Interaja conosco

Eventos

Ploho leva o pós-punk siberiano a seis cidades brasileiras em novembro

Publicado

em

Por Paola Galiano

Banda russa, formada em Novosibirsk, retorna ao país dois anos após sua estreia por aqui e passa por São Paulo, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Belém

Há algo de naturalmente cinematográfico no som da Ploho. Baixos marcados, guitarras melancólicas, sintetizadores discretos e vocais graves constroem uma atmosfera que parece carregar o inverno de Novosibirsk, cidade siberiana onde a banda nasceu. Em novembro, esse pós-punk atravessa novamente o oceano: a Ploho retorna ao Brasil para seis apresentações, passando por São Paulo, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Belém.

A excursão integra a etapa brasileira da turnê latino-americana de 2026, apresentada pela GOS Concerts e realizada no país em parceria com a Xaninho Discos. Os ingressos estão disponíveis pela 101tickets. A nova passagem acontece dois anos depois da estreia brasileira da banda, que aconteceu em 2024, em São Paulo.

Formada em 2013, a Ploho surgiu fora dos grandes centros musicais russos e fez justamente dessa distância uma parte importante de sua identidade. O trio formado por Viktor Uzhakov, nos vocais e guitarra, Andrei Smorgonsky, no baixo, e Igor Starshinov, nos sintetizadores, construiu uma sonoridade associada ao pós-punk e à coldwave, mas também profundamente influenciada pelo rock soviético dos anos 1980.

Entre as principais referências está o Kino, grupo liderado por Viktor Tsoi e considerado um dos nomes fundamentais do rock soviético. A Ploho também dialoga com a estética de bandas como Joy Division, mas sem abandonar o idioma russo e as referências culturais de sua própria origem. O resultado ajudou a colocar o grupo entre os representantes mais conhecidos da chamada nova onda da música russa.

O próprio nome da banda segue essa lógica. “Ploho” é uma palavra russa que pode ser traduzida como “mal” ou “ruim”, escolha que combina com o caráter sombrio e direto de suas primeiras composições.

Da Sibéria para o circuito internacional

Durante os primeiros anos, a Ploho construiu sua discografia de maneira independente. O reconhecimento fora da Rússia começou a crescer especialmente a partir de 2018, quando o álbum “Куда птицы улетают умирать” (“Where the Birds Fly Away to Die”) apareceu entre os destaques daquele ano em uma seleção da rádio americana XRAY.fm.

No ano seguinte, a banda lançou “Пыль” (“Pyl”), trabalho que chamou a atenção de outros nomes importantes da cena pós-punk do Leste Europeu. Entre eles estava o Molchat Doma, grupo bielorrusso que posteriormente alcançaria projeção internacional. As duas bandas colaboraram na faixa “По краю острова”, aproximando ainda mais seus públicos.

A parceria também ajuda a entender o espaço ocupado pela Ploho na atual cena pós-punk do Leste Europeu. Embora frequentemente seja apresentada ao lado de Molchat Doma, Motorama e Human Tetris, a banda de Novosibirsk desenvolveu uma identidade própria, marcada pelo peso do baixo, pela economia dos arranjos e pela relação constante entre música e paisagem urbana.

Em 2020, essa trajetória chamou a atenção da gravadora canadense Artoffact Records, especializada em vertentes da música alternativa. A Ploho assinou com o selo e, no ano seguinte, lançou “Фантомные Чувства” (“Phantom Feelings”). O disco consolidou a presença internacional do grupo e veio acompanhado de uma expansão das turnês pela Europa.

A Artoffact descreve a banda como uma das representantes da nova onda da música russa e destaca a combinação entre a herança do rock soviético, o pós-punk e a atmosfera fria associada à cidade natal do grupo. Antes de firmar sua presença internacional, a Ploho já havia passado por dezenas de cidades europeias e participado de festivais como Боль, na Rússia, Kalabalik, na Suécia, e Platforma, na Lituânia.

A banda chegou a ultrapassar a música como única forma de expressão artística. Em 2017, seus integrantes fizeram uma participação no filme lituano “Isaac”, dirigido por Jurgis Matulevičius, aparecendo como uma banda em uma das cenas e tocando músicas do próprio repertório.

Uma banda em movimento

A história recente da Ploho também é marcada por uma mudança radical de geografia. Após a invasão russa da Ucrânia, em 2022, o grupo deixou a Rússia e passou a trabalhar a partir da Europa. A mudança teve impacto não apenas na rotina da banda, mas também na maneira como Viktor Uzhakov passou a enxergar as próprias composições.

Em entrevista ao The Moscow Times, o vocalista afirmou que a experiência de viver em Novosibirsk já carregava uma sensação de depressão que aparecia naturalmente nas músicas. Fora da Rússia, segundo ele, a produção passou a incorporar com mais frequência questões sociais e afetivas. Ainda assim, a língua russa permaneceu no centro do trabalho.

