Interaja conosco

Rio de Janeiro

“Revolução na América do Sul”, clássico de Augusto Boal, ganha nova montagem no Rio de Janeiro

Espetáculo dirigido por Wellington Fagner atualiza obra escrita nos anos 1960 para discutir precarização do trabalho, desigualdade e “uberização”

Publicado

em

Foto: João Duarte

Por redação

Mais de seis décadas depois de sua estreia no Teatro de Arena, em São Paulo, “Revolução na América do Sul”, de Augusto Boal (1931-2009), volta à cena em uma nova montagem. Considerada uma obra fundamental para a consolidação do teatro épico brasileiro, a peça ganha direção de Wellington Fagner e estabelece um diálogo entre o contexto político e social dos anos 1960 e questões que permanecem presentes, como a desigualdade, a precarização do trabalho e a chamada “uberização”.

Depois de circular por diferentes cidades do Rio de Janeiro e por Portugal, o espetáculo estreia temporada no Teatro Poeirinha, no Rio de Janeiro, entre 8 de setembro e 21 de outubro. As apresentações acontecem às terças e quartas-feiras, às 20h. A realização é do Instituto Augusto Boal.

A montagem começou a ser construída em 2019, quando a psicanalista Cecília Boal, viúva do dramaturgo e responsável pelo instituto que preserva e difunde seu legado, assistiu a uma leitura da peça dirigida por Fagner. Entre os presentes estava o diretor Aderbal Freire-Filho, que manifestou interesse em levar o trabalho ao Teatro Poeira.

A pandemia, porém, alterou o percurso da produção. A estreia aconteceu inicialmente em formato on-line, resultando em uma indicação ao 16º Prêmio APTR, na categoria Jovem Talento-Elenco. Com a retomada das atividades presenciais, a peça passou a circular por cidades do Rio de Janeiro e também por Portugal, até chegar à atual temporada no Poeirinha.

Um operário diante das engrenagens do poder

Escrita no contexto do Seminário de Dramaturgia do Teatro de Arena, em 1960, “Revolução na América do Sul” coloca um trabalhador no centro da narrativa e aborda a luta de classes a partir de uma linguagem marcada pela sátira, pela caricatura e pelo humor.

A história acompanha José da Silva, operário e representante do povo, em sua busca por uma solução para a fome. Ao longo da trajetória, o personagem se depara com diferentes figuras e situações que expõem as contradições sociais e políticas do país.

Na montagem atual, o percurso de José da Silva continua revelando mecanismos de exploração e desigualdade, mas ganha novas referências. A precarização das relações de trabalho e a “uberização” aparecem como manifestações contemporâneas de problemas que já estavam no centro das preocupações de Boal.

“A montagem busca atualizar o clássico de Boal entendendo que, embora o texto original seja datado em seu contexto histórico, a encenação e as dores da classe trabalhadora permanecem urgentes”, afirma Wellington Fagner.

Para o diretor, a linguagem escolhida mantém a dimensão crítica da obra por meio de recursos populares. “Na direção, aposto em recursos cômicos, paródicos e musicais para tratar de temas trágicos, gerando uma reflexão crítica por meio do humor e da estética popular”, explica.

A encenação também incorpora elementos do teatro de revista, como cenas de passagem e paródias políticas. Os personagens são construídos como tipos sociais, e não a partir de uma perspectiva psicológica realista.

Um clássico que ainda provoca o presente

Para Cecília Boal, a origem da peça está diretamente ligada ao projeto de construção de uma dramaturgia brasileira defendido por Augusto Boal. Segundo ela, o estímulo à criação de textos nacionais já carregava uma dimensão política em um período em que predominavam nos palcos brasileiros obras estrangeiras.

Mais de 60 anos depois, a permanência do texto está justamente na possibilidade de estabelecer novas relações com a realidade brasileira.

“Eu me pergunto hoje, no contexto atual, o que o Boal diria. O que ele diz nessa peça ainda é verdade”, afirma Cecília.

O ator Junior Melo também identifica uma continuidade entre as questões apresentadas por Boal e os conflitos do presente. Para ele, ainda que a configuração da classe trabalhadora tenha mudado desde a década de 1960, as contradições estruturais permanecem.

“Este texto é um clássico da dramaturgia política brasileira e, como todo clássico, está sujeito a novas temporalidades. Boal é nosso Shakespeare com a língua dos três ‘P’ – popular, político e poético”, define o ator.

A nova montagem procura, assim, não transformar “Revolução na América do Sul” em uma peça de época, mas recolocá-la em circulação para que suas perguntas encontrem o público de hoje. O humor, a música e a caricatura política funcionam como ferramentas para tratar de temas que continuam atravessando a vida social brasileira.

Augusto Boal

Augusto Boal foi um dos principais nomes da dramaturgia e do teatro político brasileiro. Sua trajetória começou no Teatro de Arena e se estendeu por diferentes experiências de criação teatral, até a formulação do Teatro do Oprimido, método que alcançou projeção internacional.

Seu trabalho buscou construir uma linguagem teatral relacionada à realidade brasileira e latino-americana, compreendendo o teatro não apenas como espaço de representação, mas também como instrumento de reflexão e transformação social.

Autor de diversas obras publicadas em diferentes idiomas, Boal recebeu ao longo da carreira diversos prêmios e homenagens. Seu legado permanece associado à investigação das relações entre teatro, política e sociedade.

Serviço

Revolução na América do Sul
Teatro Poeirinha – Rua São João Batista, 104, Botafogo, Rio de Janeiro
De 8 de setembro a 21 de outubro de 2026
Terças e quartas-feiras, às 20h
Ingressos: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia)
Vendas: Sympla
Duração: 100 minutos
Classificação: 12 anos
Instagram: @revolucaonaamericadosul

Mais informações sobre Augusto Boal: Instituto Augusto Boal

Seja nosso parceiro2

Megaidea