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Crítica Teatral

“Baixa Sociedade” volta aos palcos com Luiz Fernando Guimarães no auge da comicidade

Em tempos de pseudointelectualismo teatral, Baixa Sociedade chega como um sopro de ar fresco. Luiz Fernando Guimarães, celebrando meio século de carreira, transforma Otávio num personagem memorável que dialoga diretamente com o Rui de Os Normais. O resultado é uma comédia de erros eficiente, leve e com a dose certa de crítica social, exatamente como Juca de Oliveira sempre quis

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Baixa Sociedade é uma comédia teatral escrita por Juca de Oliveira em 1979. O clássico aborda uma personagem chamada Otávio, um homem que pratica pequenos atos ilícitos para ascender socialmente. Situações inusitadas (que envolvem, inclusive, a própria família) demonstram a falta de limite na empreitada golpista e funciona como evidência à pretensão ”alpinista”.

A nova montagem (3 a 26 de julho-2026) no Teatro Clara Nunes, celebra os cinquenta anos da carreira do ator Luiz Fernando Guimarães.

A dramaturgia de Juca de Oliveira possui a crítica – por meio do direto entretenimento – como intenção direta.

Um pai desempregado busca convencer seu filho a largar sua atual namorada (quase noiva) para se casar com a ex-namorada milionária. A empreitada provoca situações cômicas extravagantes.

O aberrante e a comédia de erros conduzem a passagem cênica. Juca (autor consagrado) expõe o desejo universal de ascensão social e os percalços tragicômicos da trajetória. A obra recebeu pertinentes “cacos” atuais da política brasileira e desliza bem nos diálogos propostos pela direção de Pedro Neschling.

A direção e a obra são “despretensiosas” e deixam clara a intenção da diversão qualificada. Tudo está posto – pleno sentido – em razão do ator Luiz Fernando Guimarães.

O elenco (Isabella Santoni – agora substituída por Debora Ozório – Paulo Mathias Jr. e Bruna Andrade) orbita para o brilho do homenageado de forma coesa. Todos realizam o mesmo espetáculo.

Algumas (poucas) passagens mais estridentes nas interpretações não comprometem, pois estão alinhadas à falta de rigidez da montagem.

O destaque está com Luiz Fernando. O ator oferece à plateia todos os seus recursos cômicos por meio de uma articulação precisa entre a fala épica (para dentro) e lírica (expositiva), um excelente tempo cômico no domínio da pausa e trejeitos faciais precisos. O grande acerto do protagonista é deixar por vários momentos o texto brilhar. Não carrega nas tintas.

Luiz Fernando precisa de muito pouco para transmitir suas ideias ao público. Orgânico e horizontal na contação da história, esclarece com maestria tudo quanto pretendido pela obra.

As construções das personagens ficaram nas linhas básicas. Não há camadas e filigranas. Outro acerto diante da ideia de montagem.

À guisa de exemplo, há semelhanças na interpretação entre Otávio e Rui (programa da Rede Globo “Os Normais”).

E isso não é um equívoco. É uma alegria.

O público embarca imediatamente na nostalgia e no privilégio de assistir tal empreitada ao vivo.

É prova de humildade da direção, pois a construção inédita e exaustiva das personagens rasgaria a despretensão e retiraria do público a memória emotiva de tanto tempo de convivência com o extraordinário Rui (muito adequado em atmosfera com o protagonista de Juca).

A direção de movimento não é inventiva e coloca as personagens em ponto de fala, sem caminhar para o destino. Os trajetos de cada ator e atriz seguem uma pontuação menos rígida. Todos estão mais soltos, com diretrizes de movimentação básica.

O cenário e adereços buscam certo realismo e funcionalidade. Os figurinos desejam contribuir com os matizes sociais do elenco e também caminham na superfície.

O desenho de luz abre o salão (luz geral) por quase todo o tempo. Mesmo porque o texto não oferece pontos para recortes dramáticos.

A trilha sonora prepara o público para o estado de espírito da obra.

Importante compreender que o Teatro, a despeito de muitos intelectuais, possui múltipla linguagem, e cada qual enverga mérito e função social.

O privilégio de assistir ao trabalho artístico de Luiz Fernando Guimarães e o entretenimento com crítica indireta à sociedade são capazes de dissuadir semanas “dolorosas” do público.

O evento é um êxito.

O Teatro de psicologia pessoal e pseudointelectual não pode desconsiderar os momentos de distensão cômica com resvalo crítico muito bem oferecidos pelos profissionais de Baixa Sociedade.

Divirtam-se!

Por oportuno, agradeço o reconhecimento do Teatro Clara Nunes pelo convite e ressalto a sua importância no cenário teatral brasileiro.

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