Cultura
Uma ilha, cinco fins de semana e muito jazz
Festival de Encantadas transforma agosto em temporada cultural na Ilha do Mel e movimenta turismo, gastronomia e economia local
Por Vanessa Ricardo
Nos últimos anos, o litoral paranaense vem encontrando na música uma estratégia para movimentar suas cidades também fora da alta temporada. Festivais realizados em meses tradicionalmente menos movimentados começam a criar novos motivos para visitar a região e, ao mesmo tempo, movimentam uma cadeia que envolve turismo, gastronomia, hospedagem e economia local. Em Antonina, o blues já faz parte desse calendário. Morretes também encontrou no jazz uma forma de atrair visitantes. Na Ilha do Mel, o Festival de Jazz aposta na mesma fórmula e transforma agosto em um período de encontros, música e circulação de turistas.
Foi para acompanhar de perto essa experiência que estive em Encantadas no primeiro fim de semana do festival deste ano. A proposta é interessante justamente porque parte de uma questão bastante concreta: como movimentar a Ilha do Mel em um mês que, historicamente, apresenta um fluxo menor de visitantes?
O Encantada Jazz Festival, nasceu dentro dessa perspectiva. A ideia dos organizadores era criar uma programação capaz de levar público à ilha durante agosto, ocupando um período que, sem um evento específico, costumava ter pouco movimento. Ao longo dos anos, a iniciativa foi se consolidando e hoje já faz parte do calendário cultural da Ilha do Mel.
Em 2026, o Festival Jazz A Gosto, que acontece em Nova Brasília, chega à sua 12ª edição, enquanto a programação de Encantadas integra essa trajetória construída ao longo dos últimos quatro anos. A edição deste ano se estende por cinco fins de semana de agosto, com apresentações gratuitas e uma curadoria que reúne músicos paranaenses, artistas de diferentes regiões do Brasil e atrações internacionais.
No final de semana em que fui, tive a oportunidade de ver o músico Guinga, um dos grandes nomes da música brasileira. Também passaram pelo palco Waltel Branco, Roberto Menescal, um dos criadores da Bossa Nova, que está prestes a completar 99 anos, e Gilson Peranzzetta. Mas, para quem ainda não teve a oportunidade de conhecer o festival, dá tempo: a programação segue até o último final de semana de agosto.
E é justamente aí que a proposta ganha força. O festival não cobra ingresso e ocupa a própria ilha como espaço de encontro entre música, moradores e turistas. Neste ano, a programação reúne artistas de países como Cuba, Paraguai, Argentina e Moçambique, além de nomes de diferentes partes do Brasil e do Paraná.
Durante o primeiro fim de semana, foi possível perceber que o impacto do festival vai muito além dos shows. A movimentação chega às pousadas, restaurantes, bares e demais serviços de Encantadas. O público que atravessa para assistir às apresentações também precisa dormir, comer, circular e consumir na ilha.
Outra coisa que considero interessante é que, assim como acontece no Festival de Blues de Antonina, o comércio local também passa a fazer parte da programação. Paralelamente aos shows oficiais, bares, restaurantes, pousadas e até o mercado da comunidade criam suas próprias ações, ampliando a presença da música pela ilha.
Em Encantadas, por exemplo, o mercado à beira-mar se transforma em ponto de encontro no fim da tarde, com um sunset que reúne DJ e saxofone. Ao som da música, o público acompanha o pôr do sol e vive uma experiência que mistura natureza, cultura e gastronomia.
A música, nesse caso, funciona como porta de entrada para uma experiência turística mais ampla.
Nos períodos de maior movimento, a Ilha do Mel já é naturalmente procurada por turistas. O desafio está justamente em criar motivos para que as pessoas também escolham o destino quando o calendário não oferece, por si só, essa mesma força de atração. E o Festival de Encantadas parece ter encontrado uma resposta possível: criar uma programação cultural capaz de transformar a baixa temporada em uma nova oportunidade.
O resultado pode ser percebido na própria dinâmica de Encantadas. Conforme os fins de semana avançam, a ilha ganha outro ritmo. Pousadas registram maior procura, restaurantes e bares ficam movimentados e o público ocupa os espaços para acompanhar uma programação que, além de gratuita, tem uma curadoria artística bastante cuidadosa.
É um exemplo de como a cultura pode atuar também como instrumento de desenvolvimento turístico. Quando um festival consegue levar pessoas a um destino fora da temporada, essas pessoas não consomem apenas cultura. Elas movimentam toda uma rede de serviços que depende da presença do visitante.
Mas existe ainda uma outra dimensão nessa experiência. Ao escolher o jazz como linguagem, o Festival de Encantadas também constrói uma identidade para esse período do ano. Agosto passa a ser associado à música, ao encontro e à possibilidade de conhecer a Ilha do Mel por outro ângulo.
Depois de acompanhar pela primeira vez o Festival de Encantadas, saí com a impressão de que essa talvez seja uma das grandes contribuições de iniciativas como essa: elas mostram que não é preciso esperar o verão para movimentar o litoral.
É possível criar outras temporadas.
Temporadas culturais, musicais, gastronômicas e artísticas. E, quando elas conseguem dialogar com as características de cada destino, podem ajudar não apenas a trazer turistas, mas também a fortalecer quem vive e trabalha nesses lugares durante o ano inteiro.
Agradecimentos: ao longo dessa cobertura do Festival de Encantadas, agradeço à Pousada Voo Livre, ao Restaurante Lote 22, ao Rancho Valentim, a Pousada Canto da Galheta pelo café da manhã, ao Cavalo Marinho e à produção do festival pelo convite e pela acolhida durante minha passagem pela ilha.

