Cultura
Curitiba e o eterno retorno do pânico moral às artes
A obra foi devolvida ao artista dias depois, dentro de uma sacola escrita “Curitiba, Sua Linda”, da prefeitura da cidade. Um escárnio para quem faz arte em uma cidade tão retrógrada.
Por Maria Eduarda Schwab
Em menos de dez dias, dois casos de censura às artes vieram à tona em Curitiba. Primeiro veio à público o cancelamento de “A Igreja da Fran”, da atriz e palhaça Rafaela Azevedo, marcado para 23 de agosto no Teatro Ópera de Arame.
A apresentação foi retirada da programação depois que parte dos ingressos já havia sido vendida.
A DC Set Eventos, concessionária responsável pelo espaço, atribui a decisão a uma “questão contratual” e nega qualquer relação com o conteúdo da peça, sem detalhar qual cláusula motivou o cancelamento. Rafaela discorda: para ela, o veto é censura.
A montagem discute como a tradição religiosa ajudou a fixar regras sobre o corpo feminino, o desejo e a família, questionando o papel das crenças na manutenção do sistema patriarcal. É teatro de palhaçaria, com exagero, humor corporal e inversão de papéis como ferramentas de expressão.
Dias depois a Prefeitura de Curitiba retirou, sem aviso prévio ao artista, à galeria ou aos curadores, a obra “non-binary slow XXX“, de Leonardo Faganello, da exposição Mapa Aberto, no Palácio 29 de Março, que faz parte das ações da Bienal de Curitiba.
O caso só veio a público em 6 de julho, quando o artista denunciou o ato nas redes sociais e a jornalista Bruna Alcântarapublicou uma matéria no Plural apurando o fato.
A arte não traz genitálias nem sexo explícito: apenas dois pares de pés entrelaçados em fundo pretoSegundo a reportagem, um funcionário informou informalmente ao curador Vini Maia que a retirada seguiu mais de 400 reclamações, mas nenhum protocolo ou justificativa formal foi apresentado, apesar de pedido expresso da curadoria.
A obra foi devolvida ao artista dias depois, dentro de uma sacola escrita “Curitiba, Sua Linda”, da prefeitura da cidade. Um escárnio para quem faz arte em uma cidade tão retrógrada.
O padrão se repete em cada episódio: mobilização pública, pressão sobre um espaço concedido ou vinculado ao poder público, e uma justificativa técnica ou contratual que evita debater o conteúdo diretamente.
Em outubro de 2025, o vereador Guilherme Kilter promoveu campanha pelo cancelamento do show do humorista Tiago Santineli no Teatro do Bom Jesus, com declarações públicas do próprio vereador associando a decisão à defesa de valores cristãos. Kilter tentou o mesmo contra um show de Anitta na cidade, sem sucesso.
Seguindo a cartilha do moralismo barato e sem fundamento, em dezembro de 2025, a Câmara aprovou uma lei restringindo cenas de nudez em espaços públicos, motivada por acusações contra a Companhia Selvática – coletivo de criação e gestão compartilhada em artes referência em investigação do cabaré como linguagem cultural – de promover “mensagens ideológicas” (sic) em apresentações abertas ao público.
Artistas locais relatam, ainda hoje, precisar cortar cenas de nudez mesmo em montagens classificadas para maiores de 18 anos.
Em Curitiba, a censura nunca confessa o que é, só troca de máscara a cada ato.

