É PECADO LER LIVROS MUNDANOS?

Por Igor Horbach

Que a sociedade adora denominar uma coisa como pecado a gente já sabe, mas afinal de contas, é pecado ler livros mundanos? O que é um livro mundano? O que é pecado e desde quando esse conceito existe?

Bom, antes de respondermos a essas perguntas precisamos levar em conta o surgimento do termo ‘pecado’ na sociedade. A palavra PECADO como a conhecemos vem do Latim Peccatum, derivado do verbo Pecco, que significa ‘dar um passo em falso, tropeçar’. E os primeiros indícios da palavra como a conhecemos, isto é, uma forma de controle do meio social, é nas primeiras versões da sagrada escritura das igrejas ocidentais, na idade das trevas (quando a igreja católica dominou a Europa). Quando isso acaba seguindo para a grande massa da sociedade, começamos a ter o Livre Arbítrio negado e julgado por aqueles que dizem descrever as vontades de Deus.

Indo um pouco mais longe na história, carecemos de entender que a bíblia em sua versão original é um livro escrito em uma determinada época histórica e que reproduz os pensamentos, costumes e culturas de uma sociedade limitada unicamente em um pedaço do planeta. Isto é, não se trata de uma verdade absoluta, pois, é humanamente impossível a existência de uma veracidade mundial.

O conceito de pecado provém de um discurso político de poder sobre a sociedade. Michel Foucault diz que uma esfera de poder, cria um discurso de poder. Ou seja, a esfera religiosa, cria o discurso religioso, que logo, vai nos dizer o que é pecado e o que não é pecado.

Para entendermos melhor os caminhos sociopolíticos percorridos pela esfera da igreja na criação do conceito debatido, vamos passar rapidamente por alguns pecados capitais:

A Avareza é considerada um pecado para que não haja acúmulo de monopólio e consequentemente inflação e desigualdade. Só para lembrar que o Edir Macedo (fundador da Igreja Universal do Poder de Deus) acumulou em 2015, segundo a Forbes, 1 bilhão de dólares.

A Gula é listada como um pecado porque se você comer muito, outras pessoas morrem de fome. Isso foi escrito em uma época em que não se tinha meios de conservação de alimentos. Segundo a ONU em 2019, cerca de 820 milhões de pessoas ao redor do planeta sofreram com a fome, contra 18 milhões de milionários que em mais de 5 gerações não saberão jamais o que é sentir a falta de um alimento.

Se a Preguiça não fosse considerada um pecado, boa parte das pessoas não iriam querer trabalhar e aceitar as condições subumanas e de subalternos em que são obrigados a ficarem. Logo, não teríamos aqueles 18 milhões de pessoas citados ali.

Volto então a citação de Foucault refletindo que as posições de poder como a igreja, podem nortear o que é certo e errado. Contudo, talvez o mais importante, seja entender que os conceitos culturais de um grupo social não são os mesmos de um outro determinado grupo.

Uma ideia de pecado para uma cultura ocidental não pode ser aplicada em uma sociedade hinduísta, por exemplo. O grande problema da igreja e do conceito de pecado está na forma legislativa em que ela é aplicada na prática. É uma maneira de domínio, antidemocrática, uma vez que a vontade de escolha é interrompida por uma ideia de julgamento e sofrimento eterno do Deus todo poderoso.

Sendo assim, as perguntas que devemos fazer na verdade são:

“É pecado para quem?”, “O pecado é uma coisa criada ou dita por um ser celestial?” “Se foi criada, a lista de pecados aumentou ao passar dos anos?

O próprio preconceito homofóbico das escrituras bíblicas é prova disso. A palavra HOMOSSEXUALISMO como conhecemos hoje em dia só integrou a sagrada escritura no século XX quando o termo surgiu na sociedade.
É nesse momento que o assunto se converge com o tema central da coluna. A palavra mundano remete a algo humano, portanto, aos olhos sagrados, algo ou alguém inferior. Se é inferior, não pode ser notado e valorizado por Deus e seus fiéis. Mas afinal, o mundano é um pecado?

Novamente retorno a uma das perguntas chaves do texto:
Pecado para quem? É nesse ponto que precisamos pensar que a bíblia não pode ser vista de outra forma senão como um livro que reproduz uma cultura de massa de uma sociedade histórica, pois ela não possui comprovação científica. Todos os seus discursos não são empíricos e seus conhecimentos não são epistemológicos. Portanto, ela não pode dizer o que é certo e errado.

Mais uma vez, recordemos o pensamento de Foucault. O grande problema está em acharmos que um livro, como outro qualquer, pode nortear nossas decisões, vontades e portanto, nossos destinos, a ponto de impedir todo e qualquer tipo de evolução psicossocial.
Quando entendemos todas essas reflexões levantadas anteriormente o conceito de Mundano cai por terra, o que torna o título da coluna redundante. Portanto, pensemos: “É pecado ler livros?”. Outra vez, compreendendo o tema, a palavra pecado também sai do vocabulário e a única pergunta que nos resta é: “Ler livros?”.

Rita Von Hunting traz em sua reflexão sobre o tema do pecado uma citação de Foucault que também gostaria de aplicar aqui: “a intenção é mostrar às pessoas que elas são muito mais livres do que pensam. Que elas tomam por verdadeiro, por evidentes, certos temas fabricados em momentos particulares da história. E que essa pretensa evidência pode ser criada ou destruída.”

Referências:

“É pecado ser LGBT? – Tempero Drag (Youtube)”

Igor Horbach

É autor, ator, dramaturgo e produtor brasileiro. Nascido em Tangará da Serra – MT, publicou seu primeiro livro aos 14 anos e o segundo aos 16. Em 2017 se mudou para Curitiba onde iniciou sua carreira de ator, produtor e dramaturgo. Em 2019, produziu e dirigiu a serie Dislike. Em 2020 publicou seu drama de estreia, Cartas para Jack. Em 2021 lançou a série de contos intitulada Projeto Insônia.

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