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Teatro

Imprecisões

A dramaturgia é ótima, mas a cereja do bolo, acho eu, é a mão das próprias atrizes nesse fazer. Tem vestígios delas pela peça toda. As Moiras, como Melamed as denomina, não só preveem o futuro, o tecem também.

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Foto: Bruna Sussekind

Por gabriel m. barros

​Vi duas vezes, com intervalo de um dia entre elas, a peça O funcionário que pede para não ser identificado, do Michel Melamed. Uma foi na sua estreia, uma quinta-feira, outra no sábado. Nem houve tempo de assentar as ideias e logo nova rajada. Agora se passaram alguns dias e, bom, nada assentado, tudo meio poeira movente, levantada do chão, passeando pelos sentidos. E há muito o que se sentir nesse espetáculo. 

​Duas imagens me vem a cabeça quando lembro do que vi: a primeira é de quando arrumamos um guarda-roupa ou nossa estante de livros: é como se recuperássemos nossa história, quando tal obra foi lida, que momento estávamos e no quanto aquilo marcou quem somos. No meio dessa arrumação tem o livro que alguém nos deu, ou blusa, que demonstram cabalmente como aquele ser não nos conhecia, ou melhor, o quanto aquela pessoinha tentou alargar o nosso mundo, entregando pra nós parte do mundo dela, ou daquilo que ela viu e pensou que era a nossa cara, ou ainda, o que acaba com toda a magia da coisa, alguém que pediu recomendação de algum atendente. 

​A segunda imagem é aquela dos coquetéis pós-peças ou no falatório no hall de entrada antes do espetáculo, em que um punhado de pessoas afeitas a arte se encontram e, bom, ficam apresentando suas ideias. Algumas disparatadas. Outras geniais. A nós, feliz ou infelizmente, só chegam fiapos, e desse vestígio a gente já tacha o outro de chato, interessante, inquieto, pedante, etc. etc. 

​Dessas duas imagens, o que me parece é que a peça apresenta muita coisa, é uma efervescência, no melhor sentido do ferver. Nem tudo se assimila, se capta, se entende, e que bom. Ao mesmo tempo, algo fica maturando e cozinhando aqui dentro. Desse processo gastronômico do sentir, creio que cheguei a várias imprecisões e as quero apresentar aqui. Talvez sejam sucintas, e o leitor goste mais, ou extensas e que levam a lugar nenhum. No fim, as imprecisões me dão maior liberdade e tiram a crítica seu bolor de ser “crítica”. Eu acho. 

Imprecisão 1: A peça é circular. Começa e termina com “chega, ninguém aguenta mais”. Resta ao público se chegou de andar no terreno árido da ausência de ideias, depois que uma centelha dela foi apresentada, ou no solo fértil de coisas pipocando por todo o lado, devido ao calor no milharal. Parêntese: sempre que se cita ideia circular me vem a cabeça Vidas secas, daí a alusão ao solo árido.

Imprecisão 2: A dramaturgia é ótima, mas a cereja do bolo, acho eu, é a mão das próprias atrizes nesse fazer. Tem vestígios delas pela peça toda. As Moiras, como Melamed as denomina, não só preveem o futuro, o tecem também. 

Imprecisão 3: São Paulo é careta pra mais de metro, acinzentado pós-Dória, e que tem uma fama de querer falar sério demais em tudo. Soma isso a um teatro italiano, e poxa, perdemos talvez o maior BUM que a peça é capaz de fazer. Daria muito pra estar num teatro arena vendo Inez Viana do meu lado falando que até se emociona ao falar da peça que fez pra sua mãe atuar. 

Imprecisão 4: As atrizes! Parem tudo que eu quero ficar nessas atuações maravilhosas, arrebatadoras e escalafobéticas. É uma cantoria linda, é visceral quando precisa, é uma chuva de adjetivos nas cenas, que só de imaginar o processo pra decorar isso, até assusta. E tem um trabalho de corpo, que sobressai apesar das roupas condicionarem enormemente isso. 

Imprecisão 5: Se se precisa dar cachê para o público, já que a maioria é composta de atores, daí a necessidade de uma Lei da Rua né?, os outros 40% é de críticos e familiares, e esses certamente se viram representados ali também. Seria o crítico esse sujeito que está no Setor de Registro e Setor de Obras Artísticas, apontando o dedo e dizendo Sim! Sim! Sim! para a obra, ou aquele que queria fazer sua grande obra e enfim, acaba espezinhando o fazer alheio? Pode a crítica também ser criativa? (Essa segunda pergunta já é mais velha e venho me fazendo ela a algumas críticas aqui). 

Imprecisão 6: No coquetel de estreia pude apertar a mão do Melamed e elogiar o trabalho. Acho eu que queria lhe dar um abraço. Acho ainda que queria abraçar as atrizes. Acho, por fim, que escrevo como forma de abraço a longa distância.

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