Teatro

A vida dos corpos de “A Cura”

Por Igor Horbach

O Festival de Teatro de Curitiba 2022 começou e com ele as estreias nacionais. No último dia 30, uma das maiores -se não, a maior – coreografas do Brasil estreiou “A CURA” no Guaírao, Deborah Colker. Sendo a minha primeira experiência de algo autoral da companhia (não dá coreografa), a emoção de ver corpos se conectando de maneira tão profunda e “sem máscara” (símbolo da pandemia), a que tememos até hoje, foi exuberante.

Cura vem para nos dizer a conexão de nossos anseios com a vitalidade corporal. É de longe uma essência que ao mesmo tempo que impressiona, nos traz aflição. Cenários que exigem ao máximo do dançarino e que prosperam quando o assunto é emoção.

Colker prioriza o pedido de socorro individual e coletivo de um mundo que desaba aos nossos pés enquanto atados gritamos, choramos ou ignoramos. Vai dá Bíblia ao socorro e das grandes muralhas ao alívio carnal e religioso. Transmuta entre as linguagens das crenças humanas com maestria e significância.

A medida que avança na dramaturgia do corpo, o elenco se liga ao olhar e a presença, sem a necessidade – é claro – da palavra dita, apenas pela palavra sentida. Os corpos dos que pedem pela cura se transcendem e se tornam sintonia.

Os figurinos se confundem com peles, com camadas extras daquilo que nos protege. A essência de a Cura está em uma instangibilidade vital, permitindo a agonia da doença quando uma plataforma se torna a única coisa que lhes restam: o escape antes da queda.

A trilha sonora de A CURA nós afoga nos sentimentos que vemos explodir dos corpos humanos em nossa frente. Conta a história pela melodia e reafirma o medo e angústia de uma dor desconhecida e eterna como a morte e a negação da cura, símbolo do perdão. Até mesmo os momentos de silêncio são preenchidos por música, essa não instrumentada, mas tocada pela vida fina dos corpos de Colker.

Enquanto os primeiros 2 atos são carregados de uma agonizante jornada pelo pedido de socorro daqueles que ainda sonham pela vida, o último (3° ato) nos transfere para um sentimento leve da incoerência física momental que me faz pensar: seria a felicidade eterna de uma cura suplicada ou o sorriso final que a vida exprime no momento da rendição fatal?

A Cura de Deborah Colker é o avivamento mais simples e puro da dor da vida ao mesmo tempo que se torna complexo na sua profundidade cênica e significativa. Mais uma vez, a diretora surpreende e prova que faz jus a posição em que ocupa no patamar de reconhecimento brasileiro. Espero ter a oportunidade de assistir novamente um espetáculo tão singelo e dolorido na mesma dosagem que suga os anseios da plateia e os eleva ao estágio: a cura.

Igor Horbach

É autor, ator, dramaturgo e produtor brasileiro. Nascido em Tangará da Serra – MT, publicou seu primeiro livro aos 14 anos e o segundo aos 16. Em 2017 se mudou para Curitiba onde iniciou sua carreira de ator, produtor e dramaturgo. Em 2019, produziu e dirigiu a serie Dislike. Em 2020 publicou seu drama de estreia, Cartas para Jack. Em 2021 lançou a série de contos intitulada Projeto Insônia.

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