Vidas invisíveis, a história das que poderiam ser e não foram

“Havia a convicção de que Eurídice só podia ser levada a sério quando dizia que o jantar estava na mesa, ou que era hora de acordar para a escola. Seus projetos estavam confinados ao universo daquela casa.” A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, Martha Batalha

Por Elinéia Denis

“Mãe, onde está minha mochila?”, “Mãe, tem comida?”, “Cadê minha carteira?”, “Passa essa blusa para mim?”.

O ano é 1940, mas essas frases são ditas todos os dias em todos os lugares do mundo, em diversas línguas e não tem problema nenhum em dizê-las. Mas e quando a mãe, a responsável, a vó, a tutora, a companheira só se torna visível quando precisamos dela? A Vida Invisível de Eurídice Gusmão é um livro sobre a invisibilidade das mulheres, em diversos papéis. É sobre serem notadas apenas quando precisam de uma ideia, uma solução, uma roupa passada ou uma comida quentinha, porém suas individualidades nunca importam. 

Somos ótimas, mas não somos vistas para aquela ‘promoção no trabalho’, nossos projetos são incríveis e mesmo assim não importam no momento da negociação do salário, no momento de pleitear a vaga. Os anseios e necessidades não importam. O livro é sobre a vida que as mulheres invisíveis daquela época não tiveram, vamos nos lembrar das nossas avós, mães, tias e das que hoje ainda tem vidas invisíveis, que foram tomadas por desejos e vontade de outros. A obra de Martha Batalha é sem dúvida uma recomendação necessária, ela já pode ser considerada um clássico, é uma narrativa muito inteligente e sua personagem principal é consistente, envolvente, conhecida de todos nós, autorretrato de muitas mulheres. Como Ana Barbosa bem descreveu em sua crítica, Eurídice Gusmão vive em todas nós.

Eu li esse livro e sofri, eu criei uma conexão tão grande com Eurídice (com Ana, com Guida, com Das Dores e Filomena, ah esperem até conhecer ela) que em tantos momentos quis chamá-la num canto e dizer ‘vem! Vamos tentar mudar isso aí, tem sonhos aí dentro’. Mas nem na realidade de hoje, 2021, isso funciona. Há um pano de fundo maior e uma necessidade soterrada que mexe com a estrutura social construída por homens e mulheres.

Eurídice é uma mulher de classe média, culta, ela está na cidade do Rio de Janeiro, década de 40, criada como muitas para ser uma boa esposa, cada uma teve sua visibilidade negada, apagada em maior ou menor grau. Eu até ousaria dizer, que mulher não esteve nessa situação? Em 1940 Chaplin lançava o filme “O grande ditador”, explodia a Segunda Guerra mundial, o ano em que a Olimpíada de Tokio foi cancelada por causa da guerra (e 2020 foi adiada por conta de uma pandemia, veja bem!), Carmem Miranda iniciava sua carreira nos Estados Unidos, o Brasil vivia a Era Getúlio Vargas… é importante entender o contexto e as dimensões do momento e fazer um sóbrio comparativo sobre ‘se e quanto evoluímos’. 

Olhar para os movimentos de direitos, para as lutas feministas, para a diversidade de feminismos pode nos ajudar na leitura do livro e na compreensão dos contextos de Eurídice, de Guida e de Das dores (é preciso ler o livro para entender essa parte). Há um padrão na invisibilidade que muitas das nossas mães, tias e avós passaram e passam, há um padrão também na hora de romper a bolha e por isso eu considero a conversa e o acesso ao tema tão necessário. 

1940 é considerado o ano em que o papel da mulher começa a mudar para a sociedade, o mercado de trabalho se abre (se abre? Ah tá!) para as mulheres. Céli Pinto (autora do livro Uma história do feminismo no Brasil) nos presenteia com a seguinte informação: 

… a luta das mulheres cultas e das classes dominantes se dava a partir da luta pelo voto, porque elas encontravam respaldo e respeito entre os membros da elite e da conservadora classe política brasileira. Portanto, era “um feminismo bem-comportado, na medida em que agia no limite da pressão intraclasse, não buscando agregar nenhum tipo de tema que pudesse pôr em xeque as bases da organização das relações patriarcais” (PINTO, 2003, p. 26).

Mais um ponto que eu gostaria de deixar para você apreciar durante a leitura desse livro, que é leve, fácil e rápido de ler, em 1937 o Plano Nacional de Educação previa a criação de um ensino específico para as mulheres, o “ensino doméstico”, mais tarde chamado de “educação feminina”, que tinha como objetivo preparar para a vida de dona de casa e incentivar sua “missão de esposa, de mãe, de filha, de irmã, de educadora, o seu reinado no lar e o seu papel na escola, a sua ação nas obras sociais de caridade”. Eu sei que nem todo mundo gosta de ficar lendo contexto histórico, mas ele nos ajuda a olhar para a história de Eurídice e de sua criação, a escola que ela frequentou e as infelicidades de não ser o que poderia ter sido.

O livro também deixa outras violências de gênero e marginalização bem expostas, eu prometo que vale cada página. Em 2017, eu ganhei como presente de aniversário de um grande amigo, ele disse “você precisa conhecer a Martha Batalha” e ele sabia do que estava falando. Eu precisava! Martha é recifense, era uma estreante no mundo da literatura e chegou com ‘os dois pés no peito’, com um livro muito instigante, sucesso internacional que mais para frente virou filme… Eu espero ter despertado, talvez de um jeito confuso, o seu desejo de leitura. É um livro que dilacera e transborda, que tem humor e tem lágrima… Ah, que livro! 

P.S. Comece apreciando a capa e o que ela te diz sobre essa viagem!

Vamos papear mais sobre tudo isso? Esse tema ressoa por aí?

Com afeto,

 

 

Elinéia Denis

Curiosa, inquieta e feminista. Especialista em ambientes digitais com amplo conhecimento em branding, posicionamento e reposicionamento de marca. Conta com mais de 15 anos de experiência profissional, é mentora de Tendências e Marketing e atua na gestão da Comunicação e Marketing no mercado corporativo.

@elineiadenis

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