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Artistas que precisamos conhecer | Seel: quando o acolhimento transforma talento em trajetória

Das primeiras oficinas de desenho ao acolhimento encontrado no Bardo Tatára, o artista visual Seel construiu uma trajetória marcada pela ancestralidade, pela cultura periférica e por uma linguagem que transforma identidade em arte

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Foto: Lina Sumizono

Por Vanessa Ricardo

Há obras de arte que carregam uma história muito antes de chegarem à parede de uma casa. Conheci o trabalho de Seel no Bardo Tatára. Suas ilustrações ficavam expostas sobre uma mesa na entrada dos fundos da casa e, em uma dessas visitas, comprei um desenho que hoje faz parte da decoração do meu quarto . Na época, eu ainda não imaginava que aquele artista construiria uma trajetória marcada por uma linguagem própria e por um discurso potente sobre identidade, ancestralidade e pertencimento.

Foto: Vanessa Ricardo

Contar a história de Seel é também falar sobre um dos espaços mais importantes da cultura independente de Curitiba.

O Bardo Tatára ficou conhecido por impulsionar músicos e bandas, mas sua contribuição foi muito além da música. A casa tornou-se um ponto de encontro onde artistas visuais, escritores, fotógrafos, atores e jornalistas encontravam espaço para criar, trocar ideias e construir redes de apoio. Foi ali que nasceram inúmeras parcerias artísticas e até mesmo o Jornal A Cena, criado em meio à efervescência cultural que ocupava aquele espaço. Para muitos artistas da cidade, o Tatára foi mais do que um bar: foi um lugar de formação, pertencimento e resistência.

Foi justamente ali que Seel encontrou o incentivo que precisava para acreditar em sua própria arte.

O desenho sempre esteve presente em sua vida. Ainda criança, participou de uma oficina promovida na ONG de seus pais e cresceu cercado por papel e lápis. “Não lembro exatamente quando comecei. Sempre tive papel e lápis por perto”, conta.

Mais do que talento, foi a persistência que o levou a seguir esse caminho.

“Eu sempre quis desenhar bem. Acho que foi a insistência e o desenvolvimento com o tempo que me fizeram querer ser artista.”

Durante muito tempo, porém, desenhar era apenas um hobby. A possibilidade de transformar a arte em profissão surgiu graças ao incentivo de outros artistas. Entre eles, LeGro, cuja trajetória foi decisiva para que Seel enxergasse que era possível viver da produção artística.

“Eu precisei de um incentivo externo para perceber que dava para viver da arte. Ver o LeGro expondo foi uma das peças fundamentais para eu me jogar de cabeça nesse mundo.”

Foi por indicação de frequentadores da Sociedade Beneficente 13 de Maio que ele conheceu o Bardo Tatára. Naquele período, morava sozinho e ainda buscava confiança para se reconhecer como artista.

“No meio de tanto sufoco do cotidiano, aquele lugar era uma válvula de escape, acolhimento e, muitas vezes, família.”

O convívio com outros artistas mudou sua percepção sobre a própria carreira.

“Eu só acredito no meu trabalho hoje pelo incentivo que tive de vários artistas que passaram pelo Tatára.”

Ao lembrar da importância daquele espaço, Seel faz uma homenagem especial a Cleusa Machado, figura central da história do Bardo Tatára.

“O Tatára foi precursor da minha vida. Amo demais a Cleusinha. Ela foi espelho para eu aprender até mesmo a me portar como artista.”

Uma linguagem que conecta identidade e ancestralidade

Foto: Lina Sumizono

A produção de Seel transita por diversas linguagens, reunindo cartoon, pontilhismo, graffiti, estampas, simbolismo e abstração em uma narrativa visual autoral. Apesar da variedade de técnicas, todas as obras dialogam entre si por meio de um conceito central: a ideia de que “os olhos são a janela da alma e a luz do corpo”.

Essa proposta aparece como um convite para observar a vulnerabilidade humana, mas também a força que nasce da própria identidade.

Seus personagens frequentemente utilizam máscaras, elemento que simboliza proteção, introspecção e a maneira como o indivíduo se coloca diante das críticas e das pressões sociais. Já os contornos dos cabelos fazem referência direta à ancestralidade afro-brasileira, evocando memória, cultura e a trajetória histórica da população negra.

Outro aspecto marcante de seu trabalho é a valorização da cultura periférica. Longe dos estereótipos, Seel retrata a periferia como um território de potência criativa, resistência e transformação, fazendo da arte uma ferramenta de afirmação e pertencimento.

Mais do que produzir imagens, Seel constrói narrativas visuais que conectam experiências pessoais, memória coletiva e identidade cultural, reafirmando a arte como espaço de acolhimento, expressão e transformação, assim como um dia encontrou no Bardo Tatára.

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