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Teatro

Fina ironia da nossa poesia

A peça brinca com coisa séria, pois é extremamente urgente dessacralizarmos essa superimportância que temos dado a tudo, mesmo que no fim e ao cabo valorizemos quase nada de verdade, não as encaramos de frente, nem nos sentimos tocados pelas coisas. 

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Por gabriel m. barros

 

​De tempos em tempos os bufões voltam para dar seu recado e, entre brincadeiras, sinalizam o desequilíbrio que a sociedade vivencia. Assim é a ideia que começa sendo explorada no espetáculo Sobre poetas e heresias, contando com texto de Aloysio Burtin (que mescla com vários poetas e poetisas), tendo direção de Carlo Milani e atuação de Jairo Mattos. 

​O bufão nos conta que a poesia, essa coisa abstrata, oca e interessantíssima, tem sua ironia, sua força e sua forma peculiar de nos despertar de algo, de nos chamar a atenção e também de contrabalançar com os tempos vividos. E assim o espetáculo passa pelos grandes: Pessoa, José Régio, Wislawa Szymborska e Padre Antônio Vieira. Com esse panteão de poetas e inundado de lirismo, Jairo da vida a uma personagem que brinca com os sentidos, ora parecendo uma figura bêbada, ora extremamente certeira no que diz. 

Com uma voz que lhe possibilita brincar e fazer reviravoltas, Mattos é intenso e captura o espectador com os versos entoados. Após ver o primeiro texto recitado, a mudança de luz (de Ary Nagô) dá o tom do que vem nas próximas vezes, e já cria um clima de expectativa, pois realmente é muito bonito ver o que acontece ali. 

A peça brinca com coisa séria, pois é extremamente urgente dessacralizarmos essa superimportância que temos dado a tudo, mesmo que no fim e ao cabo valorizemos quase nada de verdade, não as encaramos de frente, nem nos sentimos tocados pelas coisas. 

Num tempo de grande artificialidade, o brincar e a poesia seguem nas frestas criando ruídos e risos, abalando nossos prédios e vidas silenciosas e abafadas demais. Me parece urgente retomarmos essa técnica tão milenar e tão singela, que Jairo faz uso magistralmente: nossa voz!

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