Era uma outra vez: o livro de contos No Início de Adriana Griener

Por Tacy de Campos

Desde os primórdios do cristianismo, o flagelo feminino é aceito e perpetuado. É difícil acreditar nos horrores e abusos que nós mulheres passamos em tempos onde éramos o saco de pancada social socialmente aceito, representando todos os males cívicos e bíblicos que existiam. Mais difícil ainda mensurar os níveis de dor e medo que essas mulheres passaram e que ainda habitam nossa mente, corpo e espírito através dos tempos em cada persona “mulher” na sociedade. Crítica inteligente a esse mal atemporal, o livro “No início”, vencedor do Prêmio Paraná de Literatura, é mais do que um resgate do Antigo Testamento bíblico, mas uma releitura atraente para nossa pós-modernidade. É uma reviravolta da história, uma tangente bíblica para as almas castigadas e esperançosas. Uma obra que fala de amor e luta, que dá voz e vez, às primeiras mulheres da civilização cristã que nunca foram ouvidas ou devidamente apresentadas.

A autora carioca Adriana Griner, inspirada no capítulo inicial da Mímeses, do estudioso alemão Auerbach, recriou algumas dessas histórias milenares do Gênesis, colocando-as sob a condição da ótica feminina. Em linguagem contemporânea e leitura palatável, o envolvente “No inicio” leva-nos inevitavelmente à reflexão. São treze histórias contadas em forma de conto, estarrecedoras pela violenta e passiva realidade a qual a mulher foi obrigada a se submeter. Talvez exatamente por essa intimidade e objetividade proporcionada pelo gênero narrativo ‘conto’, o livro não nos permite fugir de suas páginas, ainda que nos fustigue e deixe os cabelos em pé. Obrigo-me a deixar aqui, sem escusas, minhas cáusticas e particulares impressões sobre esta curiosa e fascinante obra.

De largada, o conto “havah” aborda a ambição e insegurança divina, pois que o conhecimento e a temeridade só a deus podem pertencer. Trata-se de um deus com características tão humanas quanto as de suas criaturas. Cheio de inveja, o criador se utiliza da ignorância e ingenuidade de Eva e Adão para expulsá-los do Paraíso, sem jamais admitir sua intenção e covardia na incitação a comer a tal fruta, através da serpente. Já o conto “a mulher de shem”, remonta a história da Arca de Noé, através do olhar da mulher de um dos filhos de Noé, criticando a ética divina de expurgar o mal do mundo. A partir de um animal imaginário _ leucrota_, a leitura nos leva a possibilidade de julgar as decisões do deus que decide salvar Noah e sua família, sem considerar seu comportamento egoísta e preconceituoso com os semelhantes. Noah deixa claro que o amor entre iguais não é bem-vindo no mundo novo de seu deus, assim como as palavras de uma mulher pouco ou nada valem para àqueles homens surdos à sua sensibilidade.

Na história de “babel”, a autora novamente nos confronta com a persona divina e nos traz a versão dos fatos através da ótica de uma personagem fictícia, cujo o nome é homônimo ao título. A protagonista vê sua família e sociedade ruir, por conta do capricho de um deus ambicioso e inescrupuloso, que visava destruir a magnífica torre para se tornar inesquecível. Por fim, esse mesmo deus é flagrado por ela lamentando o tiro que saiu pela culatra: fracassou na empreitada e foi esquecido assim mesmo. A grande força do conto está na impressionante capacidade de comunicação da sociedade humana que, apesar da caótica ruína, consegue reconstruir-se e perpetuar-se incansavelmente.
Em “Sarai”, a crítica é ao machismo e novamente a impotência feminina. Esta mulher infeliz, estéril, negociada como um produto de troca para o faraó do Egito, traída, tratada como objeto “de todos”, sofreu inegavelmente. Quando finalmente engravidou, teve que entregar seu filho para o sacrifício, (castigo divino por sentir inveja e insegurança de sua rival Hagar). A saga de Sarai (que quer dizer ‘minha princesa’ em hebraico) é narrada por Griner em 3 capítulos _ verão, outono, inverno _ e deixa claro que a opressão masculina nunca se melindrou diante da dor do sexo oposto.
Algo ainda mais sinistro é abordado no conto parcialmente fictício de “as filhas de Lot”. O assim chamado Lot é um pai que para proteger os anjos mensageiros do senhor seu deus, oferece as próprias filhas como brinquedo sexual a forasteiros selvagens de Gomorra. Nojo, dor e desapontamento destroem a figura paterna diante da intenção do crime. A decisão de partir é irrefutável, mas elas são sensatas o suficiente para saber que precisam garantir a continuação de sua espécie. Vingança e sobrevivência as fazem embebedar o pai e possuí-lo. Sim, possuí-lo! Sem amor ou apego, apenas a necessidade do sêmen para gerar suas crias, tal como fazem os homens conosco para atender os seus caprichos lascivos. Conto polêmico, mas sobretudo impressionante diante da força infalível de sobrevivência humana. A mesma coragem teve “a mulher de Lot”, onde o abuso de poder, a moral e a ética divina são novamente postos à prova pela narradora. A matriarca acompanha o desenrolar de Lot na obsessão por seu deus egoísta e mesquinho. Cego de raiva e intolerância, ameaça-lhe um tapa. Este gesto, somado ao ultrajante oferecimento sexual de suas filhas no lugar dos anjos, para ela significou o fim. Desgostosa da vida, em meio a fuga do incêndio de Sodoma, a mulher se torna pedra e morre.

