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Espetáculo “Igreja da Fran”, de Rafaela Azevedo, é cancelado em Curitiba e atriz denuncia censura

Apresentação que aconteceria na Ópera de Arame, em agosto, teve contrato encerrado após ingressos começarem a ser vendidos. Atriz afirma que cancelamento partiu da Prefeitura de Curitiba; Fundação Cultural nega participação na decisão.

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Foto: Divulgação

Por Vanessa Ricardo

Quem acompanha o trabalho da atriz Rafaela Azevedo foi surpreendido nesta semana com o anúncio do cancelamento do espetáculo Igreja da Fran, que seria apresentado no dia 23 de agosto, na Ópera de Arame, em Curitiba.

Segundo a artista, a produção recebeu a informação de que o contrato para a realização da apresentação havia sido encerrado, mesmo após a assinatura do acordo e o início da venda dos ingressos. De acordo com Rafaela, a justificativa apresentada foi que o espetáculo contrariaria “a moral e os bons costumes”.

Vale lembrar que, em 2025, a atriz apresentou o espetáculo King Kong Fran no mesmo espaço. O monólogo utiliza a figura circense da mulher-gorila para discutir sexualidade, patriarcado e os estereótipos atribuídos ao feminino. Em cena, a personagem Fran recria situações cotidianas vividas por mulheres, abordando temas como objetificação, violência, assédio, silenciamento e pressão estética.

Na terça-feira, Rafaela publicou em suas redes sociais que o novo espetáculo havia sido alvo de censura. Em entrevista ao Jornal A Cena, a atriz afirmou ter recebido a notícia do cancelamento com surpresa.

“Foi nos informado que a Ópera de Arame funciona por meio de uma concessão da Prefeitura de Curitiba e que a ordem de cancelamento da apresentação teria partido da administração municipal, sob a justificativa de que o espetáculo iria contra a moral e os bons costumes”, afirmou.

Procurada pela reportagem, a Fundação Cultural de Curitiba informou, por meio da assessoria de imprensa, que “o espetáculo em questão é uma iniciativa privada, sem qualquer vínculo com a Fundação Cultural de Curitiba. Dessa forma, eventual decisão sobre o cancelamento do evento cabe exclusivamente aos organizadores e demais responsáveis pela sua realização”.

Até o momento, não há confirmação oficial sobre quem determinou o cancelamento da apresentação. Diante da repercussão do caso, a vereadora Giorgia Prates protocolou, na quarta-feira (1º), um pedido de informações à Prefeitura de Curitiba para esclarecer de quem partiu a decisão. O prazo legal para resposta é de até 30 dias.

Em nota, a parlamentar afirmou:

“Quando ninguém assume a responsabilidade por uma decisão como essa, o que fica é a sensação de que a censura acontece sem que o censor mostre a própria cara. Cada um aponta para o outro, enquanto uma peça com contrato assinado e ingressos à venda simplesmente deixa de acontecer. Por isso protocolei um pedido de informações à Prefeitura de Curitiba. É preciso saber quem tomou essa decisão, quais foram os motivos e se houve, direta ou indiretamente, interferência do poder público. A liberdade de expressão e a liberdade artística não podem depender de pressões políticas, morais ou ideológicas. Curitiba já acumula episódios que levantam preocupações sobre a relação do poder público com a produção cultural. Quando artistas passam a temer que suas obras possam ser canceladas por seu conteúdo, não estamos diante de um problema individual, mas de um ambiente que ameaça um direito fundamental garantido pela Constituição.”

Igreja da Fran dá continuidade à pesquisa artística desenvolvida por Rafaela Azevedo e propõe uma reflexão sobre misoginia, hipocrisia e as estruturas de poder presentes na doutrinação religiosa. O espetáculo aborda temas como abuso da fé, violência de gênero e idolatria.

Desde a estreia de King Kong Fran, a atriz afirma conviver com críticas e ameaças, o que a levou, inclusive, a contratar segurança particular. Apesar disso, diz não se intimidar com os ataques, especialmente os que ocorrem nas redes sociais.

“Acho natural que exista essa reação de quem é alvo da minha crítica. E o alarde que esse pessoal faz na internet acaba sendo ótimo para o engajamento do trabalho”, declarou.

Durante a entrevista ao Jornal A Cena, Rafaela também afirmou que não desistiu de apresentar Igreja de Fran em Curitiba e que busca uma alternativa para levar o espetáculo à cidade. O solo estreou em São Paulo com todas as sessões esgotadas e já tem apresentações confirmadas no Rio de Janeiro, em setembro.

Até o fechamento desta reportagem, o Jornal A Cena tentou contato com a administração da Ópera de Arame para obter um posicionamento sobre o cancelamento do espetáculo. No entanto, as ligações realizadas para os telefones disponibilizados pelo espaço foram direcionadas à caixa postal, sem retorno até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto para manifestação.

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