COMO A FALTA DE EQUILÍBRIO TEMPORAL PODE AFETAR A LITERATURA

Por Igor Horbach

Uma coisa que precisamos concordar que faz parte dessa geração atual é a velocidade alta em todos os sentidos. A tecnologia avançando tão rapidamente trouxe o mesmo movimento para os moldes da sociedade contemporânea e agora todos somos obrigados a nos manter constantes numa velocidade muito mais alta do que antigamente. 

Um fato é que esse movimento se acentuou na última década e agora na pandemia, onde nossos únicos meios de comunicação são telas e teclados, se tornou praticamente impossível não aderir a esse modelo de vida. Os streamings também estão aí para influenciar neste movimento, uma vez que agora não podemos e nem “queremos” esperar até semana que vem para continuar nossa série. Um produto audiovisual seriado que leva de 1 a 2 anos para ser feito e antigamente era consumido em praticamente 4 meses, agora leva poucas horas.

Toda essa cinesia descontrolada está afetando fortemente os movimentos artísticos de forma geral, porém com especificidade da literatura. Livros são escritos para serem apreciados, sentidos, reflexivos, isto é, absorvido com o tempo e não mastigado em horas e guardado na prateleira como acontece fortemente nos dias de hoje. E aqui não me refiro a velocidade de leitura de cada um, que varia individualmente e de obra para obra, mas a maneira em que pouco assimilamos as obras. As análises críticas e reflexões pessoais tão ricas que eram feitas com bastante precisão e importância até pouco tempo atrás agora não passam de resumos rasos. 

Afinal de contas, quem seria o culpado? Os vestibulares com suas listas enormes de livros e conteúdos? Os blogueiros que se dedicam integralmente à arte da leitura e que por isso conseguem ler até 5 livros por semana? De fato não existe um culpado aparente. Trata-se de um processo evolutivo da nossa maneira de agir, pensar, viver e consumir as coisas ao nosso redor. Não está presente apenas na literatura, mas em todas as áreas existentes. Todo ano as marcas precisam lançar modelos de celulares novos, por exemplo, para atender um público cada vez mais exigente, rápido e consequentemente, raso. 

Não há como negar que estamos saindo da imensidão das coisas para a superfície da vida. Aos poucos deixamos as razões e emoções para vivermos apenas o agora. Fato é que nas redes sociais um post de semana passada já é considerado ultrapassado, enquanto que esse termo era aplicado há alguns anos somente em coisas antes dos anos 2000. Em 20 anos nós avançamos muito em diversos aspectos, contudo perdemos um dom inigualável: o dom da absorção. A cada dia que passa deixamos de lado os sentidos originais de cada coisa, bem como a de cada poesia, prosa, escultura, pintura, música e por aí vai, para nos tornarmos apenas uma esponja verde e amarela de pia cheia de água suja e restos de comida. 

Infelizmente, é como se estivéssemos atirando para cima a 90º. A bala sobe, mas uma hora vai descer. A literatura nesse caso, vem sendo exilada aos poucos e se transformando apenas em uma faceta: a audiovisual. O sucesso dos streamings é tanto que o movimento é inverso. As pessoas conhecem os livros pelas adaptações e não o contrário, como deveria ser. Em pleno 2021, qualquer livro que faça uma venda excelente nos Estados Unidos vai parar nas telas de tv do mundo inteiro com uma adaptação muitas vezes infiel e cheia de erros na comunicação social. É refletindo sobre isso que paro para pensar, até quando teremos ainda livros sendo consumidos e a partir de quando que teremos apenas uma vida versão Wall-e? 

As pessoas na década atual não se preocupam com as riquezas das palavras descritas em um livro repleto de críticas, criatividade e principalmente, de papel social. Querem no máximo um resumo de whatsapp para saber o que acontece naquele exato momento e pronto, vida que segue. Isso tem nos tornado seres humanos inertes, pequenos, sem sentido, rasos e ridículos. Valorizamos muito mais um atualização do ios do que quatrocentas páginas de conhecimento. 

Igor Horbach

É autor, ator, dramaturgo e produtor brasileiro. Nascido em Tangará da Serra – MT, publicou seu primeiro livro aos 14 anos e o segundo aos 16. Em 2017 se mudou para Curitiba onde iniciou sua carreira de ator, produtor e dramaturgo. Em 2019, produziu e dirigiu a serie Dislike. Em 2020 publicou seu drama de estreia, Cartas para Jack. Em 2021 lançou a série de contos intitulada Projeto Insônia.

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