MÚSICOS – PROFISSIONAIS LIBERAIS NO CENÁRIO ATUAL

Por Giseli Canto

A preocupação, a impotência diante dos fatos e a responsabilidade de levar a informação do que acontece com o músico que, de repente, deparou-se com a impossibilidade de continuar. Com a dignidade ferida, muitas vezes depende da boa vontade e empatia de conhecidos, amigos e fãs. Sobre isso eu conversei longamente com Fernando Vieira, um músico que vive da sua arte, que transita pelos espaços da escrita, do dizer que invoca as reflexões, arranca as risadas de uns e choros de outros. Bem humorado quando o assunto é profundo, mas deixa reflexões muito sérias que compromissam nosso jeito de olhar.

O artista não é explicável, nem compreensível. Quando – e raramente isso acontece – ele se pergunta o que está fazendo da vida, está tão imerso na arte que não há mais como sair. O verdadeiro artista não quer sair. A arte é seu alimento, seu teto, seu edredom. Diz Fernando.

Os músicos participam do mercado de profissionais liberais de forma criativa, ativa, construindo, a partir de suas experiências, espaços de atuação que já incluíam um mercado para músicos não só na pandemia, mas desde sempre. A chegada da pandemia trouxe uma evidência contundente, capaz de produzir situações lamentáveis do ponto de vista da sobrevivência. Por exemplo, um fator determinante para o sustento individual ou familiar, que esteve sempre no limite tênue entre o profissional e o amador, fez com que músicos procurassem outros meios de sobrevivência que garantissem uma estrutura mínima financeira.

São trabalhadores que rompem com a imagem do artista por excelência para criar um novo jeito de fazer música, típico de uma classe até então preservada à muito custo. Não falo de gênero nem estilo, falo de como continuar sendo, no mínimo, um operário da música, aquele que arduamente insiste em continuar sobrevivendo dela. Eles são parte relevante do ambiente musical da cidade, atuando como instrumentistas, músicos e professores. Num primeiro momento, conviviam em espaços por onde passavam como músicos, hoje estão nos mais diversos espaços com outras modalidades de subsistência. São vendedores, motoristas de aplicativos, profissionais sem qualificação específica, com ou sem carteira registrada. O problema são aqueles que não se encaixam nessas alternativa de trabalho, que não conseguiram outras fontes de renda e estão à míngua, com fome, sem teto, sem perspectiva e carentes de tudo. Se podiam enveredar pelas ruas cantando e tocando seus instrumentos, agora nem isso…

Algumas ações chegaram sob a forma de decretos até esses profissionais, outras pela forma de Leis de Incentivo, que de incentivo não tem nada, outras pelo auxílio direto ou indireto por  lives em plataformas. Aqui surge um contexto preocupante que vem do reflexo de muitas histórias que ouvi ao longo de anos e no último muito mais. Com instrução e disciplina, boa parte dos músicos obtiveram assistência e sobrevivem até o momento, ganharam cestas básicas, ajuda de amigos, mas até quando? Será que é possível saber onde tudo isso vai chegar? Não! Não temos boas perspectivas pra ninguém, pra esses profissionais, muito menos.

Há quem diga – e muitos dizem – que é impossível viver sem música. Eu também! A música está nos lugares que conscientemente não percebemos que está. Está na propaganda, na novela, nos filmes, nos estabelecimentos em geral, em tudo! Ora, se é essencial pra sobrevivência nos negócios, ou para a maioria deles, por que não está listada  como atividade essencial? Não há interesse em valorizar a categoria?

A gente dança conforme a música. Como disse Jeff Sabbag em sua página: Saí do banho com um ziriguidum na cabeça “Vai ser MELHOR ainda quando amanhecer…” Ah vai! Só um ziriguidum na cabeça pra nos dar o direito de escolher a música melhor para se dançar. Dizem que a esperança é a última que morre, então! Enquanto pensa ouça esse piano e depois volte nessa reflexão de Fernando.

É cultural; está no DNA da população mundial que artistas são inúteis, “vagabundos”, não querem trabalhar, etc… Ora, ora, ninguém vê as horas a fio que os artistas passam refinando sua técnica, solitárias, trancafiados em quartos, estúdios, banheiros, etc. Ou dentro de fones de ouvido. Os artistas plásticos refazem mil vezes sua tela, buscando a perfeição e gastando tinta. Estas atitudes são incompreensíveis para quem não é do ramo. Páginas e mais páginas são rejeitadas por escritores, por não atingirem a excelência desejada. Todo artista busca a excelência, e seu único intuito é entrega-la, por amor, à uma plateia nem sempre atenta. O artista não é visto. Piorou desde 2020. Infelizmente vai piorar ainda mais, pois até entre a classe artística está se reafirmando a tese de que “arte não é essencial”…

Estamos de luto e nele seguimos fora da lista de produtos essenciais. Porque musicar é preciso, viver não é preciso.

Voilà! Na música Argonautas de Caetano Veloso e no poema de Fernando Pessoa, temos um modo reflexivo que mostra que o chamado é mais forte que a própria necessidade de garantir a sobrevivência.

No mês do aniversário de 75 anos de Elis Regina, nada mais afinado do que essa letra em sua voz. Escute:

Colaboração: Fernando Vieira – curitibano e músico profissional, exercendo a profissão desde 1981. Tocou praticamente com todos os músicos e na maioria dos bares e hotéis da cidade. Morou na Europa, na Espanha e na Suíça, de 1986 a 1992, exercendo a profissão de músico. Pai e marido devoto, apaixonado pelos sentimentos, é também poeta e romancista.

Saiba mais: https://www.facebook.com/1261402419/videos/2439207300503

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Giseli Canto

Giseli Canto é Arte-educadora, cantora, roteirista, produtora, apaixonada pela música, pela família e pelos amigos, que considera sua segunda família e tudo que se refere ao poder transformador dessa arte. Ama uma boa conversa e está sempre aberta a novos caminhos. Seu olhar otimista para o ser humano faz de sua vida um mundo recheado de boas relações e experiências.

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2 pensamentos “MÚSICOS – PROFISSIONAIS LIBERAIS NO CENÁRIO ATUAL”

    1. Obrigada Sergio!
      Como jornalista, você já rodou essa cidade e sabe muito bem como é a vida de artista.
      Cair de pé é uma característica dos lutadores!
      Você tem na veia a música, é um lutador e entende sobre essas lutas.
      Abraço!

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