MISTURA FINA – O fim da festa!

Uma reflexão sobre o silêncio e vozes.

Por Giseli Canto

Nos anos 80 e 90, fim do século XX, tivemos momentos de muita tristeza – o cenário artístico deu visibilidade às grandes perdas que o mundo viveu por causa do HIV, uma imunodeficiência humana que trouxe a AIDS Síndrome da Imunodeficiência Adquirida. O momento entrou para a história como aquele que devastou o planeta tirando vidas de jovens, adultos, velhos e crianças. A humanidade se ressentiu com tamanha arrasadura e dezenas de artistas que entraram para a história muito mais pela irreverência e falta de conduta adequada no sexo, do que pelo talento. Deveriam fazer silêncio. Não tratemos disso porque já se falou demais e o povo teve seu tempo de reflexão, que não foi pouco, para concluir suas opiniões e até entender o que o destino reservou.

O século XXI começou bem. Bem marcado pelas perdas em decorrência do COVID 19, que devastou o mundo com as vidas perdidas e grande sofrimento. Com a AIDS, tivemos as vozes orientando regras para o sexo, mas os métodos contraceptivos não bastaram porque a proteção deveria passar pelos preservativos ou pela abstinência ampla, geral e irrestrita do sexo. Isso não evitou que crianças nascessem sem planejamento, sem família, sem pai e nem evitou abortos clandestinos, crianças rejeitadas e abandonadas à própria sorte. Silêncio! Já se falou sobre isso até cansar e já existe opiniões concebidas, mas perguntas ainda sem respostas, como também o silêncio do esquecimento porque nem lembramos mais da AIDS.

O famigerado coronavírus, trouxe um banho de tristeza! Um surto pandêmico e vozes trazendo teorias e soluções. Levou amigos, familiares e também os que nos faziam companhia em casa, no carro, nas festas, nos palcos, nas telinhas com sua arte, com suas obras e seus talentos. Muitas vidas ceifadas e artistas levados por esse mal que arrebata todas as explicações científicas caladas pela dor e pela tristeza. Ficamos de luto no final do século pelas vidas que perdemos para a AIDS. Estamos de luto nesse início de século pelas vidas que perdemos para o COVID.

A AIDS continua matando tanto como mata o COVID19. Para os que acreditam em Deus, o que Ele quer nos dizer? Para os que não acreditam, o que o Universo está conspirando? De um lado ou de outro, acreditando ou não na existência divina, estamos perdendo e ganhando. Perdendo vidas, ganhando compêndios de sofrimentos e experiências, aprendizados que custam muito caro; não caiu do céu nem compramos em bancas de revistas. Estão acessíveis pela senha do sofrimento, do medo, da angústia e do pavor de perder ou de morrer.

Será que estamos lançando mão desses aprendizados ou estamos numa competição burra de quem está certo ou errado? Qual luta estamos tomando para nós? Pelo que estamos brigando? Quanto ainda temos que sofrer para nos educar? Os que se foram pararam de sofrer. Nós ficamos purgando essa dor, as impurezas, as mazelas e desgostas. Tiremos lição dessas vidas e dessas mortes.

O silêncio tomou o coração, mas as vozes não se calaram. Estão aí em seus registros e deixaram legados para que possamos ter acesso às memórias e nos arrefecer em direção ao transposto legado. Tornaram-se ícones! São vivas lembranças dos momentos que colhemos de suas histórias.

Dos grandes, deixo algumas memórias, que nos faziam companhia com suas obras, escritos, poesias, atuações e que nas telas, palcos ou livros, nos bares ou teatros, ruas, rádios ou TVs traziam suas reflexões, pensamentos, lembranças e entretenimento à alma. Que esses e muitos outros não tenham vivido, nem morrido em vão.

Então, que “…o silêncio das línguas cansadas…” (Zé Rodrigues) deva dar sentido à clausura que estamos orientados a viver agora e refletir, sobre tudo, a vida. Essa vida que precisa ser pensada em lugar abstraído, no silêncio! Não somente o silêncio externo, mas o silencio de nós mesmos, sobre o que é a liberdade. A liberdade que nos ejeta ao mais alto dos céus em voo livre das amarras da inexistência terrena. O silêncio que Zé Rodrix cantou: “Onde eu possa ficar no tamanho da paz e tenha somente a certeza dos limites do corpo e nada mais”, pode nos dizer que não é somente o viver por viver, mas ser e não estar uma pessoa que ocupa somente um espaço na Terra e, também, tem algo a entender e a dizer. O silêncio de que falo agora, pode fazer, você e eu, senhores de nós mesmos. Que se calem as vozes confusas e turbulentas e que silêncio do universo nos traga sabedoria.

Lembremos dos que se foram e deixaram suas vidas como arte. Sejamos gratos aos nossos artistas que mexeram dentro de nós da forma mais linda e sublime que tinham para dizer. Suas vozes por meio da arte.

