Colunista
Teatro como partilha
A boniteza também reside numa Dalva que é tão dona de si que intervém na própria dramaturgia e revela que há visões apaixonadas demais em Borghi e propõe outras formas de interpretar as próprias vivências
Foto: João Caldas
Por gabriel m. barros
Tem uma coisa muito bonita no ato da partilha, nesse gesto cotidiano e costumeiro que a gente indica algo para outro. Esse movimento de recomendação me parece ser duplo: por um lado quem indica se expõe e acaba revelando mais de si mesmo; por outro lado, nesse ato de dividir, também é como se partilhasse seu pequeno tesouro. Da minha parte, por exemplo, meu pequeno tesouro são os livros do Mario Benedetti, escritor uruguaio, que me fascina e impressiona por ver tanta beleza no ordinário e também mostrar os pequenos milagres do estar vivo em seus textos.
Esse longo preâmbulo é pra sinalizar que já tem alguns anos que Renato Borghi, esse ator inconfundível e que está no nosso panteão dos melhores, tem, quase como Prometeu, pegado a chama dos deuses e nos incendiado e iluminado, pois segue expondo, dividindo e também multiplicando (nessa matemática às avessas que ossentires provocam) seu amor pela cantora Dalva de Oliveira.
O movimento que o ator e dramaturgo tem feito atualmente é de expressar e partilhar seu amor por Dalva através do espetáculo Minha estrela Dalva, em cartaz no Centro Cultural Fiesp, entrando em sua última semana. Aos que conhecem um pouco da trajetória de Borghi saberão que não é a primeira vez que a cantora e sua história ganham uma encenação pela mente do ator. Da minha parte, quando vi sua encenação com Amir Haddad em que, como indica o título, “cantam o teatro, livres em cena”, ali há um momento que dividi o fato de que sua veia artística e seu desejo pelos palcos vem, em grande parte, pelo que Oliveira provocou nele.
Nesse aspecto, o espetáculo é um Borghi, também amparado por Elcio Nogueira Seixas (que assina a direção junto com Elias Andreato), que vive o próprio, se encontrando com a cantora e tecendo com ela uma encenação de parte da sua vida. Nesse sentido, a peça é o encontro dos dois, é também o ensaio desse texto e as passagens por parte da vida dela.
Dalva é brilhantemente revisitada e feita por Soraya Ravenle, que tem uma trajetória consolidada no teatro musical brasileiro e que aqui, com uma maestria digna das grandes, se torna a cantora. É impressionante como sua voz, postura, os sotaques, enfim, a beleza e grandeza de Dalva são acionados no corpo e nas ações de Ravenle. A primeira cena que entra cantando já me comoveu profundamente. A plateia presente no dia em que assisti também se agitou e se comoveu com essa interpretação.
Enquanto Soraya se faz um sol incandescente como Dalva, os outros atores como os planetas ao seu redor, digamos assim, é vivido por Ivan Vellame. Com uma voz inebriante, Vellame dá vida a vários personagens, demonstrando sua versatilidade, a maneira como deu características próprias a cada um deles, respeitando a sutileza de cada persona recuperada. Essa dupla, Soraya e Ivan, tornam o espetáculo grandioso.
A cena em que Dalva e Herivelto ficam “se correspondendo” por músicas é muito boa, sobretudo pelos pot-pourris das canções e composições dos dois. Aqui, somados ao canto de Ravenle e Vellame soma-se o grupo musical, com arranjos e direção de William Guedes e contando com músicos excelentes.
A boniteza também reside numa Dalva que é tão dona de si que intervém na própria dramaturgia e revela que há visões apaixonadas demais em Borghi e propõe outras formas de interpretar as próprias vivências. A obsessão de Renato ao tratar da “sua” Dalva é também marcado de profundo amor e reverência. Essa me parece ser a grande beleza dessa partilha: de alguém que tenta ver seu amor na inteireza e o mostra assim para que outros também se apaixonem.

