Crítica Teatral
Quando Verona vira Parintins
Com um elenco talentoso, que se entrega por inteiro e vai até o fim, literalmente, morrendo na coxia, o destaque fica para a ama de Débora Duboc e para Clayson Charles, que transita por diferentes personagens, trazendo leveza e respiro à narrativa sem quebrar sua intensidade.
Foto: Hamyle Nobre
por Vanessa Ricardo
Não é novidade uma montagem de Romeu e Julieta em formato musical no Brasil. A tragédia de William Shakespeare já ganhou diferentes leituras, a última que me vem à cabeça é aquela que usava o repertório de Marisa Monte.
Mas a Buia Teatro Company, de Manaus, encontrou um outro caminho e um caminho interessante. A escolha de encenar “Romeu e Julieta de Parintins – Ecos da Selva” a partir da estrutura dos musicais da Broadway, não pela grandiosidade cenográfica, mas pela construção dramatúrgica. É nessa lógica que entram as composições de Tim Rescala, costurando a narrativa e sustentando o ritmo da cena, em sintonia com a direção de Tércio Silva.
A companhia se reinventa quando desloca a história para o universo do Festival Folclórico de Parintins e constrói uma espécie de ópera popular atravessada pelo boi-bumbá. Aqui, Verona vira Parintins. Romeu pertence ao Boi Caprichoso, azul. Julieta ao Boi Garantido, vermelho.
A rivalidade não é pano de fundo é estrutura. E isso muda tudo.
Porque o amor deles não nasce só no proibido. Ele nasce dentro de uma disputa que é coletiva, histórica, quase inevitável.
Há momentos em que a encenação cresce justamente por confiar no excesso: cores, sons, corpos. É intenso como Parintins pede.
Com um elenco talentoso, que se entrega por inteiro e vai até o fim, literalmente, morrendo na coxia, o destaque fica para a ama de Débora Duboc e para Clayson Charles, que transita por diferentes personagens, trazendo leveza e respiro à narrativa sem quebrar sua intensidade.
No fim, o que resta não é só a tragédia conhecida. É o reconhecimento.
A dor uniu os contrários, pois sentiram a mesma dor.
E talvez seja esse o golpe mais duro dessa versão: perceber que, quando as cores deixam de importar, já não há mais quem possa atravessá-las. Aqui vai um spoiler, daqueles que valem a pena: o final surpreende ao aproximar a narrativa da tradição do Boi-bumbá. Para quem não conhece, vale pesquisar, ou melhor, ver de perto.

