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Crítica Teatral

Diante de uma rainha

O desafio foi topado pela tradução e adaptação sagazes e precisas de Rodrigo França. A tragédia inteira está lá, agora no virtuosismo de uma só personagem, interpretada magistralmente por Aretha Sadick, que realmente é uma atuação esplêndida, o corpo em movimento, a voz, a própria imponência com a qual ela vai se colocando, são arrebatadoras

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Foto:  Cacá Bernardes

Por gabriel m. barros

​O anúncio vem por carta: o marido, um exímio guerreiro que regressava de mais uma vitória conquistada, se depara com três bruxas que lhe sopram o destino, primeiro duque, depois a realeza. A ironia é que os ventos do que fora soprado bate com muito mais força na mulher que recebera a carta. Ela, que nunca havia pensado nisso, foi agora não só cooptada, mas sim tomada totalmente por esse novo desejo, que ela sequer conhecia dentro de si. Essa é a premissa de um clássico cênico, escrito por Shakespeare, na tragédia denominada Macbeth, que na experiência intimista do teatro mínimo do Sesc Ipiranga ganhou uma versão de monólogo da esposa, a Lady Macbeth, o espetáculo se chama Lady Macbeth um ensaio sobre o poder. 

​Mexer com a peça maldita não é para poucos e representa por si só um risco. A constelação de pessoas que um espetáculo une, trouxe para esse, em específico, corpos que vivem sob a mira do poder, jogando contra e com ele ou sobrevivendo a ele. Pessoas que em um país racista, transfóbico e misógino vivem no fio da navalha. Assim, a retomada desse clássico é de uma sagacidade imensa por colocar em cena como o desejo pelo poder, esse que corrói a tantos e tantas, ainda persiste. 

O desafio foi topado pela tradução e adaptação sagazes e precisas de Rodrigo França. A tragédia inteira está lá, agora no virtuosismo de uma só personagem, interpretada magistralmente por Aretha Sadick, que realmente é uma atuação esplêndida, o corpo em movimento, a voz, a própria imponência com a qual ela vai se colocando, são arrebatadoras. A peça ainda conta com a direção certeira de Tainara Cerqueira, que também assina a direção de movimento, e uma ambiência sonora inquietante feita pela Dani Nega. 

​A obsessão de Lady Macbeth é um tanto quanto nossa, que a cada dia vivemos mais cercados em bolhas crentes que o mundo deve respeitar a nossa lógica e se curvar a nós e às nossas vontades. Nesse sentido, o espetáculo é um acerto enorme em gritar a solidão dessa personagem que pensa conquistar o mundo, quando no fim e ao cabo, nem o lamento do próprio marido recebe. Termina quase que esquecida, mesmo ela sendo aquela que maquinou tudo. 

Agora uma reflexão muito pessoal, uma vez que vivemos numa democracia, como é que nos portamos diante de uma rainha? E mais: uma rainha bem próxima a nós, que nos olha e nos engole com suas vistas severas, que em seu delírio nos consome conjunto. Enfim, como lidar? Ver Aretha atuando, dando vida para essa personagem extremamente complexa, talvez possa nos responder essas inquietações. O que eu sei é que ter me deparado com uma rainha, mesmo não sendo um monarquista em minhas convicções, deixou uma marca indelével em mim e nas minhas inquietações.

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