Gerson Bientinez (1948-2020), compositor, violonista de muitas mãos e muitas vias. Traduziu a vontade de sua cidade e de muitas outras pelas mãos de seus parceiros, já falado aqui em coluna passada.

https://jornalacena.com.br/mistura-fina-um-compositor/

Ismael Ivo (1955-2021), o menino pobre da Vila Ema, na Zona Leste de São Paulo, que se inspirou na própria origem para conquistar os palcos com sua dança. A elegância, a criatividade e a brasilidade sustentada em seus trabalhos em que acreditava que o artista brasileiro era o que mais poderia contribuir para a reinvenção da arte nas mais variadas áreas.

Ismael Ivo e Dimos Goudaroulis https://youtu.be/L2DWiJy9MNU

O pintor, desenhista e professor Mário Rubinski, curitibano, artista que foi professor na Casa Alfredo Andersen, que durante dez anos foi chefe da Seção de Belas Artes da Biblioteca Pública do Paraná, foi premiado no Salão Paranaense de Belas Artes com a Medalha de Bronze no 16º (1959), Medalha de Prata no 20º (1963), Medalha de Bronze e Prêmio Aquisição no 21º (1964).

https://solardorosario.com.br/2021/06/21/nossa-homenagem-ao-pintor-mario-rubinski/

Fábio Campana, jornalista e escritor, que falava de política à poesia e música e, que afirmou ser Jaime Lerner um urbanista que ensinou o curitibano a sonhar.

https://fabiocampana.com.br/2021/05/27/jaime-lerner-o-urbanista-que-nos-ensinou-a-sonhar/

O palhaço Fidalgo Filho de Algo, criado e interpretado por Marcos Gabriel Freitas (1981-2020), dizia “Penso que o palhaço é um ser brincante, ele brinca com a dificuldade da vida. Acho que a vida precisa ser vivida com leveza, sem estresse.

Curitiba et Circenses: A corte de Fidalgo.

Paulo Gustavo (1978-2021), ator, humorista, diretor, produtor e roteirista. Ganhou visibilidade no final de 2004, quando integrou o elenco da peça Surto. Na ocasião, apresentou a personagem humorística Dona Hermínia, personagem que ficou muito tempo nas telinhas, também ficou conhecido por Minha Mãe é uma Peça.

Apresentação da peça “Hiperativo” de Paulo Gustavo. https://youtu.be/aKy0fQVZlNI

Eduardo Calegari (1981-2021), guitarrista da banda curitibana Motorocker, que abusava de seu virtuosismo em suas performances alegrando a cidade e envolvendo seu público com seus solos.

https://www.facebook.com/100003628276151/videos/664755006988769/

Nelson Sargento, cantor, compositor, pesquisador, artista plástico, ator e escritor, levou a arte do samba para além da música. Além de compor sucessos como “Agoniza, mas não morre”, o baluarte do samba, interpretou José, pai de Jesus em um desfile da Mangueira no Rio de janeiro. Nelson dizia que continuava sonhando e em seu primeiro disco, em 1979, declarou ao jornal Estado de São Paulo, “…acho que tratando-se de samba, nunca é tarde para se gravar.”

O samba retrata o preconceito e as destemidas lutas para que suas raízes não fossem aviltadas nem desrespeitadas.

Agoniza, Mas Não Morre – Nelson Sargento, Lula Matos & Terças Desamplificadas:

Samba,
Agoniza, mas não morre,
Alguém sempre te socorre,
Antes do suspiro derradeiro.
Samba,
Negro, forte, destemido,
Foi duramente perseguido,
Na esquina, no botequim, no terreiro.
Samba,
Inocente, pé-no-chão,
A fidalguia do salão,
Te abraçou, te envolveu,
Mudaram toda a sua estrutura,
Te impuseram outra cultura,
E você não percebeu,
Mudaram toda a sua estrutura,
Te impuseram outra cultura,
E você não percebeu.
Samba,
Agoniza, mas não morre,
Alguém sempre te socorre,
Antes do suspiro derradeiro.
Samba,
Negro, forte, destemido,
Foi duramente perseguido,
Na esquina, no botequim, no terreiro.
Samba,
Inocente, pé-no-chão,
A fidalguia do salão,
Te abraçou, te envolveu,
Mudaram toda a sua estrutura,
Te impuseram outra cultura,
E você não percebeu,
Mudaram toda a sua estrutura,
Te impuseram outra cultura,
E você não percebeu.

Você poderá discordar, perguntar, não entender direito, mas precisa gostar de estar aqui comigo! Do contrário não vale a pena!

Espero você aqui na próxima!

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Essa matéria: https://youtu.be/UJGTjyd1zkE

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Giseli Canto

Giseli Canto é Arte-educadora, cantora, roteirista, produtora, apaixonada pela música, pela família e pelos amigos, que considera sua segunda família e tudo que se refere ao poder transformador dessa arte. Ama uma boa conversa e está sempre aberta a novos caminhos. Seu olhar otimista para o ser humano faz de sua vida um mundo recheado de boas relações e experiências.

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