MISTURA FINA – O Comendador da República Federativa do Brasil, Sergio Deslandes

“Eu tive consciência de mim mesmo e isso é importante”

Por Giseli Canto

A vida tem dessas coisas mesmo! As vezes precisamos mudar e transformar nossos caminhos, começar do zero, como se estivéssemos aprendendo a andar. Aprender a andar no alto de seus quarenta e cinco anos é muito desafiador e de uma intrepidez indizível. Talvez poucas pessoas estejam munidas dessa coragem; de parar tudo, deixar de lado uma vida que está caminhando relativamente bem, onde tudo está fluindo dentro do previsto e como se fechássemos os olhos em um lugar e abríssemos em outro, num passe de mágica, tudo se transforma.

Sergio Deslandes, é uma figura que muitos, que passaram pela FAP-Faculdade de Artes do Paraná e pela Belas Artes conhecem. Para mim, um professor, arte-educador que passou pela minha vida e deixou muito conhecimento. Além disso, alguém que compreende o talento de seus alunos e a artisticidade individual de cada um. Não temos muitos professores que visualizam a sala de aula por esse prisma. Talvez esse seja seu maior legado como docente.

Numa tarde ensolarada e fria sentamos para falar de sua história, sua transformação profissional e a mudança do Sul para o Nordeste. Antes de tudo, falamos de sua boa convivência com os músicos da cidade, que Sergio tem muito apreço e lembra com muito carinho de todos. Com dois filhos, sua mãe na cidade, estabilidade profissional e uma credibilidade muito boa, decidiu sair de Curitiba, mesmo não sendo mais um jovem em começo de carreira.

A MUDANÇA

Sergio sai de Curitiba, vai para o nordeste, onde a música local é extremamente reconhecida e os eventos são constantes com uma agenda cultural que se sobrepõe e falta tempo para apreciar tudo que se proporciona. Dentro desse contexto, um caminho de mão duplamente contrária – Sergio não conhecia o repertório do lugar e o lugar não conhecia seu repertório. E agora o que fazer com essa realidade?

MISTURA FINA CULTURAL 

As histórias são muitas, mas o que mais chama a atenção é que os repertórios foram assimilados aos poucos pelas duas vias – do Sul para o Nordeste e do Nordeste paro Sul. Claro que o inelutável e bem-posto aconteceu. Hoje muito mais do local foi incorporado por ele. Sua linguagem se justapôs ao Nordeste e a cultura local foi mais absorvida, mas em seu trabalho, seu sotaque curitibano e formato musical estão presentes ainda. Sergio teve que aprender sobre o repertório nordestino, porque quando chegou sentiu um estranhamento. Ninguém conhecia as músicas que ele tocava, mas também ele não sabia nada sobre as músicas e artistas do local. Assim, fez o seu dever de casa – aprendeu e ensinou. Hoje sabe muito mais do Nordeste e o Nordeste sabe um pouco mais do Paraná.

Temos dois Brasis, diz ele. O Nordeste consome sua arte, sua música; diferente de Curitiba e Paraná. Ele relata que artistas exigem seus direitos e dão a cara para bater. Reúnem-se com o Secretário de Cultura e são ouvidos. Existe a questão da valorização da música local; o que vem de fora, ou quem vem de fora passa pela joeira até se dissipar a desconfiança. Perguntei a Sergio se ele conseguiu levar a música paranaense para lá. Sempre cuidadoso e respeitoso por ser forasteiro, um paranaense de sotaque duro, foi hábil – registrou sua obra, que além de propiciar o entendimento na classificação vocal de seus alunos, agregou músicos da terra. Essa ação deu a ele um retornou de forma empática no cenário musical e acadêmico. Isso é didática, é metodologia aplicada, é trabalhar com amor.

A DESCOBERTA DE SEUS ANCESTRAIS.

Sergio fala “Fui muito seguro(…) Quando eu vou pra fora, eu descubro um monte de coisa sobre mim”. Quando foi morar em Salvador, na Praça da Piedade ele descobriu o Gabinete Português de Leitura. Fez uma visita, mesmo com dificuldade para entrar no lugar, apresentou-se e foi recebido com surpresa por uma portuguesa que entregou a ele o livro de sua família. Para seu espanto, ali estavam informações jamais imaginadas por ele. Descobriu que os Deslandes eram editores do Rei Dom João Terceiro e que existem edições Deslandesianas na Torre do Tombo, em Lisboa. Seus descendentes eram editores da coroa. Essa linda história, não é importante apenas para Sergio, mas para os paranaenses que tiveram a oportunidade de conviver com ele. Nasceu e viveu a maior parte de sua vida em Curitiba e soma-se à história do Paraná. Nas palavras de Sergio percebemos a importância dessa mudança em sua vida. “Eu nunca ia descobrir se eu não tivesse ido morar em Salvador e se não tivesse a curiosidade de conhecer uma biblioteca.”

A RESPONSABILIDADE DE UM PROFESSOR

Depois de três acidentes de moto perdeu um pouco da habilidade com os braços que limitaram a regência. Quase ficou tetraplégico. Mesmo com algumas sequelas, isso não o impossibilitou de dar aulas, mas a pandemia sim. Aulas de regência são orgânicas, exigem presencialidade, simultaneidade diz Sergio. Precisou parar, apesar da universidade tentar fazer com que ele continuasse. Para não prejudicar o aluno com uma aula que não trouxesse o rendimento que ele acredita ser de suma importância, optou por dar aula de composição, violão e harmonia.

