UMA LITERATURA BEM INVESTIGADA PODE ENFRAQUECER A BASE DA PRISÃO DE MASSA

Por Igor Horbach

Na última semana eu trouxe o texto sobre a capacidade da literatura de colocar a sociedade brasileira o mais próximo de uma equidade geral. Para esta, complemento a coluna passada levantando um outro assunto muito importante. Nos últimos anos no Brasil assistimos a governos que influenciam ensino técnicos como meio mais rápido e compensador de se ingressar no mercado de trabalho. O resultado mais lógico que nos é mostrado atualmente é a alta taxa de desemprego do país, já que tivemos muitos profissionais sendo formados e poucos lugares de ocupação. 

Um mundo utópico, como discorrido na semana passada, não é algo impossível de acontecer, que fica restrito apenas às imaginações de autores literários. É algo muito forte e próximo. Quase semana que vem. A educação no Brasil vem sendo alvo de de uma política tecnocentrista, onde não importa se aquele indivíduo possui desenvolvimento sociológico, filosófico, ético, empreendedor ou até mesmo científico. O “importante” é ser técnico e direto. Transformar todos em robôs capazes de executar a mesma e única ação todos os dias pelo resto de suas vidas assalariadas. 

Esse tipo de sistema, medíocre e prepotente, junto com outros cercamentos, está transformando uma sociedade, que já possui tantos problemas, em uma que não é capaz de pensar e ver um palmo à sua frente. Como pensar na internet que não me chega se preciso me preocupar em pagar o aluguel superfaturado no final do mês, ou no gás de cozinha a preço de moeda internacional? 

Esta é uma situação que grande parte dos brasileiros passam. A exemplo, quantas vezes você parou para pensar se sua operadora está realmente entregando a quantidade de internet que contratou? Enquanto isso, temos apenas 1% de 200 milhões, desfrutando de suas riquezas acumuladas. O próprio mercado é o principal patrocinador desta política, já que é extremamente vantajoso ter um time de funcionários que não pensa em seus direitos. 

Como a literatura pode contribuir contra este tipo de influência negativa? As maneiras são variáveis e contundentes com as realidades descritas nas obras. Novamente, trago o exemplo do autor George Orwell, mas desta vez com a obra A Revolução dos Bichos. A história tem como ‘espinha dorsal’ a revolução dos animais escravizados pelos homens e se aprofunda ainda mais na discussão de comunidades que se auto escravizam, sempre do ponto de vista dos bichos, parecendo uma fábula. 

Talvez o ponto mais importante que devo destacar não é apenas as recomendações bibliográficas, mas as possibilidades de análise e reflexão destas obras. É apenas com o aprofundamento dos temas discutidos em cada livro que poderemos relacioná-los com nossas realidades ou, no caso de livros clássicos, como o exemplo citado, pauta-los com as vivências da época do autor e contrapor com a era vivida por nós atualmente. Assim, conseguiremos projetar em nosso consciente todos os caminhos percorridos pela sociedade que pode estar nos levando a apoiar e não compreender a política tecnicista e escravocrata que nos é imposta. 

Refutar veemente que obras literárias são imaginações afloradas de artistas insanos é como dar largada a esta corrida. Passando pelo primeiro bastão, temos uma reflexão primária de como essa obra pensa “sociedade”. No caso da Revolução dos Bichos, temos os protagonistas se reconhecendo como escravos dos humanos, portanto, os vendo como inimigos mortais. Mais adiante, é a hora de trazer determinado contexto para o nosso atual. Diante de uma escravidão televisionada e satirizada, como os protagonistas lidariam? 

Outros pontos, como a relação de um acontecimento específico do livro com um próximo ou de mesmo teor recentemente noticiado nos jornais, a reflexão de como o meu dia a dia se distancia ou se converge com aqueles protagonistas, as etapas usadas por eles para revolucionar e reparar os danos feitos pelo “antagonistas” e muitos outros que podem se desdobrar dentro de uma análise simples e de poucos minutos, durante e depois da leitura. A linha de chegada é individual e interdisciplinar. Cada indivíduo conseguirá atribuir um reflexo, até porque o mesmo objeto pode ser visto de várias formas e tamanhos, e o mesmo se aplica aos livros e suas correlações com experiências. 

A partir do momento em que realizamos análises literárias, correlacionando-as com as nossas vivências, estamos batendo de frente com o tecnocentrismo. Não precisamos somente de greves, cartazes e barulho para trazer a revolução. O estudo aprofundado de uma obra artística já é uma revolução e resistência significativamente perigosa para um sistema perverso e fraco, como o alvo deste texto.  A arte em sua vastidão complexa, contrapondo completamente o que a grande massa relaciona, não são objetos e produtos feitos apenas para ouvir, ver, ler e tocar. São desenvolvidas para serem sentidas, correlacionadas, interpostas, estudadas, aprofundadas e mergulhadas em cada consciência, vivência e principalmente, corpo social de convívio mútuo. Até porque para termos movimentos revolucionários grandes com capacidade de resultados necessários, precisamos de indivíduos presentes e pensantes, o que exclui qualquer tipo de tecnicista existente. 

Por último, esclareço que não aponto aqui uma crítica ou desclassificação de profissionais técnicos. Minha reflexão é de uma política de comportamento e limitação de massa injusta, hierárquica, arbitrária, ditatorial e letífera,  não de profissionalismo.

 

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