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Crítica Teatral

Muito prazer

Colocar a relevância da Zezé para a história das artes brasileiras é crucial para demonstrar o quanto ela foi e segue sendo inventiva, atualizada e ativa. Num trabalho belíssimo de preservação histórica, com seu feito pelo Retiro dos artistas, e do Centro Brasileiro de Informação e Documentação do Artista Negro (CIDAN), a atriz e cantora também auxilia a projetar o futuro

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Foto: Mariana Stolf Friggi

Por gabriel m. barros

Está na sua última semana o musical Prazer, Zezé!,que ocorre no Sesc 14 bis. Idealizado e com dramaturgia de Toni Brandão, contando com a direção artística de Débora Dubois. Esse é dos eventos que precisam constar na agenda, primeiro pela valorização de uma das nossas grandes da cena artística (já que Zezé é múltipla); segundo por nos situar sobre a história do nosso próprio país e como ele lida com os seus; em terceiro pela própria qualidade do espetáculo em si. 

​Seguramente contar a história de qualquer sujeito é de um desafio imenso, escolher quais fatos, marcos, atrelar isso ao próprio histórico do país e do mundo, como encenar isso, e ainda dar conta disso tudo em pouco mais de 2h, realmente não é uma equação das mais simples. Aliás, o desafio dobra quando se escolhe homenagear essa pessoa ainda em vida, já que essa trajetória ainda segue pulsando, inventando e produzindo muita coisa incrível. Apesar desses desafios vários, a equipe deu conta com maestria. 

​O mote do espetáculo é um prêmio de cinema que Zezé recebeu. Pensei que esse seria o fio condutor: ela relembrando a própria trajetória no dia que ganha esse prêmio, que até permitiria contar uma história não linear, contudo, serviu de mote para apresenta-la, depois recuam para contar a história ao longo da trajetória, sem voltar a esse prêmio. 

Me pareceu muito interessante a escolha do repertório e o momento que encaixaram as canções ao longo do espetáculo. Sem dúvida foi uma escolha acertadíssima, os arranjos muito bem desenhados, com propostas muito boa para a estrutura do que estavam contando. 

E claro, contando com um elenco afinadíssimo e aqui não só para as canções, mas na própria interação entre eles e também no jogo com o público. Enquanto Larissa Noel, que dá vida brilhantemente para a Zezé, segura o ritmo o musical inteiro, os outros atores se desdobravam em vários, passando pela cena Zé Celso, Marieta Severo, Marília Pêra, Antônio Pitanga, Lélia Gonzalez e vários outros. O trabalho dos artistas está magistral e numa coesão bonita de se assistir, seria muito injusto destacar uma atuação em detrimento das outras, pois todos estão muito entregues ao que estão fazendo.

​Colocar a relevância da Zezé para a história das artes brasileiras é crucial para demonstrar o quanto ela foi e segue sendo inventiva, atualizada e ativa. Num trabalho belíssimo de preservação histórica, com seu feito pelo Retiro dos artistas, e do Centro Brasileiro de Informação e Documentação do Artista Negro (CIDAN), a atriz e cantora também auxilia a projetar o futuro.

Para além disso, o musical apresenta dois outros acertos imensos, e os dois dizem respeito ao nosso presente, de alguma forma: o primeiro de colocar na nossa frente o aspecto andrógino de Zezé quando jovem e como isso fez ela ganhar alguns papéis, justamente por isso. O outro foi de envolver o público e passear por ele procurando os negros que se inseriram nas mais distintas áreas de atuação na sociedade civil, demonstrando que os negros estão ocupando os espaços sociais, embora o processo ainda seja moroso, inclusive de ocuparem o teatro enquanto público, por exemplo. Enfim, o que os dois momentos colocam para nós é a possibilidade de refletirmos sobre a inserção do outro, do que nos é estranho ao mesmo tempo que familiar. Do quanto o nosso país ainda precisa, de alguma forma, ser esse espaçoefetivo de participação múltipla. Nesse sentido, Zezé segue sendo um legado vivo das possibilidades de uma artista negra em movimento.  

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