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Crítica Teatral

As irmãs Pereira

Com humor delicado e atuações em sintonia, espetáculo transforma o luto em uma reflexão afetuosa sobre família, memória e os conflitos que atravessam a vida

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em

Por Leonardo Talarico

As “Irmãs Pereira”, conforme bem ressalta o programa do espetáculo, surge como um pedido da atriz Guida Vianna a Pedro Brício em comemoração aos seus cinquenta anos de Teatro. 

Trata-se de uma comédia sui generis sobre o luto decorrente da morte da mãe. Três irmãs muito peculiares encontram-se em um apartamento e destilam inúmeras afetividades (sentimentos) decorrentes da vida atravessada. Tudo sob a presença física das cinzas materna. O destino dos restos mortais (Rio de Janeiro x Lisboa) estabelece o marco de conflitos excêntricos entre as personagens. 

A competente dramaturgia de Pedro Brício estabelece claras distinções entre as personagens, mas as reúne no amor e no propósito. As divergências (corriqueiras e dramáticas)apresentam-se sem tintas carregadas. O grande mérito da obra é a despretensão. 

Pedro entrega pulsação dramatúrgica por meio de repetições,dinâmicas de texto, ruptura de expectativas e diálogos ágeispara deslizar sua dramaturgia no SESC COPACABANA com fatos e símbolos capazes de atingir a plateia nos seus mais diversos processos de identificação. 

A direção de Pedro Brício e Alcemar Vieira decide deixar o texto falar nos momentos contundentes sem pesar nas interpretações e caminha a obra pelo humor destinado à reflexão e diversão. A direção é leve, escorreita, estabelece propósitos claros às personagens, facilita a compreensão da história sem maiores subjetividades e evita angústia à plateia. 

O espetáculo possui unidade artística, pois todos os saberes teatrais envolvidos estão coadunados com essa pretensão solar dos diretores. 

A direção de movimento de Raquel Karro é bem utilizada na arena e oferece a todos a oportunidade de assistir ao desenvolvimento da história prima facie. Apenas por honestidade intelectual com o meu público e leitor, poderia haver mais “desaparecimentos” cênicos. Existem entradas esaídas de coxia repetidas para uma personagem virar assunto entre as outras duas irmãs. Mas isso é linguagem. As movimentações das atrizes não ocorrem ao acaso; promovem diálogo, equilíbrio e aproveitamento do espaço.

O cenário de Marieta Spada é utilitário, inventivo, afetivo e repleto de referências simbólicas. A utilização das poltronas públicas como assentos aéreos é deveras interessante. A reorganização do mobiliário também possui valor de linguagem. 

A trilha sonora de Jonas Sá e Pedro Mibielli auxilia o espírito de leveza almejada. Os figurinos e adereços de Marcelo Olinto possuem bons cortes, representam um conjunto utilitário, estético e facilitam à compreensão singela das personagens. Destaque para o figurino base de Clarisse Derzié e o figurino da freira. 

O desenho de luz é bem elegante, pois mescla abertura de luzes para abranger as três atrizes em cena com recortes mais dramáticos. Meu único lamento é cada vez mais constatar praticamente todos os Teatros cederem seus grids à LUZ LED. Entendo perfeitamente as razões econômicas por detrás das escolhas, mas é inegável a diferença da luz halógena bem gelatinada e a luz de LED lavada. Inegável não ser o LED adequado à pele humana. Mas é um desabafo genérico e não pontuação referente ao espetáculo e Teatro. 

As interpretações de Guida Vianna, Clarisse Derzié Luz e Raquel Rocha foram deixadas por último por razão do espetáculo ser nitidamente uma obra de “atrizes”. Pedro Brício também possui essa generosidade como autor. Tudo é posto para o desfrute das competentes atrizes citadas. Cada atriz caminha para a sua própria excentricidade e todas se encontram no afeto.

A harmonia presente nas interpretações deixa a história bem esclarecida à plateia e as excentricidades presentes servem de distensão cômica as verticalidades envolvidas. As três intérpretes são muito talentosas e proporcionam uma obra de qualidade. 

Destaque para Guida Viana. Suas características pessoais presentes não podem representar um senão, mas umaalegria. Guida Vianna ultrapassou o espaço de protagonista para o de Star System. 

Ela traz convenções de personagens anteriores assim como Roberto Carlos precisa cantar Emoções. O que para alguns é formatação de personagem por meio de práticas já experimentadas, para mim é reapresentação de qualidades cênicas mais importantes do que a pseudo pureza de construir uma personagem do zero absoluto (se isso for possível). 

Obviamente, estivéssemos diante de uma personagem cujo grau de exigência clamasse por uma construção inédita fariaalgum sentido, mas diante de uma personagem sem maiores contornos dramáticos nada melhor do que assistir ao repertório já ovacionado. 

Guida possui um cabedal próprio apto a estacionar em praticamente qualquer personagem. Basta acrescentar uma pontuação ou detalhamento específico. 

Outro ponto positivo à direção e ao autor. 

Por vezes, o artista é maior que a personagem. 

Basta equilibrar e deixar o público receber o melhor de ambos. 

Assim, não perdemos as qualidades de Guida e nem as características da personagem Glória. 

Por fim, trata-se de uma obra cuja proposta primeira visa estabelecer uma percepção sábia existencial diante das armadilhas presentes no percurso da vida. 

E o faz com pertinência, alegria e delicadeza.                          

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