Crítica Teatral
Nenhuma dor quase
Nunca vivemos dias tão felizes quanto agora. Obrigado Armazém Companhia de Teatro por esfregar em nossa cara não só o vazio de não ter uma resposta, mas também dos nossos próprios atos nem dizerem nada.
Foto: João Gabriel Monteiro
Por gabriel m. barros
Beckett é o agora. Nunca deixou de sê-lo desde que seus textos começaram a vir a público. Não atoa o Nobel, não recebido, blá-bblá-blá. Já escrevi sobre uma peça dele, assistida recentemente, o Fim de Partida, comparando com outra de Ionesco, As cadeiras. Seria redundância tomar aqui a pertinência ainda de se interpretar tal ator.
Porém, para não dizer que não falei das flores, partamos do ponto comum: as peças beckettianas partem do vazio, dum mundo já destruído, pó, fragmento, aos pedaços, em Dias felizes, peça que trato agora, não é diferente. Mas é diferente: se normalmente o silêncio impera no teatro de Beckett, aqui há barulho o tempo todo, nem sempre dizendo nada, e um barulho nunca respondido.
É a história de Winnie e Willie, encenada estupendamente pela Armazém Companhia de Teatro, entrando na última semana no Sesc Pompéia. Patrícia Selonk dá vida, brilhante e angustiantemente a Winnie, a falante da peça. Por usa vez o papel de Willie, o esposo que solta muxoxos e fala algumas vezes tem revezamentos entre os atores Felipe Bustamante, Isabel Pacheco e JopaMoraes (no dia em que fui, assisti a atuação densa e muito bem executada de Bustamante).
Winnie está da cintura pra cima (depois até o pescoço), num cenário magnífico feito pela Carla Berri e Paulo de Moraes (este também assina a direção). A personagem fala de si pra si, de si para com os objetos e de si com o marido. É um fluxo contínuo praticamente, e está dado a ausência de interlocução.
É uma personagem que lembra os fatos pela metade, e que insistentemente se refere a uma “moda antiga”, querendo restituir isso, que nem ao certo ela se recorda, contudo precisa recordar para manter o otimismo. O passado deixa reminiscências, e é nessa falsa nostalgia, pois não é isso, é algo mais fundo que Beckett trata, que a personagem principal lida.
Dar corpo, pela metade a princípio e depois só o rosto, e voz para essa personagem é dificílimo, seja pela densidade do texto, pelo ritmo que ele pede e também pelo próprio movimento de soltar ideias disparatadas ao mesmo tempo que cria profundos espaços reflexivos Selonk cria uma personagem tão genuína que doí em quem assiste ver tudo aquilo acontecendo. Nós, espectadores, também somos aquele casal com sacolas na mão que a vê e nada faz. Apenas com seu rosto, já no segundo ato, o que acontece é uma explosão, ao mesmo tempo que se pensa a intensidade vai se perder, é aí que a atuação de Patrícia ganha um brilho muito próprio, em tornar vivo as expressões faciais, o desespero estampado, ainda que numotimismo da boca pra fora. Sem dúvidas uma das atuações mais viscerais que presenciei.
Óbvio que essa atuação também não ressoaria sem esse parceiro que ocupa a cena o tempo todo e sequer interage. Inclusive, Willie se rastejando pela cenografia, dando cambalhotas e em outras ocasiões explodindo, de raiva ou de riso, tem na interpretação do Bustamante o controle de quem entendeu muito bem a densidade do que se pede ao ator e do quanto um corpo em cena, mesmo inerte diz várias coisas, e obviamente quando o texto é pronunciado, o gesto realizado, alguma coisa se desloca em todo o andamento da encenação. É uma presença que não provoca angústia, mas sim que traz uma carga dramática enorme ao que está acontecendo no palco.
Em tempos que só um fragmento nosso é exposto deliberadamente, feito Winnie, o corpo que falta é o menos importante, sequer questionado, há algo mais profundo de um silêncio atroz desses comentários vazios que recebemos em troca, dessa ruminação constante, desse lugar nenhum chegado ou por chegar, feito Willie e suas devolutivas mais evasivas do que alguém que interage. Por isso o “nenhuma dor”, várias vezes professado, é logo corrigido para um “quase nenhuma”, e a promessa do dia feliz, de que hoje será um dia feliz, fica apenas no campo do enunciado, mas não vivido.
Nunca vivemos dias tão felizes quanto agora. Obrigado Armazém Companhia de Teatro por esfregar em nossa cara não só o vazio de não ter uma resposta, mas também dos nossos próprios atos nem dizerem nada. Por isso, a crítica aqui é só mais um ruído, um monólogo desenfreado, melhor mesmo é não perder a oportunidade de ver essa apoteose com os próprios olhos e aí poder desfrutar do silêncio que a peça gera em nós.