Por outro lado, Griner também nos mostra que parte da força de uma mulher, para época, era sua ardilosidade, e saber fazer uso dessa habilidade quando necessário. Em “Rivka”, (ou Rebeca), ela remonta o clássico Esaú e Jacó (história dos irmãos que se odeiam, no original Esav e Yakov) e defende que foi por amor que Rikva, mãe de Esav, interferiu no curso da tradição e privilegiou o filho mais novo Yakov, plantando o ódio entre as crias e o repúdio deles sobre ela. Mais que isso, a autora nos faz questionar o amor materno, que renuncia o amor de seus filhos em favor de regras políticas pré-estabelecidas e que no fim, não poupou a vida deles.

No conto “lea e rachel e zilpa e bila” vemos como o pensamento da procriação era dominante entre as comunidades antigas. Todas essas quatro mulheres deitaram-se com Yakov, umas apaixonadas, outras apenas para engravidar. Rachel, favorita de Yakov, só conseguiu engravidar depois de muito tempo e morreu durante a segunda gestação. A competição entre elas era enorme. Ao fim do conto, é de se pesar a fragilidade da vida frente ao desgaste das circunstâncias que estamos sujeitas a passar, principalmente quando a mulher era normalizada como um mero objeto de reprodução. Para Yakov, após a morte de Rachel, restou-lhe cair em depressão e perder-se no deserto, como é contado no penúltimo conto do livro.

“Dinah”, é a história de uma mulher que foi violentada e teve de se casar com seu violentador. No Gênesis original, Dinah aparece como mera espectadora de sua própria história, mas graças à releitura de Griner, podemos conhecer seus pensamentos sobre a agressão, quem foi o agressor Shchem e a vingança do pai e dos irmãos contra ele. A velha retro alimentação infinita de violência, motivada mais pela política e moral, que preservação à integridade física de Dinah.
Em “Bila”, temos a abordagem do amor sem culpa entre Reuven, primogênito de Yakov com Lea, e Bila. Eles se deitam e se amam inevitavelmente. Este aparente pecado do filho com seu pai é rebatido por Bila, que gentilmente lhe mostra que amor não pode conter arrependimentos. É impossível não perceber que é através da fala desta personagem que a autora ponteia direta comunicação com o leitor.

Por fim, temos a história de “Tamar”, emblemática. Para a autora, é a primeira história em que uma mulher toma o destino em suas mãos. Tamar é completamente consciente de si: “eu não preciso de mais um homem em minha cama. Tudo o que eu preciso é alguém que gere um filho em mim [..]”. Mulher sofrida de dois maridos cruéis e hostis, ela se empodera e vai a luta: veste uma túnica azul em lugar do preto luto, sai no deserto, passa-se por uma prostituta e deita-se com Yehuda, numa objetiva busca por um sêmen em seu ventre. Ele, ao descobrir quem era a mulher com quem deitara, ameaça jogá-la na fogueira. Ela o enfrenta, devolve-lhe o pagamento do ato sexual e sua absoluta firmeza em ser mãe independente o põe em seu lugar. Ela não quer um pai, somente um filho e enfim ele a deixa em paz. A realização plena de Tamar é viver sua maternidade solitariamente.
Sem dúvidas, “no início” é uma leitura necessária em nossos tempos pós-modernos. O flerte com ideais feministas e lutas políticas atuais, entremeada pela poesia durante toda a prosa do texto, é feito com leveza e, por vezes, com irreverência. A grande sacada desses contos é a possibilidade. As coisas não foram exatamente assim, mas poderiam ter sido. E tudo seria diferente hoje se alguém tivesse permitido que as vozes destas mulheres tivessem se manifestado tanto tempo atrás.

Tacy de Campos

Atriz, cantora e compositora,Tacy de Campos ficou conhecida nacionalmente por seu
trabalho como protagonista de Cássia Eller O Musical (2014), Rock in Rio (2015), Especial de Natal do Fantástico com Nando Reis (2016) e o Versões do Canal Bis (2017). Seu primeiro álbum “O Manifesto da Canção” estreou no quadro
“Ding Dong” do Domingão do Faustão e com o single “Pra Você Saber” que passa na Multishow. Desde o início da pandemia, Tacy inciou a produção seu segundo álbum “Quarto Mundo” que sai em 2022. Dia 07 de outubro lança o single “Nosso Amor Vai Virar Uma Árvore”

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