Crítica Teatral
Prolongar o gracejo do junto
É um espetáculo que valeria várias e várias menções, análises e reflexões. Contudo, me parece ainda mais válido não tentar perpetuá-lo num texto crítico, e sim assinalar com todas as forças: vão e vejam!
Foto: Andrea Nestrea
Por gabriel m. barros
Talvez os que gostem de arte, e em algum sentido acabem lendo críticas também, já se depararam com a ideia, clichê e batida, de que a obra de arte, seja lá qual seja a sua manifestação, exista para perdurar, mesmo que o seu autor deixe esta existência. Ou seja, em alguma perspectiva, a obra de arte é aquela que eterniza aquele que a produz.
O caso do teatro tem a peculiaridade de ser a arte do instante, contudo, a crítica é forma de eternizá-la, as fotografias e filmagens também. De qualquer forma, ainda assim, se tenta eternizar algo, que, tem seu efeito no coletivo, ou seja, assistir a uma peça teatral filmada, pode ser uma experiência ótima, mas não chega sequer a metade do efeito de vê-la no próprio espaço cênico, com um grupo de pessoas, naquele encontro fortuito, em que mundo se põe inteiro naquele espaço e ali pequenas transformações acontecem com todos, mas extraordinariamente a níveis distintos.
Se arte é alguma coisa voltada a disputar contra a morte, ou a tentativa de ignorá-la, por várias vezes o teatro permite a reflexão sobre a morte, seus efeitos, sua presença latente em todos nós. Aliás, há uma tradição brasileira de lidar com a morte de frente, também com seus efeitos. Essa tradição é a das carpideiras e que é retratada na peça musical As centenárias, que tem uma equipe enorme: com texto e letras de Newton Moreno;letras e músicas de Chico César; direção musical e arranjos de Elísio Freitas; encenação de Luiz Carlos Vasconcelos; música feita por Aline Gonçalves, Diogo Sili, Frederico Santiago e Leandro Castilho, que é também ator convidado; e com as atuações de Laila Garin e Juliana Linhares.
Em resumo, são duas carpideiras contratadas para um serviço, contudo o moribundo ainda não havia morridopara que elas realizassem suas rezas e cantos. É nesse aguardar, e no pressentir que a morte se avizinhava, que a peça se desenrola. Relembrando como as duas se conheceram e passaram a trabalhar juntas até aquele momento.
Há toda uma beleza, gracejo, encanto no próprio texto e na maneira acertada de como a direção e as atuações apresentaram isso ao público. A morte ali está em todo o momento rondando, até que se materializa em personagem, intervém diretamente, dialoga, escuta, dá permissão, mas também se mostra como uma trabalhadora. Essa, distinta da morte de Saramago, não para e não interrompe o trabalho, mas inclusive pensa em maneiras de executá-lo com maior eficiência, pois está sendo cobrada de não ter ceifado uma vida.
Se a lógica das carpideiras da peça é se apresentarem depois da morte, de modo que essa não as encontrasse, pois já havia feito seu serviço e saído dali, quando o convalescente não falece, significa que a morte ainda não tinha chegado, estabelecendo o perigo de que as encontrasse e as pegasse. Era preciso enganar a morte.
Umberto Eco, ignorando a ideia de que a arte serve para perpetuar seu autor, e muito mais preocupado com o leitor e os aprendizados que um texto poderia dar para esse ser, escreveu que a literatura era uma forma de aprender a morrer. Com As centenárias, se aprende a permanecer, não num prolongamento da vida, mas da boniteza de se estar junto, de se encontrar parcerias que inclusive lutem contra a morte para poder prolongar essa estar.
É um espetáculo que valeria várias e várias menções, análises e reflexões. Contudo, me parece ainda mais válido não tentar perpetuá-lo num texto crítico, e sim assinalar com todas as forças: vão e vejam! Por enquanto o espetáculo terminou a sua temporada em São Paulo, depois de ter passado pelo Rio de Janeiro. A torcida é que volte o mais logo possível a rodar o Brasil, pra criar essa beleza perene que é o teatro, que é também uma forma de prolongar o gracejo do junto.

