ESSA HISTÓRIA É MUITO RUIM PARA SER UM LIVRO

Por Igor Horbach

Praticamente, todos os dias no Brasil são lançados livros pelo mercado editorial. Quando falamos de livros, estamos falando de obras, não importando qual seja o gênero literário. Um drama, uma ficção urbana, autoajuda, espiritual, qualquer que seja ela, é uma obra literária. Todavia, o que menos falamos é sobre como esses livros são taxados de BOM ou RUIM tanto pelo próprio editorial quanto pelo grande público. Quais são os critérios que levam um livro para a Bienal do Livro de São Paulo e quais são os que fazem com que essa obra não chegue nem perto? 

É claro que para compreender esses critérios impostos propositalmente, precisamos primeiro entender a cultura de massa corrente pelo nosso país. Com alguns cliques na internet é possível acessar os mais vendidos da Amazon (maior vendedor de livros atualmente) e descobrir que no topo dessa lista estão sempre os Best-sellers do The New York Times, jornal norte-americano. Onde está a literatura brasileira? E porque as editoras não promovem os livros nacionais da mesma maneira que o fazem com as traduções norte-americanas.? 

Poderíamos, é claro, colocar a culpa única e exclusivamente no mercado editorial, contudo, como falei na coluna passada, eles não passam de um peão (isso não retira a parcela de culpa). O sistema é tão complexo que até mesmo o setor turístico está na jogada influenciando esta cultura de massa, quando, por exemplo, é mais barato ir à Disney do que à Fortaleza ou Salvador.  Por isso é importante dizer que são inúmeros os fatores para uma desvalorização da literatura nacional. Os streamings são um dos grandes vilões quando fazem adaptações de obras no topo da lista do New York Times, porém, essa é uma discussão mais audiovisual. 

Pode não parecer, mas é graças a esse consumo elevado de outras literaturas que acreditamos que a nossa é inferior, ruim a ponto de ser vista como uma obrigação, apenas para vestibulares e notas na escola. Quando temos essa inversão de polo, passamos a ver o outro lado como algo distante, pois estamos condicionados e acostumados com um método em questão, o que nos impede de ver o oposto em todos os seus detalhes. 

Isso é tão forte que passamos a acreditar que a literatura nacional é chata, tediosa, mal escrita e até desqualificada para ser um livro digno de Bienal. Há um movimento que tenta inverter essa situação, quando torna literatura obrigatória (o que é primordial), contudo peca na prática quando coloca na mesa apenas livros de José de Alencar, Machado de Assis, Graciliano Ramos e por aí vai. É imprescindível que estudemos nossas literaturas clássicas para que consigamos espelhar com a nossa realidade e assim compreender a sociedade que nos cerca, contudo, esse movimento de apresentar únicamente isso, apenas reforça o que todo o macro sistema já reproduz. Quantos livros de autores vivos você viu no último vestibular?

Por muito tempo ouvi dizer que meus primeiros livros não eram bons o suficiente para serem livros e que não passavam de uma fanfic (história baseada em outra história já existente). Claramente um discurso classificatório, de exclusão com visão norte-americana e eurocêntrica. Os livros, do ponto de vista científico-literário, podem não ser dos melhores, contudo isso não os deslegitima nos termos de uma literatura. Se temos uma sociedade literária que desenvolve muita fanfic, talvez devêssemos olhar para o tipo de sociedade intelectual e de comportamento que estamos criando. Já fui por muito tempo escritor de fanfics e foi graças a elas que ingressei de vez nesse universo, o problema está em dois pontos: Olhar para essas obras com desprezo e inferioridade e apenas termos produção dessas sendo vistas, lidas, lembradas e talvez o pior, usadas como generalização. 

Um livro bom ou ruim não é aquele que está no topo de uma lista de mais vendidos de empresa nenhuma. Se levarmos o número de vendas como qualidade de produção, estamos condenados ao fracasso, não apenas no limite artístico, mas também em todos os setores. O que delimita um livro como BOM ou RUIM é a capacidade de conexão, compreensão, mutação e estímulo que transfere a cada leitor. Isso porque cada obra é um ponto de vista do autor sobre a situação descrita, debatida e desenvolvida, que chegará de uma forma diferente a cada leitor, pois o mesmo também ocupará lugares diferentes daquele apresentado pelo autor, o que transformará o modo de entendimento. 

Em termos de escrita, isto é, a maneira como as obras são desenvolvidas, o mercado editorial impõe os lugares de BOM ou RUIM nas obras para evitar que façam uma aposta financeira negativa. Do ponto de vista socioeconômico, é compreensível uma ação como essa. Contudo, do ponto de vista prático, é uma falsidade sem tamanho. À exemplo, alguns livros de Youtubers famosos que foram lançados nos últimos anos. Do ponto de vista da escrita em si, são livros ruins, contudo venderam muito e boa parte do motivo não foi nem por serem youtubers famosos com mais de cem, duzentos mil inscritos e sim porque receberam uma aposta financeira significativa por parte da editora. Na contramão, temos autores com escritas excepcionais que precisam pagar até 20 mil reais para publicarem seus livros. E esse pacote não inclui marketing e propaganda e muito menos aposta da editora em eventos literários. 

Podemos concluir que se trata de uma grande hipocrisia do mercado listar obras ruins ou boas para vender, porque eles não estão preocupados em vender exemplares e sim em conquistar clientes (autores) que pagaram absurdamente e nem lidos serão. Eles ganham mesmo é com os best-sellers, isso porque a aposta financeira é fortalecida com os outros meios do mercado econômico, como cinema extrangeiro, turismo internacional, importação de produtos etc. Editoras brasileiras investem até quatro vezes mais em livros estrangeiros do que em obras regionais que em sua grande maioria são mais complexas, desenvolvidas, escritas e apresentadas de maneira mais qualificada que a de outros países, e não porque a literatura estrangeira é inferior, mas porque não dialoga com nossa realidade (já temos coluna falando sobre a relação da literatura com a cultura). Quando consumimos mais literatura estrangeira passamos a compreender mais da cultura do outro do que a nossa mesma, e por isso passamos a acreditar que nossas obras são ruins. Quantos livros nacionais você leu e as comparou com livros estrangeiros e ao fazer isso a deslegitimou? Quantas vezes você leu um livro brasileiro e pensou que a escrita do autor/autora era ruim, mas quando você leu uma tradução semelhante concedeu cinco estrelas na avaliação do google ou da loja online? 

Talvez a principal reflexão que venho trazer é a forma como olhamos e classificamos as nossas produções regionais. Será que o livro é ruim? Se é ruim para você (porque vale lembrar que qualidade é uma questão empírica), quais foram os motivos? Esse livro é inferior porque existe uma história semelhante desenvolvida por um norte-ameticano qualquer  ou porque você só não se conectou com o tema? Qual o diálogo que o livro estabelece com você? São perguntas que devemos refletir e pensar ao longo de uma leitura, sendo ela regional ou internacional. 

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