Curitiba
O Bardo Tatára fecha as portas, mas sua história seguirá viva
Entre poesias, música, conversas e encontros inesquecíveis, o Bardo Tatára formou artistas, acolheu sonhos e deixou uma marca profunda na cena cultural curitibana. Esta é uma despedida carregada de memória e gratidão.
Por Vanessa Ricardo
Esse é um texto de despedida.
Eu já sabia que a Cleusa Machado, viúva do Tatára, estava passando por dificuldades na administração do Bardo Tatára. Mas ouvir e ver que, de fato, o bar vai fechar criou em mim um incômodo profundo.
Para quem não sabe, foi a minha passagem pelo bar que me tornou jornalista cultural e, anos depois, me fez criar o Jornal A Cena.
Comecei a frequentar o Bardo Tatára no final de 2004, nos últimos anos da faculdade de Jornalismo. Eu já gostava de arte e cultura, mas, aos 20 anos, ainda não tinha certeza de qual área da comunicação seguiria.
Foi lá, escutando as histórias do Tatára e da Cleusa, que a minha paixão pela cultura se fortaleceu. Foi ali que conheci, por meio das histórias que ouvia, Paulo Leminski, Lápis, Paulo Vitola, Big Jonas, Poeta Tadeu, Marcos Prado, Cabelo e tantos outros. Sem dúvida, a minha passagem pelo Bardo Tatára me transformou como pessoa. Foi ali que comecei a valorizar a nossa arte, a nossa cultura e os nossos artistas.
Foi lá também que conheci o Paulo. Ele morava na CIC e tinha um jornal impresso chamado Planeta Rural. Em uma das tantas conversas com o Tatára, surgiu a ideia de lançar o jornal impresso O Pestana, dedicado à cultura. Foi ali que comecei a escrever. O Tatára me pautava, indicava qual músico eu iria entrevistar, sugeria caminhos. Vieram diversas reportagens, muitos aprendizados e a certeza de que eu havia encontrado o meu lugar.
Quantas vezes vi o Tatára andando sobre as mesas do bar, declamando poesia. Quantas madrugadas acompanhei processos de composição, ouvindo, pela primeira vez, músicas que acabavam de nascer.
Também vi o surgimento da Segunda Autoral, projeto idealizado pelo Tatára, inspirado em uma experiência que o Cabelo, um de seus parceiros de música que morava em São Paulo, havia conhecido. No começo, a Segunda Autoral reunia poucos músicos em volta de duas mesas. Com o passar das semanas, foram chegando mais artistas, mais público, mais histórias. O encontro ganhou o palco e passou a existir e resistir por mais de 17 anos, mesmo após a partida do Tatára, em abril de 2020.
E, além da música, nunca faltava a janta sempre deliciosa, preparada e oferecida com carinho pela Cleusa Machado.
O Bardo Tatára nunca foi apenas um bar. Foi uma escola, um palco, um ponto de encontro, um refúgio para artistas e amantes da cultura. Para mim, foi onde descobri a profissão que mudaria a minha vida e onde plantei a semente do que hoje é o Jornal A Cena.
Ver esse ciclo chegar ao fim dói. Mas tenho certeza de que tudo o que nasceu entre aquelas mesas continuará vivo na memória de quem passou por ali e, principalmente, na cultura de Curitiba.
Para quem quiser se despedir desse espaço que fez história, ainda dá tempo. Até o dia 13 de julho, o Bardo Tatára recebe uma programação mais do que especial, reunindo artistas que ajudaram a construir essa trajetória e que também tiveram suas histórias marcadas por aquele palco e por aquelas mesas.
É uma última oportunidade para celebrar a memória de um dos espaços mais importantes da cultura curitibana.