O PESQUISADOR

Esse doutor em regência, professor da UFPE – Universidade Federal de Pernambuco, é quase um nordestino que não se desliga do Paraná nem de suas pesquisas. Vindo à Curitiba para ver sua família, não perde a oportunidade de pesquisar. Em nossa conversa descubro que, dentre os muitos trabalhos de Sergio, está o grupo de pesquisa chamado Mar de Corais com vários regentes do nordeste, onde foi criado um aplicativo que faz um levantamento de dados sobre os grupos corais de todo o Brasil pelo georreferenciamento. São várias as funções do aplicativo que podem servir de pesquisa aos interessados em material de apoio. Além disso, ele participou ativamente da fundação da Nova ABRACO – Associação Brasileira de Regentes Corais.

Caminhos cruzados nas histórias que esse artista tem para contar, que estão na geografia nordestina e paranaense. Continuando seus estudos, hoje pesquisa sobre um músico, que apesar de sua importância em Recife, foi esquecido. Chama-se Waldemar de Oliveira, músico, jornalista, médico, diretor de teatro e pesquisador. É um dos cinco pernambucanos que está na Academia Brasileira de Música, sendo o primeiro no Brasil a fazer referência (em 1925) a um termo que hoje conhecemos bem: Musicoterapia, uma história que conheceremos pelas mãos de Sergio Deslandes muito em breve.

ADVERSIDADES

Veja como a brilho profissional pode incomodar àqueles que a incompetência é sua marca. Dentre as dificuldades que passou, em 2010, quando entrou na universidade, foi professor homenageado em todos os anos até que isso se tornasse um incômodo. Em 2014 foi exonerado por sofrer perseguição de um chefe que criou situações para tirá-lo de cena. Sergio diz que chegavam a ser engraçadas as situações que eram armadas, mas como um bom curitibano, entrou na justiça e ganhou a ação. Foi reintegrado ao corpo docente da universidade e, por não haver nada que o desabonasse, a Universidade ainda respondeu por danos morais.

O COMENDADOR

Esse curitibano é um profissional que tinha sua história, com grande reconhecimento profissional, e que foi se aventurar em um lugar onde não era ninguém, onde sua história pregressa não era conhecida. Ali teve que conquistar seu lugar, mostrar credibilidade, construir uma nova história e estudar aquelas pessoas. De professor a Comendador. Uma história, até certo ponto, engraçada. A princípio não acreditou, mas foi indicado a receber uma comenda pelo grande maestro Samuel Kerr, de São Paulo. Precisou acontecerem três tentativas de contato para que Sergio fosse verificar a veracidade do título. Sim, era verdade. Hoje é Comendador da Ordem do Mérito Cultural Carlos Gomes pela SBACE – Sociedade Brasileira de Artes, Cultura e Ensino. Um reconhecimento merecido, que só aconteceu porque Sergio saiu de Curitiba, enfrentou as adversidades, conquistou seu espaço e a credibilidade no Nordeste.

Tenho orgulho de poder contar essa história aqui. Desse profissional que atravessou o Brasil fazendo jus aos seus antepassados, mesmo sem saber, e traz aqui essa revelação feito presente ao Paraná. Uma viagem, um legado, uma missão da história confiada a esse homem que leva ao outro lado do Brasil seu talento e dá continuidade a tudo isso com louvor. Professor, pesquisador, escritor, compositor, maestro, filho, pai, um homem que tiro meu chapéu para reverenciar esse tudo que ele representa.

“Eu tive consciência de mim, isso é importante(…)e, muitas vezes quando você é muito da terra as pessoas não veem isso(…)quando chego num lugar diferente, onde ninguém me conhece, aí ninguém me conhecia, não tinha julgamento prévio sobre nada que eu tivesse feito(…)Fui valorizado pelo que eu mostrei.”

Confira a obra de Sergio Deslandes – Retratos

Acompanhe Sergio Deslandes, suas publicações e sua obra.
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https://sites.ufpe.br/grupomardecorais/
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Você poderá discordar, perguntar, não entender direito, mas precisa gostar de estar aqui comigo! Do contrário não vale a pena!

Espero você aqui na próxima!

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Giseli Canto

Cantora paranaense de Curitiba, professora de Artes aposentada, roteirista, produtora, apaixonada pela música e tudo que se refere ao poder transformador dessa arte, pela família e pelos amigos, que considera sua segunda família. Ama uma boa conversa e está sempre aberta a novos caminhos. Seu olhar otimista para o ser humano faz de sua vida um mundo recheado de boas relações e experiências.

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1 pensou em “MISTURA FINA – O Comendador da República Federativa do Brasil, Sergio Deslandes”

  1. Que história sensacional… Repassei para meus amigos essa incrível trajetória… E de fato nada na vida é por acaso… Parabéns para o nosso comendador Sergio Deslandes, ao Mistura Fina pelo texto muito bem escrito e pela linda narração de Gisele Canto…

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