A decisão de continuar compondo em russo também diz muito sobre a relação da Ploho com sua origem. Uzhakov explicou à publicação que não se sente capaz de escrever verdadeiramente em outro idioma porque isso exigiria pensar e viver dentro daquela língua. A banda, portanto, passou a circular internacionalmente sem abrir mão do elemento que talvez seja mais característico de sua identidade.

Esse deslocamento não aconteceu sem dificuldades. Em 2022, apresentações europeias do grupo foram canceladas em meio às restrições impostas a artistas russos após o início da guerra. Com o tempo, a banda retomou as turnês e passou a ampliar novamente sua presença fora do país.

“Почва” e uma nova fase

A produção mais recente da Ploho também apresenta sinais dessa transformação. Em agosto de 2024, o grupo lançou “Почва” (“Soil”), álbum que trabalha temas como anticapitalismo, destruição ambiental e os impactos das relações sociais sobre a vida cotidiana.

O título, que significa “solo” ou “terra”, funciona quase como uma síntese do disco: há uma preocupação com aquilo que mantém as pessoas ligadas a um lugar, mas também com a dificuldade de permanecer quando esse lugar deixa de oferecer segurança.

Musicalmente, o álbum mantém elementos reconhecíveis da banda — linhas de baixo persistentes, guitarras contidas, sintetizadores e vocais graves —, mas amplia o espaço para uma produção mais reflexiva. É um trabalho menos interessado em reproduzir simplesmente a estética soviética e mais concentrado nas inquietações do presente.

A fase iniciada com “Почва” continuou nos lançamentos seguintes. Em 2025, a banda apresentou uma edição deluxe do álbum e, já em 2026, lançou “Dobrolet Sessions”, registro gravado em São Petersburgo com uma formação ampliada. O projeto apresenta cinco músicas do repertório em arranjos para uma banda maior, com novos instrumentos e uma abordagem mais próxima de uma apresentação ao vivo.

Também em 2026, a Ploho lançou o single “Плохо с тобой”, apontado como o primeiro lançamento de um novo álbum homônimo. A música retoma parte da atmosfera dos trabalhos antigos, mas, segundo Viktor Uzhakov, carrega uma segunda camada mais otimista, relacionada à ideia de que as coisas difíceis também passam.

A movimentação recente mostra que a banda está longe de ser apenas mais um nome associado ao revival do pós-punk dos anos 1980. A estética continua presente, mas serve como ponto de partida para falar de deslocamento, relações humanas, questões sociais e da experiência de viver em um período marcado por instabilidade.

Do frio siberiano ao Brasil

É nesse momento de expansão que a Ploho volta ao Brasil. A turnê começa em São Paulo, no dia 2 de novembro, e segue para Curitiba no dia 4. Depois, a banda passa por Florianópolis, Porto Alegre e Rio de Janeiro antes de encerrar a etapa brasileira em Belém, no dia 8.

A rota nacional faz parte de uma excursão maior pela América Latina, que também inclui México, Costa Rica, Peru, Argentina e Chile. Para uma banda que nasceu em uma cidade distante dos principais centros culturais russos, a dimensão da turnê é mais um capítulo de uma trajetória construída justamente a partir do deslocamento.

No palco, o repertório da Ploho ganha uma dimensão diferente daquela encontrada nas gravações. As linhas repetitivas, a bateria precisa e as camadas de sintetizador criam uma apresentação baseada mais na tensão e na atmosfera do que no excesso. É uma experiência que preserva a frieza característica do pós-punk, mas deixa evidente que, por trás dela, existe uma banda em constante transformação.

SERVIÇO | Ploho no Brasil

São Paulo (SP)
Data: 2 de novembro de 2026, segunda-feira
Horário: 19h às 23h30
Local: Madame Underground Club
Endereço: Rua Conselheiro Ramalho, 873 — Bela Vista — São Paulo (SP)
Ingressos: Sympla

Curitiba (PR)
Data: 4 de novembro de 2026, quarta-feira
Local: Basement Cultural
Endereço: Rua Desembargador Benvindo Valente, 260 — São Francisco — Curitiba (PR)
Ingressos: 101tickets

Florianópolis (SC)
Data: 5 de novembro de 2026, quinta-feira
Local: Desgosto
Endereço: Rua Padre Roma, 174 — Florianópolis (SC)
Ingressos: 101tickets

Porto Alegre (RS)
Data: 6 de novembro de 2026, sexta-feira
Local: Ocidente
Endereço: Avenida Osvaldo Aranha, 960 — Bom Fim — Porto Alegre (RS)
Ingressos: 101tickets

Rio de Janeiro (RJ)
Data: 7 de novembro de 2026, sábado
Local: Teatro Odisséia
Endereço: Avenida Mem de Sá, 66 — Lapa — Rio de Janeiro (RJ)
Ingressos: 101tickets

Belém (PA)
Data: 8 de novembro de 2026, domingo
Local: Studio Pub
Endereço: Travessa Presidente Pernambuco, 277 — Belém (PA)
Ingressos: 101tickets

 

Seja nosso parceiro2

Megaidea