Crítica Teatral
Um espetáculo de quebrar o coração
Saí juntando os caquinhos depois de assistir a “Lucrécia”
Foto: André Tezza
Por Vanessa Ricardo
Foi assim que saí do teatro, tentando juntar os caquinhos. Lucrécia, novo trabalho da trupe Ave Lola, mostra os últimos momentos de uma artista centenária antes de ser levada para um lar de idosos.
Ao se negar a ir, ela se esconde dentro do armário. É nesse espaço que revisita suas memórias, delírios, desejos, saudades e fragmentos de uma vida. O novo trabalho da trupe curitibana, que fez uma curta temporada em seu próprio espaço, na Avenida Marechal Deodoro, é resultado de uma pesquisa sobre a manipulação de marionetes híbridas na cena contemporânea.
O processo de criação contou com uma residência artística na Bélgica, com as marionetistas Tita Iacobelli e Natacha Belova, além de uma residência em Curitiba com o artista chileno Jaime Lorca. O trabalho é tão bem feito que Lucrécia realmente toma vida. É muito bonita a manipulação feita pela atriz Helena Tezza. Elas são uma só. E isso torna o espetáculo ainda mais poético: passado e futuro juntos, dividindo o mesmo corpo em cena.
Com direção de Ana Rosa Genari Tezza, o espetáculo traz diversas marcações. É um espetáculo de diretor, daqueles em que as imagens também contam a história. E Ana Rosa cria belíssimas imagens, como na cena em que Helena Tezza e Wenry Bueno coreografam um passeio, um nado no fundo do mar. Destaco aqui a sinergia entre os dois atores. É muito bonito ver os dois juntos em cena.
A trilha sonora, feita ao vivo pelos músicos Arthur Jaime e Breno Monte Serrat, cria mais do que música: cria uma atmosfera para a história que se desenrola diante de nossos olhos. Essa atmosfera e algumas escolhas da diretora me remeteram, em alguns momentos, ao cinema mudo e ao Expressionismo alemão, que, resumidamente, buscava mostrar a angústia da existência humana por meio de imagens obscuras.
O espetáculo não tem nada de obscuro, mas tem um peso. O peso da chegada do fim.
Eu adorei os respiros. Wenry faz isso muito bem na cena em que se torna um quase palhaço, caminhando da esquerda para a direita do palco, brincando. Ou na “passagem de tempo”, quando o cenário é empurrado por todo o elenco, inclusive pelos músicos. Enquanto isso, na banheira, fumando e com pepinos nos olhos, está Lucrécia. São momentos que aliviam um pouco a tensão, mas, mesmo com esses respiros, o peso do fim continua.
Em uma resenha, nunca colocamos aquilo que o espetáculo pode gerar no público. Mas fiquei pensando o tempo todo no que sentiria uma pessoa de 60 ou 70 anos ao assistir a Lucrécia. Digo isso porque existe uma escolha muito marcada de retratar a velhice pela tristeza: a solidão, a doença, a perda da memória, a sensação de abandono.
E talvez seja justamente aí que o espetáculo mais me incomode, no melhor sentido da palavra. Porque, ao falar sobre o fim da vida, Lucrécia também nos coloca diante da forma como enxergamos a velhice. Existe beleza nessas memórias, nesses desejos e nesses delírios, mas existe também uma visão muito dolorosa desse momento da existência.
Saí do teatro com o coração quebrado. Talvez porque, no fim, não seja apenas sobre Lucrécia. É sobre o medo que todos nós temos de perder nossas memórias, nossos desejos, nossa autonomia. E sobre o que fazemos com aqueles que já viveram uma vida inteira quando decidimos que é hora de colocá-los em algum lugar.
Talvez por isso eu tenha saído tentando juntar os caquinhos.

