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Crítica Teatral

Espaço de contato

A dramaturgia é instigante pela forma como ela vai crescendo e abrilhantando o próprio texto, o que inicialmente para mim pareceu ir para um lugar comum, foi ganhando caráter único e uma construção bem sólida e bonita de se assistir.

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Crédito foto: @callanga

Por gabriel m. barros

 

Em um mundo cada vez mais imediatista e ainda mais distante entre as pessoas, o teatro continua sendo essa arte milenar de congregar pessoas e coloca-las para pensar ou simplesmente se verem, que também é outra forma de refletir. Em um agora tão fortemente marcado pelo desrespeito a essa arte, por editais que se alteram com o aval de não se sabe quem, embora saibamos, e à revelia daqueles que necessariamente precisam da lei em vigor e sem ser desrespeitada para que sobrevivam, apesar disso, o teatro prossegue. Não assinalo que resisti, pois há uma revolta que tem pedido passagem e tomado os lugares. O exercício cênico para além de resistir, ele cria e vai além. Se hoje as relações estão deterioradas e a indiferença é quase o lema da vez, o teatro é o lugar de assinalar que o coletivo, o contato entre os seres se faz central, ainda perdura e constrói mundos possíveis. 

É nesse contexto estranho, frio (no sentido empregado da frieza burguesa do Andreas Gruschka), que o espetáculo A hora do boi, monólogo encenado por Vandré Silveira, com texto de Daniela Pereira de Carvalho e direção de Andrés Paes Leme, volta em cartaz, às segundas-feiras do mês de junho, no atêlie cênico, espaço delicioso que vale ser visitado. O espetáculo trata, mas não só, obviamente, desse contato entre homem e animal, do afeto que nasce, da superação da bruteza de alguém que não sabe colocar suas próprias inquietações em palavras, mas que faz da ação a resposta necessária para se criar o vínculo. 

A dramaturgia é instigante pela forma como ela vai crescendo e abrilhantando o próprio texto, o que inicialmente para mim pareceu ir para um lugar comum, foi ganhando caráter único e uma construção bem sólida e bonita de se assistir. Claro que para isso a atuação, realmente impressionante, de Vandré deu um caráter muito próprio ao texto. Com exceção da voz em off, de Claudio Gabriel, Silveira encarna todas as personagens, inclusive o boi, que aqui na narrativa tem muito mais voz do que aquele que o adotou. Com direção de movimento de Paula Aguas e Toni Rodrigues, que também assinam a assistência de direção, os movimentos de Vandré são impactantes, pois se transmuta a todo momento, se alterna, se feminiza quando necessário, torna-se boi em outro, e num terceiro momento assume a bruteza de um personagem que mais resmunga do que exprime alguma fala. 

Destaco a beleza que é quando Silveira vai até a plateia, brinca com o ofício de ator, chamando Shakespeare pra conversa, e depois se torna São Francisco de Assis, num momento de uma beleza gigante sobre o que é o teatro e o que a própria cena representa dentro da peça. Nesse aspecto, a construção teológica do texto é interessante, embora não seja o ponto central da obra, por demonstrar duas versões teológicas, que inclusive estão profundamente em voga atualmente, uma que é para além de humanizada, podemos dizer que é uma visão mundializada, que valoriza o mundo, as existências que dividem o mesmo planeta; e uma outra que é aquela de um deus, com D minúsculo, tirânico, vingativo e perverso. Com muito tato essas questões aparecem diluídas, sem pesar a mão sobre isso. 

O próprio boi que escuta a futura herdeira da fazenda lendo em voz alta Baudelaire, Guimarães Rosa, e outros escritores pela noite, e não só fica atento a isso, como decora e as recita ao longo da peça, apesar de acionar essefantástico, se torna verossímil pela forma delicada como a peça se apresenta. 

Assim, A hora do boi, que dentro da narrativa é essa hora em que o animal vai ser sacrificado, se torna o momento de fuga e de abertura para outras aragens, pelo menos a nossa, enquanto público e viventes num mundo que precisa cada vez mais desse olhar para as outras espécies que estão ao nosso redor.  

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