Interaja conosco

Crítica Teatral

Confuzo

O grande mérito das pesquisas da “Dos à Deux” é a recusa de não se fazer entender atrelada a uma linguagem muito rebuscada. E todo repertório ao longo dos anos cumpre o objetivo.

Publicado

em

Foto: Renato Mangolin

Por Leonardo Talarico

Confuzo  Está escurecendo dentro de mim é a nova obra da CIA DOS À DEUX. O espetáculo retrata o pertencimento (e as suas formas de degredo) e a dificuldade de aceitar o alter. Mas o outro como outro e não como simples reflexo das nossas aproximações.

O enraizamento extraído e a ilegitimidade de ser humano, por recusa social dos mantenedores do status-quo, são apresentados de uma forma direta e bifurcadas na contação das histórias e na ampliação simbólica-poética.  

Várias camadas dramatúrgicas restam utilizadas por André Curti e Artur Luana Ribeiro. E, por inédito, surge a palavra vocalizada como elemento inédito.

A companhia é reconhecida por suas diversas pesquisas e apresentações físicas.

CONFUZO inaugura o verbo.

Todas as nobres percepções humanas, com destaque à poética, estão presentes na passagem cênica. E o fazem com louvor. 

Como se deflui do release, o Homem-Árvore deseja enraizar-se, mas é recusado pelo mundo à sua volta. Simboliza a impossibilidade de pertencer. 

O Homem-Luz pedala a engrenagem geradora da própria luz da peça (luz e sombra). O enraizamento e o movimento atravessam poeticamente amparados por saberes verticais. 

O primeiro grande mérito está na unidade de linguagem, haja vista dramaturgia, cenografia, direção e performance serem assinadas pelos dois artistas mencionados. Trabalho impecável. Permanece o esforço da companhia em trazer à baila elementos de rara profundidade sem descurar do esclarecimento.

O grande mérito das pesquisas da “Dos à Deux” é a recusa de não se fazer entender atrelada a uma linguagem muito rebuscada. E todo repertório ao longo dos anos cumpre o objetivo.  

No tocante ao cenário (e adereços) é inventivo, estético esimbólico. Não apenas delimita o espaço da história como alarga simbolicamente em brilhante transferência da composição física à psicológica. Também entendo essencialista, pois nada posto está ao acaso. Não é estático e suas manobras provocam imagens e pensamentos de extrema sabedoria. É montagem de filigrana. 

O figurino de Bruno Perlatto é funcional, estético e comexcelente corte teatral. Confunde-se perfeitamente com o cenário e isso é um valor inestimável à montagem teatral. A música original de Federico Puppi perpassasilêncios e pulsações. A criação sonora está coadunada e auxilia na travessia cênica. 

A iluminação de Artur Luanda Ribeiro, realizada a partir das pedaladas em cena e manobrada pelos artistas no tablado, articula entre o enxergar e o cegar. Sua angulação, deslocamentos, intensidade, gelatinas e criações visuais entregam interessante caráter dramático e deslocamento de foco necessário. 

A direção de movimento e performance são, como sói acontecer, brilhantes. Esses dois artistas caminham para os seus destinos e performam como poucos. Tudo pensado exaustivamente até o ponto da excelência. Fui à estreiasem mínima informação sobre a obra (assim o faço em todos os espetáculos que elaboro crítica). Quando ouvi aprimeira palavra emitida não acreditei na ousadia. 

Não se trata apenas de colocar mais um elemento na contação da história. Significa a necessidade do desafio constante ausente mínima acomodação. Eles não precisavam enfrentar esse risco. Mas assim não o fosse, não seriam eles. 

O texto falado é bem apresentado, com boa dinâmica, atenção nos verbos, respeito às pausas, gestalt e horizontalidade. Mas, por óbvio, ainda é um processo a ser desenvolvido para chegar à excelência do discurso físico (e não poderia ser diferente). Não é desvalor, é uma obviedade.  O texto é um primor de contenção. São tocadas apenas as notas certas. Muito bem escrito e compreendido sem a necessidade de se apresentar falsa intelectualidade. Está unificado ao todo. É um escrito semiótico. 

Uma história para compreender e abrir um campo de interferências pessoais na vida de cada um presente na plateia. 

Confuzo é uma obra necessária. 

Fernanda Montenegro, na sua histórica entrevista, diz ser o Teatro algo muito sério que não serve para “extravagâncias louquinhas pessoais”. Confuzo coloca o Teatro no seu trilho original. Fernanda não desejou limitar o fazer teatral, mas rememorar os pilares que o fizeram chegar até aqui. 

Você pode no seu Teatro arrancar paredes, mas cuidado ao arrancar estruturas. Excelente pesquisa e aplicação cênica. Uma grande obra.

 

Seja nosso parceiro2

Megaidea