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Festival de Curitiba

O grito espiralar como o ato de reparação da “Medeia Negra” 

Estamos, ainda, vendo uma fisicalidade ao extremo ~ e como é incrível acompanhar uma performer indo às últimas potências, com o suor em seu corpo sinalizando sua total entrega à arte

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Por Carlos Canarin (@ocanariocritico) 

Interessante como me percebo novamente aqui falando sobre reparar, revidar, reposicionar e redistribuir a violência a partir de um espetáculo de teatro. Historicamente na dramaturgia ocidental é de se perceber um ato progressivo de atualização da tragédia de Eurípedes, seja ela inflamando a violência reparadora cometida por sua protagonista ~ como feito por Sêneca ~, seja então politizando cada vez mais a situação apresentada com seus arredores e coadjuvantes, visto o que faz Chico Buarque e Paulo Pontes em “Gota d’Água”.

Racializar Medeia enquanto uma mulher negra já é uma realidade no teatro brasileiro desde o século passado, vide o texto de Agostinho Olavo intitulado “Além do Rio” (1957), obra que compõe a antologia “Drama para negros e prólogo para brancos” organizada por Abdias Nascimento e escrita especialmente para o Teatro Experimental do Negro. Aqui acompanhamos uma rainha africana que, uma vez seduzida por seu algoz colonizador e posteriormente traída por ele, busca reparar seu lugar de nobreza e libertar seu povo das garras de um Jasão branco. Mais recentemente, vimos Jé Oliveira apresentar a “Gota d’Água Preta”, uma versão com um elenco majoritariamente negro com a protagonista Joana (a Medeia brasileira) interpretada por Juçara Marçal. A personagem é atualizada pelo grupo pois, mesmo com tantos indicativos de que seria negra (ou pelo menos não-branca), os autores do texto original jamais a posicionaram como tal.

E é impossível não colocarmos nesse bojo de Medeias Negras o monólogo de mesmo nome protagonizado pela atriz baiana Márcia Limma. Desde que entrei em contato com a produção negra baiana a partir da Escola Pele Negra esse é um dos trabalhos que sempre quis ter a oportunidade de assistir. E foi pelo FRINGE, através da Mostra Baía de Vozes Insurgentes, que finalmente isso aconteceu.

Acompanhada pelo músico Roberto Brito, Limma desde o início propõe um convite cênico muito relacional e próximo: não existe propriamente um cenário, estamos posicionados de frente para a cena, com uma arquibancada em frente a outra, agrupando a plateia pelo gênero que cada uma/um se identifica. E o público privilegiado, diferentemente do que acontece lá fora, é o feminino. O texto assinado por muitas mãos é direcionado a elas, referenciando diretamente o Coro das vizinhas como vemos em obras anteriores e mesmo na original. Mas o cânone ocidental é apenas uma referência; essa é uma outra Medeia, apesar de misturar muito dos traços já indicados por Eurípedes. É uma Medeia que convoca a transformação contra o patriarcado, mesmo que pelo uso de uma violência reparadora.

Márcia é uma atriz arrebatadora. Mesmo com tanta tensão presente desde o início, de uma agonia que remete a Tia Hester e seu grito contra a escravização e a colonização, servindo assim como um ato de resistência e deslocamento, a atriz transita por emoções de forma admirável e profundamente técnica. Estamos, ainda, vendo uma fisicalidade ao extremo ~ e como é incrível acompanhar uma performer indo às últimas potências, com o suor em seu corpo sinalizando sua total entrega à arte, elevando e refinando seu estado de presença com uma encenação aparentemente simples no sentido de sua estrutura, mas permeada por profundidade e excelência.

Volto a pensar em Tia Hester e a análise dessa iconografia apontada por Fred Moten e Frederick Douglass, sobretudo nos números musicais que nos levam ao blues e ao jazz ~ ritmos essencialmente negros, remetendo a registros vocais afrodiaspóricos e que têm origem na violência da escravização negra. É um canto encharcado da dupla voz, de linhas melódicas que espiralam a agonia e a dor, mas principalmente uma beleza e força sem igual. Perceba: é a prática do revide, da transformação do silêncio em linguagem e ação assim como nos propõe Audre Lorde. E menciono ainda a sonoplastia performada ao vivo por Romero, dilacerante como a interpretação de Márcia.

É mais um daqueles trabalhos que deveriam estar na Mostra Lúcia Camargo, não por achar o FRINGE algo menor, mas pela possibilidade de ser compartilhado com um público maior, dando ainda mais vitrine a um espetáculo de tamanha qualidade.

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