Interaja conosco

Literatura

Quando a literatura sai da estante: novas formas de aproximar o texto do leitor

De máquinas que imprimem contos no Japão a bibliotecas instaladas nas ruas de Seul, iniciativas buscam levar a leitura para o cotidiano. Em Curitiba, A Tramela aposta no ambiente digital para reunir escritores e leitores

Publicado

em

Por redação

E se a literatura não precisasse esperar pelo leitor?

A pergunta parece simples, mas está por trás de diferentes iniciativas que tentam aproximar os livros e os textos do cotidiano. No Japão, máquinas instaladas em espaços culturais imprimem gratuitamente contos, ensaios e trechos de obras para quem quiser ler. Na Coreia do Sul, equipamentos semelhantes ocupam estações de transporte público. Em Seul, bibliotecas temporárias são montadas ao ar livre, em praças e áreas públicas.

São experiências diferentes, mas partem de uma mesma ideia: a literatura também pode encontrar o leitor no caminho.

No Japão, uma experiência iniciada em 2025 pelo grupo editorial Tohan levou para o Museu Literário de Setagaya, em Tóquio, uma máquina que imprime textos literários em longas tiras de papel. O usuário escolhe uma palavra ou tema e recebe gratuitamente uma obra selecionada aleatoriamente. Os textos têm entre 500 e 2.500 caracteres e foram pensados para uma leitura de aproximadamente três a cinco minutos. A iniciativa passou a circular também por universidades e outros espaços.

A tecnologia, nesse caso, funciona quase como uma nova porta de entrada para a literatura. Não é preciso entrar em uma livraria, escolher um livro ou sequer saber previamente o nome de um autor. O texto aparece durante o intervalo, a espera, o deslocamento.

Na Coreia do Sul, a lógica também já foi levada para espaços públicos. Em Yongin, máquinas de literatura instaladas em estações de metrô leve oferecem gratuitamente poemas, contos, ensaios e outros textos. A proposta oficial é justamente permitir que os cidadãos tenham contato com a literatura no cotidiano.

Em Seul, a estratégia ganha outra dimensão. A Seoul Outdoor Library transforma praças e outros espaços públicos em ambientes de leitura, com livros, programação cultural, palestras e atividades. O projeto, iniciado em 2022, é apresentado pela prefeitura como uma forma de estimular a leitura na vida cotidiana.

Não se trata de substituir bibliotecas ou livrarias. É justamente o contrário: criar mais caminhos até elas.

Uma nova porta em Curitiba

É nesse debate sobre acesso que pode ser observada uma iniciativa recém-lançada em Curitiba.

A Tramela reúne nove escritores de diferentes gerações em um portal dedicado à publicação de crônicas e outros textos autorais. O conteúdo é gratuito e ganha novas publicações de segunda a sexta-feira.

Fazem parte do grupo fixo nomes como Marleth Silva, José Carlos Fernandes, Luís Henrique Pellanda e Luci Collin, ao lado de escritores de uma geração mais recente, como Sandoval Matheus, Letícia W. Magalhães, Felippe Aníbal, Cristiano Castilho e Bruno Zermiani.

Cada autor publica a cada 15 dias.

A proposta pode parecer pequena diante dos grandes desafios da leitura no Brasil, mas toca em uma questão importante: onde a literatura encontra o leitor?

Durante décadas, os jornais tiveram um papel relevante nesse encontro. A crônica aparecia ao lado das notícias e, muitas vezes, era a porta de entrada para escritores que o leitor só conheceria posteriormente em livros.

Foi assim com Marleth Silva. Ela conta que conheceu Carlos Drummond de Andrade primeiro pelas crônicas publicadas no jornal que seu pai comprava.

“O Brasil teve grandes cronistas. Eles ajudaram muita gente a se tornar leitor. Foi meu caso.”

A lembrança ajuda a entender a importância de criar espaços de circulação para a literatura.

Do jornal para a tela

A Tramela não pretende reproduzir o jornal nem competir com o livro. Escolhe outro território: a internet.

Em vez de depender do algoritmo das redes sociais, o portal cria um endereço específico para o texto. O leitor entra e encontra literatura. Também pode chegar aos conteúdos pelo Instagram ou pelo canal no WhatsApp.

A escolha dialoga com uma mudança importante nos hábitos de consumo cultural. Se grande parte do tempo livre hoje acontece diante de uma tela, talvez seja necessário também criar dentro dela espaços que não estejam submetidos exclusivamente à velocidade, à publicidade ou ao consumo rápido.

A identidade visual minimalista do portal segue essa lógica. A ideia é reduzir as distrações e deixar o texto ocupar o centro da experiência.

Mas A Tramela vai além dos nove autores convidados.

Uma porta aberta para quem ainda não tem espaço

O projeto criou também a seção “Porta aberta”, destinada a escritores que não fazem parte do grupo fixo. Os textos serão recebidos por e-mail, passarão por curadoria e, inicialmente, a previsão é publicar um novo trabalho por semana.

É nesse ponto que o projeto deixa de ser apenas uma reunião de escritores e passa a se aproximar de uma ideia de comunidade literária.

Bruno Zermiani, que integra o grupo fixo e venceu o Prêmio Paraná de Literatura com Vira-lata, acredita que a iniciativa pode ajudar a movimentar a produção local.

Para ele, Curitiba tem uma criatividade que nem sempre encontra espaços suficientes para circular.

“Certamente a criatividade faz parte da alma da cidade, é só andar pelas ruas pra ver.”

No portal, Zermiani também pretende publicar capítulos do romance que está escrevendo, recuperando o formato dos antigos folhetins.

É uma escolha que reforça a ideia de que a literatura não precisa necessariamente chegar ao leitor em um objeto fechado. Pode ser acompanhada aos poucos, no intervalo da rotina, em pequenas doses.

A literatura precisa de portas

Talvez seja essa a principal questão colocada por experiências tão diferentes como as máquinas de literatura japonesas, as bibliotecas ao ar livre de Seul e agora um portal literário em Curitiba.

Não existe uma fórmula única para formar leitores.

Mas existe uma constatação: é preciso criar portas de entrada.

Algumas podem estar em uma biblioteca. Outras, em uma livraria. Outras podem aparecer no papel que sai de uma máquina em uma estação de metrô. Ou em um site acessado pelo celular.

A tecnologia muda. O desafio permanece.

Fazer com que, em meio a tantas coisas disputando nossa atenção, alguém encontre uma história, pare por alguns minutos e descubra que talvez queira ler mais uma.

Em Curitiba, A Tramela abre mais uma dessas portas.

Para quem quiser conhecer novos autores, acompanhar as crônicas ou enviar textos para a seção “Porta aberta”, A Tramela já está disponível em www.atramela.com.br, com novas publicações de segunda a sexta-feira. O projeto também pode ser acompanhado pelo Instagram @a.tramela e pelo canal no WhatsApp.

Seja nosso parceiro2

Megaidea