no projeto da Usina Parigot de Souza. Dizem que ela tem projetos de prédios em Curitiba, mas infelizmente não achamos. Chegou a ser sócia de uma construtora, a Vaticano, mas logo saiu da sociedade. No governo do estado ela tinha uma boa relação com alguns políticos, foi promovida com um salário muito bom. E trabalhava na Secretária de Educação do Paraná e lá se aposentou.

“O interessante na trajetória dela, mas do que a profissional é como ativista do grupo de mulheres em Curitiba. Ela participava do Centro Paranaense Feminino de Cultura e da Sociedade Soroptimista, estava sempre presente nas reuniões, têm um busto em homenagem às pioneiras do Paraná”.

“As pessoas que conviveram com ela diziam que era uma mulher de personalidade forte, tomava cerveja junto com os homens e conversavam de igual para igual, era rubro negra, mesmo morando com uma família que foi uma das fundadoras do Coritiba”.

“A atuação da Enedina com a questão feminina é de destaque. Começou sua trajetória como professora, depois como engenheira e depois como militante de grupos femininos. Numa época que a palavra feminista nem era usada. Uma coisa que é bom deixar claro, que ela não tinha nenhuma atuação pensando na mulher negra, até porque, naquela época não tinha essa consciência racial que existe hoje, mas trabalhava para uma participação ativa da mulher na sociedade. E ela lutou e encarou de frente todos os desafios, não tinha discurso, mais sim uma pratica de atuação social muito forte”, finalizou Sandro Luis Fernandes.

 

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